O movimento com que a criada terminou de servir o chá foi gracioso, mas os dois não o perceberam. Eles pareciam olhar para baixo, mas a criada percebeu a forma com que se fitavam. Aos mortais e espíritos é sábio não se envolver com esses assuntos, e ela retirou-se discretamente.
— Sua visita é uma honra para minha casa, Augusto Mensageiro Celestial Tianlong. De que maneira esta serva poderia atendê-lo?
— Seus modos diretos são apreciados, Augusta Senhora dos Rios Dilong, e sua hospitalidade não será esquecida. Venho em nome do Divino Imperador Celestial acompanhar o despertar do Augusto Senhor do Espírito, Shenlong.
— O Divino Imperador Celestial preocupa-se com meu filho? Mas não é possível conter a vontade de Shenlong.
— A vontade do Augusto Senhor do Espírito é absoluta, confirmou Tianlong. Mas estou encarregado de informar aos céus se o Augusto Senhor do Espírito ainda mantém as intenções do passado, e qual será o curso de suas nobres ações.
— E o que acontecerá…?
Os pequenos olhos castanhos de Dilong tremeram imperceptivelmente. Ela pareceu crescer em postura.
— Augusto Mensageiro Celestial Tianlong, o que acontecerá se meu filho repetir as ações do passado?
— Chi You será libertado do cativeiro para selar o Augusto Senhor do Espírito por mais mil anos.
“Chi You!”, pensou Dilong, mas não demonstrou nada.

Os dois esperavam à porta da câmara proibida. Observaram imóveis os selos sendo lentamente quebrados, e enfim surgiu Shenlong entre luz e vapor. Renascera como um jovem de cabelos cinza-azulados, longos, mas com o mesmo olhar distante e dominador.
— Shenlong.
— Mãe.
Encararam-se por um momento, e curvaram-se. Shenlong notou então Tianlong, e repetiu a mesura.
— Augusto Mensageiro Celestial, Dragão dos Céus, Tianlong.
— Augusto Senhor do Espírito, Dragão da Chuva, Shenlong.
Sem mais, Shenlong dirigiu-se calado para fora do palácio e partiu para os céus.

Dilong não voou. Não voara por dez mil anos, e não voaria ainda por muitos outros. Perguntou a Shenlong:
— Meu filho, que pretende fazer aos homens?
— Que tenho a pensar sobre os homens, minha mãe? Eu chovo.

Mas dos céus o dragão viu as cidades dos homens, e tudo o que eles construíram. Shenlong não se compadeceu, porque Shenlong não sabe o que é compaixão. Porém decidiu ajudar os homens, e naquela manhã tudo esteve certo com o mundo. As nuvens evitaram a praia com os estudantes e voaram com o vento para a casa do poeta que as amava. Choveu muito em lavouras e açudes e jardins, e nada em executivos com pastas ou senhoras doentes ou gatos de rua. Quem procurou emprego encontrou, quem investiu lucrou, quem tinha fome comeu, quem queria a morte encontrou-a em paz, quem estava triste viu as sete pedras do arco-íris.

Entretanto, os homens nada notaram ou agradeceram, e pela tarde já não se lembravam da manhã, e seguiram com seus desejos e sofrimentos. Shenlong entendeu então que quando fluíam em harmonia com os céus os homens esqueciam-se de si mesmos, e que os homens eram como a chuva, e Shenlong sorriu, e serpenteou velozmente pelos céus.