Recentemente coloquei ali do lado uma caixinha com os jogos que estão recebendo minha atenção. Estão listados agora dois jogos da série de RPGs Tales of, uma de minhas favoritas (se não a favorita). Mas estou triste porque não tenho ninguém para contar a respeito.

Já comentei que sou meio como um agregador. Me atraio por incontáveis coisas diferentes, mas não me satisfaço simplesmente com acesso: eu preciso mostrar para o mundo como aquilo é bacana. É por isso que não tenho ciúmes de livros, é por isso que dôo meus mangás pra Gibiteca, e é por isso que falo sem parar o tempo todo, geralmente elogiando coisas (e quando critico algo, quase sempre é pra elogiar outra coisa por contraste).

Gosto de jogos eletrônicos. Eles provavelmente ocuparam uma parcela de minha vida maior do que qualquer outra atividade, desde os seis anos (quando ganhei meu primeiro Atari) até hoje. Mas não gosto de jogos como Doom, GTA ou Half-Life. Gosto de jogos como Final Fantasy, Mario e Harvest Moon. Existe algo de completamente diferente entre esses dois estilos, a tal ponto que acho errado usar a mesma palavra para falar de ambos. De um lado temos foco na simulação, no realismo e na liberdade do jogador, e de outro, na fantasia, na arte estilizada e na antecipação da experiência, pagando alegremente o preço da linearidade para se obter uma experiência perfeita. Neverwinter Nights tem mais em comum com Flight Simulator do que com Final Fantasy. Advance Wars tem mais em comum com um desenho animado do que com Command & Conquer. Eu não gosto de liberdade nem de realismo. Meu ideal de jogabilidade é “ande para a direita até salvar a princesa”, ou “faça X1 para abrir a área 1 para poder fazer X2 para abrir a área 2 (…) para abrir a área N, que termina o jogo”. Meu ideal de arte é arte colorida, desenhada, estilizada, com músicas animadas e dublagem marcante.

Não é preciso ser um especialista para entender que os jogos do tipo que eu gosto são quase todos feitos no Japão, e quase todos para console (com exceção dos jogos amadores (doujin) e dos de romance (ren’ai)). E, lógico, os que eu não gosto são quase todos americanos ou europeus, e lançados para PC.

Quando eu era pequeno, queria muito jogar “aqueles jogos complicados” cheios de texto, e acabei aprendendo meu inglês na base do dicionário. Hoje ele é fluente o bastante para ler livros acadêmicos com facilidade, e portanto entender o último Parasite Eve não dá trabalho algum. Infelizmente, meu nível de exigência subiu e não consigo mais tolerar as traduções porcas, a dublagem horrível, as adaptações culturais nojentas e as censuras dos americanos. Meu japonês ainda está no mesmo nível de meu inglês de quando eu tinha dez anos, mas quebra o galho. Jogar a versão americana passou a ser como assistir filme dublado; não dá mais.

O problema é que não existe em torno de mim uma cultura de fãs de jogos japoneses. A maioria das pessoas que cresceu jogando Zelda comigo migrou pro Counter-Strike e não olhou para trás. Os poucos amigos que sabem o que é um “Tales Of” só conheceriam meu “Tales of Eternia” como “Tales of Destiny 2″. Fico deprimido ao pensar que nunca vou poder fazer uma piada com ikeru, ikeru. As revistas da área só tratam de jogos americanos, lançamentos no mercado americano, notícias americanas (aliás, a maior delas é americana). As lojas só importam jogos em inglês, tanto as oficiais (da Nintendo) quanto os camelôs de Playstation. Até na rede está difícil achar os jogos originais (consegui o Ghost in the Shell, mas era americano e dublado; o Valkyrie Profile original não encontro em lugar algum).

Mais uma vez a roda gira e as frustrações do passado retornam. Antes o que eu mais fazia era jogar videogame, e ninguém sabia o que era isso. Hoje todos sabem o que é videogame, mas só do tipo que eu não jogo, e não tenho ninguém para conversar a respeito dos jogos que eu jogo. Sinto como se fosse explodir.