Fico imaginando se a questão da decepção está relacionada. Eu sou capaz de decepcionar, basicamente, todo mundo. Este textinho soará autopiedoso, mas é pura constatação objetiva, congelante. Entre família, amigos, trabalho e grupos étnicos, não consigo pensar em ninguém que possa aturar minhas características internas. Se você ainda não se decepcionou comigo, é porque não me conhece direito.

Seria questão de ser raso e amplo demais? O meu domínio de interesses é incongruente, desfocado, causa uma sensação de desorientação. Mas não consigo me convencer de que seja só isso. O buraco é mais embaixo.

Refatoro abaixo idéias de minhas anotações.

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Meu estilo de escrever defini certa vez como “cocatriz”: quando toco em uma discussão (em um fórum ou lista de e-mail), ela vira pedra. Morre. E meu palpite é que este efeito vem efetivamente do estilo, não do conteúdo das mensagens.

E o que é o estilo, senão uma traição de seu mundo interno, uma linguagem corporal abstrata? Dizem que não se pode esconder nada na literatura. Que tudo o que você é transparece na própria composição, na pontuação, na escolha de palavras. Talvez o mesmo aconteça com desenho, com o jeito de fazer pesquisa, com tudo. Talvez seja impossível se esconder. E não é sem razão que ninguém comenta ou acompanha este diário por muito tempo. Ele é chato, porque é meu. O signo indelével e indisfarçável da chatice estende-se a tudo o que crio, meu toque de Midas particular, minha marca da Besta, minha cicatriz de asas arrancadas. A quem estou enganando brincando de cientista, de escritor, de artista marcial? Não sou.

Entendi que o que incomoda não é o que eu digo, o que eu faço, mas como. Sou inocente onde deveria ser sacana, abstrato e verboso onde deveria ser natural, romântico onde deveria ser banal, cafajeste onde deveria ser compreensivo, perfeccionista onde deveria fazer vista grossa. Todos esses “deverias” são escamas do dragão “tu deves” do convívio social, e a cada um deles tentei obedecer sem sucesso. Minha natureza é meu ponto de equilíbrio, meu atrator estranho em torno do qual fatalmente oscilo. Não antisocial, mas não-sociável; não misantropo, mas antropômiso, antropófobo, antropálgico.

Sou um tipo de mutação no ambiente errado. Nasci para ser um peão no meio da guerra, com a propaganda política em todo lugar me convencendo de coisas — matar gente cegamente achando saber o porquê e morrer jovem. Ou para ser camponês e passar a vida dormindo e trabalhando. Ou para ser um hippie idealista, viciar em heroína e terminar anônimo em overdose. Ou para ser considerado louco, internado e dopado a vida inteira. Nasci bastardo, concebido na culpa, na condenação e na superposição destrutiva de mundos diferentes. Acima de tudo, nasci otário.

Sou um otário numa época em que não há espertos para se aproveitar de mim.

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A derrota é inevitável? O arquiteto da aflição de Loki é o próprio Destino?
Mas, se for assim, a quem pode um deus pedir clemência?

O que posso fazer? Queria me virar do avesso, deixar todo o meu sangue ruim pra fora exposto, como faz um colega filósofo. Queria arrancar meus olhos, rasgar minha cara, engordar como o Jim Morrison. Mas meu amigo vive completamente sozinho, e eu tenho medo. Fugir? Pra Manaus, pra casa da mãe, pras montanhas, pro templo, pro trabalho, pra academia, pra religião, pra ciência? Na leveza frívola, homérica, no hedonismo, life is short, enjoy? Nos jogos, filmes, livros? No Japão? Você tenta fugir só por esperança, mas no fundo já sabe no que vai dar.

Abandonar tudo? Seria outra vida de superficialidade, outra vida se escondendo como um rato. Suicídio? Um último acorde sem sentido no sem-sentido das coisas, e uma pessoa inteiramente detestável a menos no mundo? Mas tenho medo.

Ó estudiosos da mente, me respondam: o que acontece? Meus caros psicólogos, qual a minha classificação DSM-IV? Dedicados neurocientistas, qual hormônio eu tenho a menos, qual receptor é sensível demais?