Thu 27 Oct 2005
Enterrado em mais tarefas do que sou capaz de cumprir, observei algumas coisas úteis para a eterna luta contra a procrastinação. São táticas bem pessoais e que talvez não sirvam pra mais ninguém, mas em todo caso decidi registrá-las.
(E não estou jogando tempo fora =D saí de casa pegar um livro de C++ e fiquei subitamente preso na faculdade por uma chuva repentina.)
- Como o Joel comentou esses dias, “‘importante’ não é binário”. Só porque uma tarefa tem que ser feita não significa que ela tenha que ser feita agora — especialmente quando outra tarefa precisa. Por exemplo, cedo ou tarde eu tenho que configurar o firewall lá em casa. Mas se eu também tenho um trabalho pra amanhã, bem, o firewall esperou até agora e pode esperar mais um dia. Configurá-lo foi uma desculpa para fugir das obrigações mantendo a consciência limpa.
Estou simpatizando com o modelo do pessoal do Getting Things Done, que usa um eixo com importância e urgência como duas variáveis independentes. - Plan it along to the seventh day — de longe, o Planner é a ferramenta que mais tem me ajudado a conseguir fazer coisas. Sério, se você também usa o melhor sistema operacional do mundo e sofre com sua própria preguiça, você precisa experimentar o Planner. Sou grato até hoje ao Leslie por tê-lo apresentado a mim.
- I rave — e a segunda ferramenta que mais tem me ajudado é o Workrave. Este é um daqueles casos em que a opção livre é melhor do que todas as equivalentes proprietárias. O Workrave é um ótimo sistema de prevenção e recuperação de lesão por esforço repetitivo, e foi pra isso que comecei a usá-lo, mas acabei ficando com ele por outros motivos. Minha configuração pessoal é uma parada curta (trinta segundos) a cada cinco minutos, e uma longa (dez minutos) por hora. As paradas curtas realmente aliviam a dor nos olhos e articulações, e tem ciência de verdade por trás disso, mas pra mim o benefício mental é ainda melhor. Elas quebram aquele estado zumbi em que você só reage aos estímulos da tela — me vejo obrigado a pensar no que estou fazendo, o que não só interrompe o canto de sereia das distrações, mas ajuda a planejar melhor meu trabalho. As paradas longas também são úteis, seja porque me dão tempo para lavar a louça ou fazer um chá, seja por tirar a atenção consciente do problema (e dar chance pra atenção inconsciente).
- Sobre aditivos: café não ajuda. Energético também não, nem pó de guaraná, enfim, cafeína. Queria lembrar o nome da menina que me disse um dia pra programar elisp tomando chá de hortelã “que dá barato”¹. Se por um lado é verdade que estimulantes deixam a gente ativo e depressivos aumentam o sono, por outro notei que a qualidade de meus pensamentos não é proporcional à quantidade. A cafeína dispersa, eles ficam como um borrão de tinta espalhada com um espanador por um artista louco — um monte de ideiazinhas superficiais durando cada uma o tempo de uma vinheta da MTV, puxando cada uma pra um lado, e o conjunto não vai pra lugar nenhum. Com o hortelã² meus pensamentos são poucos mas tranqüilos, concentrados, profundos.
Mas depois de todo esse discurso, e mesmo tendo (quase) largado o café, não parei com o consumo obsessivo de chá verde. Sei muito bem que não há evidências sérias de que os efeitos cafeínicos do chá sejam diferente dos do café, mas pra mim eles são. Provavelmente é um efeito psicológico; quando tomo chá verde me conecto com monges meditando³ e meu treinamento em cerimônia do chá é evocado no corpo mesmo, ou seja, numa parte animal, escura, tátil, não-verbal, pré-humana do meu cérebro (a Márcia comentou um dia que toda vez que tomo chá arrumo minha postura). Curiosamente, o chá preto (mesma planta, preparo diferente) não me causa o mesmo efeito, mas o chimarrão (outra planta, preparo parecido) sim. - Sobre estilo de vida: o que eu me toquei é que não dá pra fazer dois papéis ao mesmo tempo. Por mais que eu curta o “computeiro junkie” e o “artista marcial”, não é possível ficar acordado até as três comendo salgadinhos e levantar às seis para treinar. Já adqüiri faz tempo o gosto por alimentação saudável e exercícios, e sinto falta quando paro; então, pra quê parar?
O Workrave tem ajudado nisso também. Aqueles trinta segundos são perfeitos para um alongamentozinho, uns abdominais sem compromisso, um pouquinho de shadow pra tirar aquela coceira dos músculos, uma desenferrujada com o bokutou. - Preciso trabalhar por horas, não por tarefas. Dizer não à hora extra voluntária. Passei a manhã toda brigando com o jabberd2 e ele não funcionou, de forma que sequer comecei a programar um bot de hello world. Isso significa que o projeto “chessd sobre jabber” não avançou nada, certo? Errado. Avançou quatro horas, minha carga diária alocada. Eu não tinha obrigação de continuar mexendo nele hoje — especialmente quando nem comecei o resolvedor de planos usando Tina, nem o trabalho de lingüística, nem os três exercícios pendentes de teoria de sistemas, nem a montanha de matéria atrasada de tópicos em teoria dos grafos, nem…
Além disso, ficar insistindo muito tempo numa coisa só causa retornos decrescentes. - O mais difícil de tudo, dizer não às pessoas que querem minha atenção.
Notas
[1] E dá mesmo.
[2] Melhor ainda, álcool :D
[3] Jung explica.
October 28th, 2005 at 07:22:48
Eu te achei interessante pacas me manda um e-mail ok….bjus
October 29th, 2005 at 20:21:07
eu sou a rainha da procastinação. a gente devia casar & procriar. renovar mundo com a nossa espécie enrolona. além disso, eu te acho INTERESSANTE. :PPPPpppppPPP
December 9th, 2005 at 23:59:26
Getting Things Done funciona sim! Dá uma passadinha no meu blog pra saber mais…
December 10th, 2005 at 11:57:34
Eu sei que dá, estou usando ^^’ preciso postar sobre isso. Está lá no meu Someday/Maybe…