A seguir: como, quando e por que eu decidi que vou seguir carreira acadêmica, e não profissional; que não pretendo dedicar-me ao software livre como planejava antigamente; e que humanas é mais minha praia que exatas.

Carreira acadêmica

Pensei um bocado sobre isso tudo. Sobre capitalismo e socialismo, ditaduras e liberalismo, hierarquia e anarquia, sobre Marx e Adam Smith, sobre cidade e campo, sobre quando passei fome de verdade e quando fui o homem branco rico no meio da selva. E cheguei às seguintes conclusões:

  1. Eu trabalho por dinheiro. O argumento do Sheldon aqui é imbatível — se eu ganhasse na Megasena, a última coisa que pensaria em fazer seria trabalhar. Sou preguiçoso pra caramba e no que dependesse de mim passaria o tempo em casa jogando videogame. Não existe outro motivo. Trabalho porque preciso.

  2. O trabalho na academia é mais suportável que o na empresa. Não gosto de competição, por exemplo. Estive tempo demais na posição dos perdedores, e tenho consciência muito aguda do fato simples mas freqüentemente ignorado que para cada vitória há sempre uma derrota. Não gosto de vencer tanto quanto não gosto de perder. A empresa faz uma festa porque é a líder do mercado, e eu fico deprimido. Na academia, apesar da politicagem terrível, pelo menos sei que minha produção será usada livremente por outros acadêmicos, que estamos todos subindo nos ombros uns dos outros.

    Outro problema é que o nível de trabalho numa empresa é simplesmente maior do que na academia, porque numa empresa você é um recurso. De indivíduo você é resumido a um investimento — a empresa está pagando por você, e espera resultados. Por exemplo, se você terminar uma tarefa antes da hora, você receberá congratulações, fama, talvez bônus ou promoções — e sempre mais trabalho. É inimaginável para a empresa pagar para você ficar sentado cuidando de suas coisas. Em contraste, se você termina seu projeto acadêmico com três meses de antecedência, você tem três meses para estudar o que quiser (e conheço mais de uma pessoa que fez coisas assim).

    Finalmente, meu maior problema com empresas é o utilitarismo, a pressão por fazer algo que seja “prático”, que “funcione”, que “valha a pena”. A motivação intrínseca que tenho para trabalhar é inteiramente estética. Se sou forçado a fazer algo do jeito feio ou do jeito errado porque o cliente quer, o patrão quer, ou o prazo não permite perfeccionismo, fico deprimido e completamente desmotivado. Você tem mais espaço para fazer coisas não úteis, não necessárias, não lucrativas na academia do que na empresa.

  3. Eu não preciso de muito dinheiro. A maioria das coisas que o dinheiro permite comprar simplesmente não me interessam: carro, casa, móveis, televisão, viagem pra Cancún, eu acho tudo isso um saco. As coisas que me interessam de verdade eu posso ter num nível bem modesto, abaixo da classe média.

Uma maneira de consolidar 1, 2 e 3 é: eu sou mais preguiçoso do que a média, e menos ambicioso do que a média, portanto é inteiramente natural que busque um trabalho mais sossegado. A academia paga menos mas paga mais que suficiente, e a satisfação que recebo em troca pra mim não tem preço.

O momento em que a ficha caiu foi depois de ler o artigo do Paul Graham, Great Hackers, que descreve características de grandes programadores. A conclusão do artigo é:

Can you cultivate these qualities? I don’t know. But you can at least not repress them. So here is my best shot at a recipe. If it is possible to make yourself into a great hacker, the way to do it may be to make the following deal with yourself: you never have to work on boring projects (unless your family will starve otherwise), and in return, you’ll never allow yourself to do a half-assed job.

Até aí “alto astral, tudo é lindo”, mas li em seguida uma resposta que sugeria que os Great Hackers em questão, embora admiráveis, não são lá muito recomendáveis para o contrato. O cerne do argumento é “eu também acho isso legal, mas programar não é meu hobby, é minha profissão”.

O problema é que eu acho que o cara da resposta está certo. Quando trabalhei na multinacional, tive a oportunidade de estar ao lado de um cara que considero um legítimo Great Hacker. Vê-lo em ação era indescritível. Mas ele invariavelmente desviava-se do trabalho prescrito, tão útil e lucrativo quanto restrito e desinteressante. Definitivamente não era um bom investimento. Um dia ele simplesmente sumiu.

Minha conclusão: programar não é minha profissão, é meu hobby.

Software livre

O software livre nasceu na academia, mas com o tempo tem absorvido características empresariais demais pro meu gosto — como testemunha a competição entre distribuições (cheia da “síndrome de não-inventado-aqui”), a aceitação crescente do uso de software não-livre e o caso emblemático do movimento do código aberto: sua motivação para a mudança de terminologia não é que free é uma palavra ambígüa em inglês, e sim que palavras como “liberdade” não interessam ao mercado. Até assustam ele. São só programas de computador, pra quê meter filosofia no meio?

A falha deste argumento, naturalmente, é que a tal “abstinência de filosofia” é uma filosofia. A pretensa rejeição de moralidade é uma moralidade — a moral do pragmatismo, a moral de mercador, a moral do industrialismo, a moral do “o bom é o que funciona”. Uma moral que me dá nojo.

Então, segundo os proponentes modernos, o software livre não é sobre consciência social, não é sobre melhorar o mundo com trabalho intelectual, não é sobre filosofia. Beleza, então vou gastar meu tempo com algo que seja (como ser professor em escola pública). Foi bom enquanto durou, até mais.

Humanas

Isso não foi bem uma decisão, foi um ato de coragem. Eu me meti com computação por pressão social e porque pensei que seria divertido fazer algo relacionado a videogames, mas minha quedinha sempre foi por humanas. Eu não saberia explicar melhor que R. H. Blyth:

If this is so, it might seem that science can be our only salvation from unreality. This is true up to point. It can indeed save us from what is unreal, but cannot give us more than a mechanically correct universe in place of phantasy. It cannot tell us what life is, nor can it give it to us more abundantly. This is the function of poetry, but as in the passage from the “Inferno” above-quoted, we have to look for poetry, that is, for reality, in the most unlikely places also, in the mere sounds of the lines, in the perverse denial of truth, and in the impossible desires of human beings, in the tremendous castles of intellectual air that they have erected, in the lies and sophistries which are only inverted truths.