A tragédia do fã de animê é a seguinte: ele, sendo de tendência nerd, sente-se desconectado, isolado de um grupo. Entra em contato com cultura pop japonesa — mangá, animê, jogos — e fica imediatamente fascinado pela mensagem de grupo dessas mídias. Atraído pelos mundos de fantasia de amizade inesgotável e sacrifício mútuo, ele acaba convencido da moral subjacente e disposto a doar-se para o grupo — para logo em seguida espatifar sua boa vontade no chão de concreto da Vida Real. O primeiro estágio então é o de dedicação ingênua, e o segundo, o de angústia pela discrepância entre animê e realidade.

Mas não são poucos os fãs de animê angustiados, e eles logo se agrupam e criam sua própria utopia: a convenção de animê[1], um lugar onde todos são aceitos com suas esquisitices. Numa convenção as pessoas riem alto, debatem desenhos, vestem fantasias, carregam brinquedos, enfim, fazem o que querem sabendo que não serão recriminadas. Este ambiente artificial de convenção até alivia a angústia, mas é insustentável, e acabará acentuando ainda mais o contraste do mundo ideal com a realidade indiferente.

A maioria dos fãs fica neste estágio, e a alegria de ler um mangá ou de ir na convenção funciona como fuga das agruras da vida. Mas alguns chegam à conclusão — obviamente falsa quando dita em voz alta, mas nunca pensada explicitamente — de que o Japão é a Terra Prometida, cheia de pessoas legais e amistosas, e que portanto o bom mesmo é tudo o que tenha a ver com o Japão. A terceira fase é a do nipófilo amador.

Há um número de fatores que contribuem para esse engano comum. O primeiro é que, se todos os países têm características únicas, o Japão tem peculiaridades bastante visíveis (nas roupas, na língua, nos modos, nas atividades tradicionais), o que torna muito fácil associá-lo com O Outro Mundo, o mundo Além, o Paraíso inalcançável. A distância geográfica contribui para construir castelos de mitos sobre o país, e pra piorar, além dos fãs de animê, a comunidade de imigrantes também trata o Japão como a Terra Prometida[2].

O segundo é o comportamento peculiar dos japoneses quanto à investigação externa de sua cultura. Ao contrário, digamos, dos ucranianos, os japoneses parecem ser extremamente abertos e ficam muito felizes quando você, estrangeiro, demonstra interesse pela cultura deles — desde que seu interesse seja superficial, apenas de aparência, omote. Eles dão risada, ajudam, tiram fotos do gaijin vestindo quimono, comendo de hashi, dançando odori ou falando konnichiha. Mas tente conversar sobre zen-budismo, compor um haiku, citar literatura ou discutir a estética da cultura Azuchi-Momoyama e você num instante estará falando com as paredes[3]. Meu palpite é que o desconforto surge porque os japoneses modernos se sentem meio culpados por não dar atenção à própria história e cultura. Talvez um estrangeiro falando sobre esses assuntos seja como um desconhecido falando da vida íntima do pai que você deixou no asilo. Minha pista é que os japoneses que realmente gostam de zen-budismo ou literatura ou estética da cultura Azuchi-Momoyama não parecem nem um pouco desconfortáveis em conversar a respeito[4].

Por fim, o terceiro fator é o comportamento em grupo real. A moral japonesa dá, sim, bastante valor para o sacrifício pela comunidade, e cria grupos bem mais coesos do que estamos acostumados. Mas o fato não mencionado nos animês é que nós nunca faremos parte desses grupos[5]. Num grupo típico de animê há grande amizade e lealdade entre gente branca, preta, azul, de cabelos de toda cor, alienígenas, demônios, anjos, mas no Japão real o simples fato de você ser estrangeiro é mais que suficiente para te marcar como “pessoa de fora” por toda a vida, e uma conseqüência da maior coesão grupal são níves de ostracismo que nós nem imaginamos no Brasil[6].

O pobre nipófilo entusiasmado invariavelmente quebra a cara nas três coisas: ele acha que o Japão é perfeito, vai para lá e descobre que não é; acha que vai ser querido e admirado por estudar a língua e a cultura, e em geral não vai ser; e acha que finalmente vai poder fazer parte de grupos de pessoas de boa vontade — quando na verdade será forçado a ficar de fora, só testemunhando mas nunca participando! Não é à tôa que ouvimos tanta lamentação de ocidentais que vão para o Japão.

Conheço mais de um que não sobreviveu às decepções e foi tratar de outra coisa: é o fã de animê que amadurece e deixa de ocupar tanto tempo com isso. Outros, mesmo depois do choque com a realidade, concluem que de qualquer forma há muito neste paizinho que merece ser objeto de estudo, e acabam tomando decisões tipo trocar uma próspera carreira em Computação por uma vida não muito promissora como professor de Letras[7].

Notas:
[1] O que foi dito sobre convenções também se aplica a fã-clubes, comunidades na net, revistas etc.
[2] Observe, por exemplo, o número de coisas inúteis importadas do Japão a preços altos: escovas de dentes, canetas, panos de prato, todo o tipo de objeto simples e perfeitamente encontrável em qualquer lugar. O pressuposto é que tudo o que vem do Japão tem mais qualidade.
[3] Um caso particular deste comportamento são os infames encorajamentos do tipo “nossa, como você fala japonês bem!”: a probabilidade de ouví-los é inversamente proporcional à sua proficiência real na língua. “Você fala japonês bem” é uma frase dita num tom de “mamãe, o cavalo sabe contar” — mas quando o cavalo começa a resolver equações diferenciais, a reação passa de divertimento à desconfiança.
[4] Se por um lado minha professora de cerimônia do chá parece meio triste com a falta de interesse dos descendentes por cultura tradicional, por outro ela sempre foi muito entusiasmada e aberta com o interesse dos não-descendentes. Mas é bastante difícil para um não-descendente conversar sobre cerimônia do chá com um japonês moderno típico.
[5] Afinal, o animê exportado é um fenômeno recente, e em geral cultura pop japonesa é produzida para os próprios japoneses.
[6] Como as famosas lojas “somente para japoneses”, e a enorme inimizade Japão-China-Coréia.
[7] Depois de escrever este ensaio, descobri que o salário de um professor substituto de Letras na UFPR é menor do que minha bolsa atual como estudante de Computação.