No estilo do prof. Dijkstra.

  • A maior parte dos problemas com a educação de hoje não é causada por professores ruins, alunos ruins, falta de verba, situação social ou cultura mercantilista, mas simplesmente por turmas muito grandes. A “turma” ideal é a de uma pessoa — notem a grande eficiência da educação de aprendizes pré–Revolução Industrial. Dependendo do caso, é possível lidar com turmas de umas cinco a dez pessoas no máximo.

    É fundamental que o professor tenha uma relação pessoal com cada um dos alunos, que saiba suas preferências, seu jeito favorito de aprender, e — muito importante — o seu nível exato de compreensão da matéria. Problemas como cópia de tarefas, conversa, tédio com a aula estilo “palestrante” e gente se graduando indevidamente simplesmente não acontecem em turmas suficientemente pequenas.

    Corolário: em uma turma de vinte, trinta ou cinqüenta alunos, o professor acaba ensinando de verdade um pequeno grupo de cinco a dez.

  • A diferença entre universidades particulares e públicas não está na qualidade, está no tipo. As coisas que se faz em uma não são melhores ou piores do que na outra, são completamente diferentes. A universidade particular está muito mais próxima da pedagogia do ensino médio e profissionalizante[1].

    Exemplos? Considere a minha atividade acadêmica atual — investigar a relação entre o problema clássico de planejamento da inteligência artificial e redes de Petri. Em quantas faculdades particulares modernas de ciência da computação eu seria remunerado para pesquisar esses assuntos? Quantas delas ensinam esses assuntos? Quantas delas sequer ensinam ciência da computação mesmo — uma ciência exata, pura, ramificação da matemática, e não tecnologia de computadores?

  • Cursinho pré-vestibular não ensina. O marketing dos cursinhos transformou de propósito um teste que nem é difícil num bicho de quarenta e nove cabeças. A “metodologia” dos cursinhos consiste em estudar a melhor maneira de enfiar na cabeça dos alunos o máximo possível de informações sem nunca ensiná-las, para que eles vomitem tudo no teste e esqueçam. O tempo todo, o pressuposto é que a matéria é tediosa, inútil e merece ser aprendida apenas para o teste. O cursinho pré-vestibular é a maior catástrofe que já aconteceu no ensino brasileiro e deseduca os estudantes para o trabalho intelectual de verdade.

  • Sobre os pré-requisitos de um professor, o Paul Graham parece ter acertado em cheio: 1) alto nível de exigência, 2) apreço pelos estudantes, e 3) entusiasmo pelo assunto ensinado. Respeito, disciplina ou interesse não devem (nem podem) ser exigidos dos alunos: são sentimentos que surgem naturalmente quando o professor tem essas características.

  • A queda de qualidade no ensino fundamental e médio tem inúmeras causas, e nenhuma especial para jogar a culpa. Mas um fator importante foi a política. A moralidade por trás das reformas prega que todas as crianças são iguais (não são), que todas devem ser aprovadas (não devem), e que elas precisam ser forçadas a permanecer na aula (não precisam). A conclusão lógica desse tipo de preconceito é baixar o nível do ensino para o mínimo denominador comum.

  • Outro fator importante é a qualidade lamentável dos textos escolares. Sobre isto ler este artigo, ou pelo menos observar o diagrama com atenção. Trata do sistema editorial americano, mas se aplica ao nosso perfeitamente.

    O que foi comentado sobre professores também vale para textos: eles deveriam ser exigentes, entusiasmados, pessoais, e desenvolvidos com o aluno em mente.

  • Na educação pública básica não se ensina matemática, e sim como fazer contas[2]. Isso é puro acidente histórico, e completamente irracional. Não tem nada no raciocínio matemático que o torne inerentemente incompreensível para crianças e adolescentes, e as duas coisas podem ser ensinadas juntas. Mais ainda, como hoje a tecnologia sabe fazer contas melhor do que nós, a ênfase deveria estar na matemática.

  • Do mesmo jeito, não se ensina método científico nem pensamento histórico. Tanto ciência como história são ensinadas como se fossem religiões, com respostas prontas para tudo (história pior que ciência: textos sobre história são decorados como se decora a Bíblia). As controvérsias, a incerteza inerente, e o que é mais importante, a maneira pela qual se adqüire conhecimento, tudo o de valor é simplesmente ignorado.

  • Porém, nenhuma matéria é tão mal ensinada quanto educação física. Tudo na educação física brasileira está errado. Educação física deveria ser sobre conhecer o próprio corpo na prática. Deveria incluir anatomia e nutrição tanto quanto exercício. Acima de tudo, não deveria nunca ser sobre esportes e competição — essas deveriam ser atividades estritamente extra-curriculares, e completamente independentes da educação sobre o corpo. A situação é piorada pelos intelectuais brasileiros e seu desdém por atividade física, descendente direto da condenação do corpo pelos cristãos medievais. Os povos antigos eram melhores nisso do que nós — hoje em dia, por exemplo, omite-se de propósito que Platão era artista marcial e lutador; que Sócrates lutou na guerra, sendo renomado por bravura e persistência; que Siddhartha Gautama era forte e atlético, sendo convidado certa vez para ser general; que Nietzche, apesar do corpo fraco pela doença, investigou cuidadosamente a relação entre nutrição e exercício com sua produção, etc. A educação só da mente é falha.

Notas:
[1] Estou falando aqui das incontáveis pequenas faculdades voltadas para o mercado que surgiram após a queda da qualidade do ensino fundamental e médio. As universidades particulares antigas são mais próximas do modelo de pesquisa tradicional.
[2] Certo dia, na sala de aula do prof. Jair , estava colado na porta um cartaz com a programação de defesas de teses. Uma delas era sobre “a influência do ensino de matemática no aproveitamento do ensino médio”. O professor riu e comentou: “tá mais pra ‘a influência da falta de ensino de matemática’.”