Sun 18 Dec 2005
A seguir: como, quando e por que eu decidi que vou seguir carreira acadêmica, e não profissional; que não pretendo dedicar-me ao software livre como planejava antigamente; e que humanas é mais minha praia que exatas.
Carreira acadêmica
Pensei um bocado sobre isso tudo. Sobre capitalismo e socialismo, ditaduras e liberalismo, hierarquia e anarquia, sobre Marx e Adam Smith, sobre cidade e campo, sobre quando passei fome de verdade e quando fui o homem branco rico no meio da selva. E cheguei às seguintes conclusões:
Eu trabalho por dinheiro. O argumento do Sheldon aqui é imbatível — se eu ganhasse na Megasena, a última coisa que pensaria em fazer seria trabalhar. Sou preguiçoso pra caramba e no que dependesse de mim passaria o tempo em casa jogando videogame. Não existe outro motivo. Trabalho porque preciso.
O trabalho na academia é mais suportável que o na empresa. Não gosto de competição, por exemplo. Estive tempo demais na posição dos perdedores, e tenho consciência muito aguda do fato simples mas freqüentemente ignorado que para cada vitória há sempre uma derrota. Não gosto de vencer tanto quanto não gosto de perder. A empresa faz uma festa porque é a líder do mercado, e eu fico deprimido. Na academia, apesar da politicagem terrível, pelo menos sei que minha produção será usada livremente por outros acadêmicos, que estamos todos subindo nos ombros uns dos outros.
Outro problema é que o nível de trabalho numa empresa é simplesmente maior do que na academia, porque numa empresa você é um recurso. De indivíduo você é resumido a um investimento — a empresa está pagando por você, e espera resultados. Por exemplo, se você terminar uma tarefa antes da hora, você receberá congratulações, fama, talvez bônus ou promoções — e sempre mais trabalho. É inimaginável para a empresa pagar para você ficar sentado cuidando de suas coisas. Em contraste, se você termina seu projeto acadêmico com três meses de antecedência, você tem três meses para estudar o que quiser (e conheço mais de uma pessoa que fez coisas assim).
Finalmente, meu maior problema com empresas é o utilitarismo, a pressão por fazer algo que seja “prático”, que “funcione”, que “valha a pena”. A motivação intrínseca que tenho para trabalhar é inteiramente estética. Se sou forçado a fazer algo do jeito feio ou do jeito errado porque o cliente quer, o patrão quer, ou o prazo não permite perfeccionismo, fico deprimido e completamente desmotivado. Você tem mais espaço para fazer coisas não úteis, não necessárias, não lucrativas na academia do que na empresa.
Eu não preciso de muito dinheiro. A maioria das coisas que o dinheiro permite comprar simplesmente não me interessam: carro, casa, móveis, televisão, viagem pra Cancún, eu acho tudo isso um saco. As coisas que me interessam de verdade eu posso ter num nível bem modesto, abaixo da classe média.
Uma maneira de consolidar 1, 2 e 3 é: eu sou mais preguiçoso do que a média, e menos ambicioso do que a média, portanto é inteiramente natural que busque um trabalho mais sossegado. A academia paga menos mas paga mais que suficiente, e a satisfação que recebo em troca pra mim não tem preço.
O momento em que a ficha caiu foi depois de ler o artigo do Paul Graham, Great Hackers, que descreve características de grandes programadores. A conclusão do artigo é:
Can you cultivate these qualities? I don’t know. But you can at least not repress them. So here is my best shot at a recipe. If it is possible to make yourself into a great hacker, the way to do it may be to make the following deal with yourself: you never have to work on boring projects (unless your family will starve otherwise), and in return, you’ll never allow yourself to do a half-assed job.
Até aí “alto astral, tudo é lindo”, mas li em seguida uma resposta que sugeria que os Great Hackers em questão, embora admiráveis, não são lá muito recomendáveis para o contrato. O cerne do argumento é “eu também acho isso legal, mas programar não é meu hobby, é minha profissão”.
O problema é que eu acho que o cara da resposta está certo. Quando trabalhei na multinacional, tive a oportunidade de estar ao lado de um cara que considero um legítimo Great Hacker. Vê-lo em ação era indescritível. Mas ele invariavelmente desviava-se do trabalho prescrito, tão útil e lucrativo quanto restrito e desinteressante. Definitivamente não era um bom investimento. Um dia ele simplesmente sumiu.
Minha conclusão: programar não é minha profissão, é meu hobby.
Software livre
O software livre nasceu na academia, mas com o tempo tem absorvido características empresariais demais pro meu gosto — como testemunha a competição entre distribuições (cheia da “síndrome de não-inventado-aqui”), a aceitação crescente do uso de software não-livre e o caso emblemático do movimento do código aberto: sua motivação para a mudança de terminologia não é que free é uma palavra ambígüa em inglês, e sim que palavras como “liberdade” não interessam ao mercado. Até assustam ele. São só programas de computador, pra quê meter filosofia no meio?
A falha deste argumento, naturalmente, é que a tal “abstinência de filosofia” é uma filosofia. A pretensa rejeição de moralidade é uma moralidade — a moral do pragmatismo, a moral de mercador, a moral do industrialismo, a moral do “o bom é o que funciona”. Uma moral que me dá nojo.
