Wed 23 Nov 2005
O problema com a moral é que ela cria nuvens de incognoscibilidade. Ninguém pára pra pensar em exatamente por que classificamos isto como bom e aquilo como mal.
Se olhássemos amoralmente para a bondade, o que veríamos?
Consideremos dois casos arquetípicos. Fulano Bom está andando na rua com um sorvete, vê uma criança com cara de desejo, e decide dar o sorvete para ela. Beltrano Mau está andando na rua, vê uma criança com um sorvete e pega dela à força, só por pegar. O que quero saber é: qual a diferença entre Fulano Bom e Beltrano Mau?
Por mais que eu examine vários casos e veja de todos os ângulos, estou cada vez mais certo de que a única diferença está na empatia, aquilo que faz alguém sentir os sentimentos dos outros. Se Fulano Bom não desse o sorvete, a criança sofreria, e ele sofreria junto; do mesmo modo, Fulano Bom também é sensível à alegria que ela terá ao satisfazer seu desejo. Já Beltrano Mau não tem nada de demoníaco ou infernal. Ele não está “fazendo a criança sofrer de propósito”, está simplesmente buscando a sensação de poder que tem ao impor sua vontade. O estado em que os outros estão não o preocupa. Beltrano Mau é apenas cego à dor que causa.
Eu não estou dizendo que empatia é uma condição necessária e suficiente para a bondade, e sim que empatia é bondade. O impulso que nos leva às ações boas é o mesmíssimo impulso egoísta que leva às ações más: o desejo de se sentir bem. E digo mais: em ambos os casos, é o desejo de se sentir bem flexionando os próprios músculos. Tanto Fulano Bom quanto Beltrano Mau estão, cada um a seu modo, melhorando seu mundo através da própria força, e se sentem bem com isso. A única diferença é que no mundo de Beltrano Mau os sentimentos dele próprios são os únicos que existem.
Esta conclusão traz alguns corolários interessantes. Se o objetivo é aumentar o nível de bondade no mundo, o que devemos fazer? Aumentar a empatia. Mas a empatia me parece ser sensibilidade (ou seja, vontade e hábito de prestar atenção nas coisas) misturada à imaginação narrativa: Fulano Bom sofre com “peso na consciência” porque ele fica imaginando em detalhes o sofrimento da criança. Tanto sensibilidade quanto imaginação são formas de inteligência, então a maneira de aumentá-las é educação cultural. Proponho então que, mais do que qualquer crença religiosa em punição e recompensa no além, a bondade da humanidade tem sido formada pelas lendas e histórias da tradição oral, pela literatura, poesia, teatro, música, faz-de-conta, e sim — pela televisão, rádio, RPG, histórias em quadrinhos, videogame, canções pop melosas, enfim, por tudo o que educa para longe da brutalidade. A maior contribuição do cristianismo para a solidariedade não foi a noção de inferno e paraíso, e sim as descrições extremamente sangrentas e cruéis da crucificação de Jesus.
Mas se bondade é imaginação sensível, ser bom é uma posição bastante vulnerável. É conhecido que as figuras compassivas da História viviam sob o risco de entrar em colapso emocional por carregar as dores do mundo inteiro nos próprios ombros (e não foram poucos os poetas, os religiosos, os médicos levados à loucura ou ao suicídio por isso). Além disso, alguém que fosse sensível o tempo todo seria facilmente explorável por aqueles que não são (isto é uma variação do dilema do prisioneiro), e a própria educação cultural seria difícil sem uma boa dose de insensibilidade. Para alcançar os níveis mais altos e inteligentes da solidariedade, um homem de grande estatura terá necessariamente que ser capaz de desligar sua bondade quando for necessário, e eis que estamos olhando para o homem livre de Nietzsche: aquele que cria a sua própria moral.
Pra concluir, já que falei de Nietzsche, não custa lembrar que a etimologia de “compaixão” é precisamente “sofrer com”, mas o bigodudo nos lembra do outro lado da equação, do outro objetivo da sensibilidade: o compartilhamento da alegria!
November 23rd, 2005 at 15:44:37
Perfeito.
Só há um ponto que foge um pouco da questão da empatia: a aceitação social.
Ao que parece (o que tenho observado), as pessoas sentem-se mais seguras, felizes e, até mesmo, empáticas, quando bem aceitas em seu grupo. Talvez memórias genéticas arraigadas em nossas células e córtex.
Claro, também, que é difícil separar este comportamento de todo tipo de influência psicológica, genética, gastronômica (sim, somos o que comemos) e muitas outras variantes que, no final, acabam tornando o sujeito bom (empático) ou mal (egóico).
Mas a sua descrição, de fato, é bastante convincente.
November 23rd, 2005 at 15:50:14
Visto que no texto produzido foram analisados vários casos, vistos por diferentes ângulos, me vêm a mente um emaranhado caótico de questões infindáveis!
E Quando a empatia é inexistente?
E Quando o bom não sente um exato prazer em sê-lo? Ele simplesmente é bom, mas seus atos benevolentes são incapazes de suprir a sua incessante necessidade de sentir-se bem.
E pode-se concluir que o motivo desse desprazer é porque ele não o faz por amor?
Mas e se ele julga existir amor em seu comportamento e o demonstra regozijando-se disso? Teríamos então um Hipócrita? Um hipócrita capaz de renunciar a seu egoísmo fazendo o bem, simplesmente por faze-lo, longe das teorias filosóficas e a incontrolável necessidade do homem em classificar tudo?
Um Ele benevolente que compreende que, o fato de carregar “as dores do mundo inteiro nos próprios ombros” ainda não é o fator primordial para isentar o mundo do seu próprio “colapso emocional”, mas ainda assim pratica o bem e não se satisfaz, é categoricamente bom?
Quando Schopenhauer diz que ‘O amor à vida nada mais é do que o temor à morte’, ele pensa naqueles que amam a vida, mas que esperam cientes, longe da resignação a morte em sua imponência?
Amar a Vida e Esperar a Morte não é Amar a Vida e Temer a Morte!
Se ser Bom implica a renuncia a sua incapacidade de fazer o bem a si mesmo, ai existe amor, porque entendo por Amor o ato de renunciar!
Ser bom, sabendo o ser praticante de tais atos, não o possuir – a bondade - como virtude impressa em seu consciente, mas somente em seu caráter, é realmente ser bom?
E o malvado que rouba o doce da criança por desdém ao sentimento da vitima, somente para aplicação de seu poderio como furtador de pirulitos? Esse é realmente mau quando pondera sobre seus malefícios?
E quando há Empatia da parte deste?
E… Chega!
November 23rd, 2005 at 16:48:56
Um cara que faça ações altruístas sem gostar de fazê-las costuma ser descrito como um homem “honrado”, “justo”, “direito”, “correto”, mas não realmente “bom”, “caridoso”, “compassivo”. Do mesmo jeito, alguém que faz algo não-altruísta e depois fica sofrendo por causa disso é considerado um cara “arrependido”, não um cara “mau de verdade”. Não são desses que o texto trata.
November 24th, 2005 at 07:44:17
Opa! que pena!
Sinto muito!
May 21st, 2006 at 00:14:03
A verdade é uma só. Hoje em dia são poucos os que realmente possuem empatia verdadeira. Atualmente as pessoas agem de certa forma apenas para serem lisonjeadas, e não por amor ao próximo.E em outras ocasiões, agem apenas por interesse, esperando receber algo em troca.