Lady: “gosto de saber que não importa a hora em que me bata o desejo raro de Fazer Alguma Coisa, vai ter sempre Algo Pra Se Fazer por aí”.

Pois eu sinto falta justamente do contrário. Gosto de acordar e saber que não importa a hora, vai ter sempre Nada Pra Se Fazer. E isso é algo que a cidade não pode te dar, a ausência de tarefas.

Aliás, o problema vai mais longe: a cidade não pode te dar nenhum tipo de ausência. Não te dá a ausência de obstáculos à visão (horizontes)[1]. Não te dá a ausência de cheiros (ar limpo). Não te dá nunca a ausência de sons (silêncio)[2], nem a ausência de luz (escuridão). Ela é como uma moça neurótica de olhos fundos no canto de um quarto acolchoado, babulciando “sim, sim, sim” sem parar — mesmo que você não pergunte nada.

Isso tem todo o tipo de conseqüências interessantes. Por exemplo, não tendo escuridão nem silêncio, as pessoas da cidade não têm noite. Elas têm uma outra coisa, uma espécie de dia ritmado, dia transformado em zumbi, mas desconhecem a noite tanto quanto os manauaras desconhecem o frio. Também não sabem o que é solidão — quer dizer: sabem melhor do que nós o que é a solidão de não ser aceito pelos que te cercam; mas não sabem o que é a solidão de verdade, a solidão de não ter ninguém te cercando, tão familiar para quem já morou no sítio. Sem noite, sem sensibilidade para os pequenos cheiros e ruídos, sem contato com o céu, sem nunca passar um tempo sozinho no mato, não é surpresa que eles sejam tão diferentes de nós, alheios à própria animalidade. Bichos-do-mato são de Marte, filhos-do-concreto são de Vênus. E, claro, não é surpresa que eles tenham vampiros, mas nunca lobisomens.

Notas:
[1] Isto era a vista da janela de minha casa lá em Wenceslau.
[2] De vez em quando alguém comenta sobre a sinfonia de bichos que é a noite no interior, e está certo. Mas por trás do canto dos grilos, dos sapos, das corujas, você consegue claramente ouvir o silêncio, e na cidade não.