— O tambor de crioula vem lá do Maranhã e é homenagem a São Benedito, que é santo preto e gosta de festa. Meu São Benedito / eu sou seu escravo / se eu morrer aos seus pés / eu sei que eu me salvo

— O tambor de crioula é afinado no fogo, tocado no murro e dançado no coice.

Meu São Benedito / eu sou seu escravo / se a saia rodar / eu sei que eu me salvo

São Benedito, o Averequete do vodum, é talvez um sacana mulherengo muito satisfeito com o harém que é a roda do tambor. O batuque intoxica ainda mais que o álcool e é possível sentir o ar vibrando a cada batida, as branquelas do sul dançam como qualquer crioula dançaria, estátua do santo na cabeça, as saias rodando insinuando-se ora aos tocadores, ora à platéia, mas com mais freqüência umas às outras. Quando os olhares de duas mulheres se cruzam bate a química forte demais pra resistir, elas se aproximam como gatos armando o bote e fazem a punga, uma umbigada lasciva que convida novas coreiras ao centro da roda.

Meu São Benedito / eu sou seu escravo / se a festa tá boa / eu sei que eu me salvo

Nietzsche disse que não poderia acreditar em um Deus que não sabe dançar.

Eu vou beber o mar / eu vou beber o mar / se aqui não tem cachaça eu vou beber o mar

Os três tambores (um solista, um marcador de cadência e um de improviso) esquentam primeiro na fogueira, depois no tapa. A platéia faz coro aos cânticos, populares ou improvisados na hora.

Meu São Benedito / eu sou seu escravo / se eu morrer aos seus pés / eu sei que eu me salvo

A cultura africana preservou-se tanto tempo sincretizando-se com a branca, e agora somos nós que vamos buscá-la para enxertá-la na nossa.