O problema com a moral é que ela cria nuvens de incognoscibilidade. Ninguém pára pra pensar em exatamente por que classificamos isto como bom e aquilo como mal.

Se olhássemos amoralmente para a bondade, o que veríamos?

Consideremos dois casos arquetípicos. Fulano Bom está andando na rua com um sorvete, vê uma criança com cara de desejo, e decide dar o sorvete para ela. Beltrano Mau está andando na rua, vê uma criança com um sorvete e pega dela à força, só por pegar. O que quero saber é: qual a diferença entre Fulano Bom e Beltrano Mau?

Por mais que eu examine vários casos e veja de todos os ângulos, estou cada vez mais certo de que a única diferença está na empatia, aquilo que faz alguém sentir os sentimentos dos outros. Se Fulano Bom não desse o sorvete, a criança sofreria, e ele sofreria junto; do mesmo modo, Fulano Bom também é sensível à alegria que ela terá ao satisfazer seu desejo. Já Beltrano Mau não tem nada de demoníaco ou infernal. Ele não está “fazendo a criança sofrer de propósito”, está simplesmente buscando a sensação de poder que tem ao impor sua vontade. O estado em que os outros estão não o preocupa. Beltrano Mau é apenas cego à dor que causa.

Eu não estou dizendo que empatia é uma condição necessária e suficiente para a bondade, e sim que empatia é bondade. O impulso que nos leva às ações boas é o mesmíssimo impulso egoísta que leva às ações más: o desejo de se sentir bem. E digo mais: em ambos os casos, é o desejo de se sentir bem flexionando os próprios músculos. Tanto Fulano Bom quanto Beltrano Mau estão, cada um a seu modo, melhorando seu mundo através da própria força, e se sentem bem com isso. A única diferença é que no mundo de Beltrano Mau os sentimentos dele próprios são os únicos que existem.

Esta conclusão traz alguns corolários interessantes. Se o objetivo é aumentar o nível de bondade no mundo, o que devemos fazer? Aumentar a empatia. Mas a empatia me parece ser sensibilidade (ou seja, vontade e hábito de prestar atenção nas coisas) misturada à imaginação narrativa: Fulano Bom sofre com “peso na consciência” porque ele fica imaginando em detalhes o sofrimento da criança. Tanto sensibilidade quanto imaginação são formas de inteligência, então a maneira de aumentá-las é educação cultural. Proponho então que, mais do que qualquer crença religiosa em punição e recompensa no além, a bondade da humanidade tem sido formada pelas lendas e histórias da tradição oral, pela literatura, poesia, teatro, música, faz-de-conta, e sim — pela televisão, rádio, RPG, histórias em quadrinhos, videogame, canções pop melosas, enfim, por tudo o que educa para longe da brutalidade. A maior contribuição do cristianismo para a solidariedade não foi a noção de inferno e paraíso, e sim as descrições extremamente sangrentas e cruéis da crucificação de Jesus.

Mas se bondade é imaginação sensível, ser bom é uma posição bastante vulnerável. É conhecido que as figuras compassivas da História viviam sob o risco de entrar em colapso emocional por carregar as dores do mundo inteiro nos próprios ombros (e não foram poucos os poetas, os religiosos, os médicos levados à loucura ou ao suicídio por isso). Além disso, alguém que fosse sensível o tempo todo seria facilmente explorável por aqueles que não são (isto é uma variação do dilema do prisioneiro), e a própria educação cultural seria difícil sem uma boa dose de insensibilidade. Para alcançar os níveis mais altos e inteligentes da solidariedade, um homem de grande estatura terá necessariamente que ser capaz de desligar sua bondade quando for necessário, e eis que estamos olhando para o homem livre de Nietzsche: aquele que cria a sua própria moral.

Pra concluir, já que falei de Nietzsche, não custa lembrar que a etimologia de “compaixão” é precisamente “sofrer com”, mas o bigodudo nos lembra do outro lado da equação, do outro objetivo da sensibilidade: o compartilhamento da alegria!