Então, segundo os proponentes modernos, o software livre não é sobre consciência social, não é sobre melhorar o mundo com trabalho intelectual, não é sobre filosofia. Beleza, então vou gastar meu tempo com algo que seja (como ser professor em escola pública). Foi bom enquanto durou, até mais.
Humanas
Isso não foi bem uma decisão, foi um ato de coragem. Eu me meti com computação por pressão social e porque pensei que seria divertido fazer algo relacionado a videogames, mas minha quedinha sempre foi por humanas. Eu não saberia explicar melhor que R. H. Blyth:
If this is so, it might seem that science can be our only salvation from unreality. This is true up to point. It can indeed save us from what is unreal, but cannot give us more than a mechanically correct universe in place of phantasy. It cannot tell us what life is, nor can it give it to us more abundantly. This is the function of poetry, but as in the passage from the “Inferno” above-quoted, we have to look for poetry, that is, for reality, in the most unlikely places also, in the mere sounds of the lines, in the perverse denial of truth, and in the impossible desires of human beings, in the tremendous castles of intellectual air that they have erected, in the lies and sophistries which are only inverted truths.
December 19th, 2005 at 07:55:59
Pra deixar mais claro a história do software livre: não é que eu vou parar de usar software livre, ou que não vou mais coçar meus comichões (ainda pretendo lançar o weblog e o software de galerias em Ruby com I18N Do Jeito Certo, por exemplo). É que eu perdi a motivação de tentar ajudar em coisas que não uso, não me interessam, mas considero importantes — como o Gnome, o Ubuntu ou traduções. Não que eu tenha ajudado muito até agora, admito. Mas encontro muita reação do tipo:
Eu: Sou feliz com meu trabalho porque estou ajudando a desenvolver um ambiente baseado em Debian e Gnome que será usado nas escolas públicas do Paraná. Tomara que isso ajude na educação tecnológica de nosso povo. Eu já sofri tanto em escola pública e…
Eles: OMG n00b é só software! Pára de sonhar, GNU/chato RMS commie fanboy.
December 19th, 2005 at 08:59:26
E sobre humanas: faltou comentar que não, trabalhar com videogames não é nem um pouco divertido. Quando descobri isso, porém, já tinha aprendido o que era matemática e o que era ciência, que são Coisas Bem Legais. Mas, pra mim, não tão legais quanto lingüística, poesia , literatura, história, filosofia.
January 19th, 2006 at 02:42:34
Boiko! E eis que eu do nada leio isso aqui.
Só uma coisa: cuidado com a sua concepção de “academia”. Estando aqui no Japão, e mais, num instituto de pesquisa da universidade, posso dizer: há academias e academias. Existem sim lugares onde há a pressão por resultados, desespero pelo registro de patentes e investidores cheios de dinheiro (ex: Matsushita, Sony, etc.) que fazem alguém acima de você decidir que a tua pesquisa tem que ser “aplicável”.
Também descobri que existe alguma puxação de tapete e competição, também. Os recursos são poucos, e vão para quem merece mais. “Merece mais”, no caso quer dizer quem sabe aparecer melhor.
E quanto ao $… Eu também não vejo necessidade de ter um padrão de vida medido por “terno, carro, casa, sapatos, restaurante, emprego estável, barba feita, cabelos curtos e tudo mais”. Talvez viajar para Cancún realmente não seja grande coisa. Mas Kyoto mudou minha forma de pensar sobre “fazer turismo”. E as intermináveis horas no trem mudaram a minha forma de pensar sobre “diversão portátil”.
É por essas e outras que cada dia mais eu me animo com a música e me desanimo mais com essa história de doutorado…
Ah, e cheguei à brilhante conclusão de que o Japão é um país muito legal quando você não mora nele. A cultura japonesa é muito legal quando você ignora o seu lado feio. O povo japonês é muito legal quando você não é um otário que não entende o que eles dizem. E as meninas japonesas são muito legais quando ficam de boca fechada, ahhahaha…
Comentário final: cultura brasileira é muito mais que samba, carnaval e futebol. Precisei vir para o outro lado do mundo para ver como a verdadeira identidade cultural de um povo se esconde bem mais embaixo, em coisas que temos como naturais e sensatas, quase que axiomáticas. Ou você acredita que “liberdade” seja um conceito natural, parte de uma realidade objetiva?
January 20th, 2006 at 16:52:28
Aí Bog, valeu a visita. Sobre a academia, a competição e o Japão, é verdadeiro, verdadeiro e verdadeiro (eu até escrevi um pouco sobre o balde de água fria do fã de cultura pop japonesa esses dias). Mas, comparando as empresas que eu trabalhei com as coisas acadêmicas em que eu trabalhei, fico com as acadêmicas.
Turismo pra mim é morar lá, não gosto só de passar e ir embora. Já vivi em oito cidades (algumas várias vezes) e peguei gosto na coisa, não consigo mais ficar num lugar só. E diversão portátil é meu GBA com cartucho flash ;) Horas intermináveis no trem + Tsuukin Hitofude = felicidade.
A propósito, ficou sabendo que dona Teruko faleceu? Uma grande perda.
January 25th, 2006 at 21:03:55
Heheh, li o teu outro post, e a minha sensação é EXATAMENTE essa. Eles são cheios dessa coisa de grupo. Grupos dos quais eu não faço parte, hahah… Tem uma hora que dá nos nervos você ser sempre um alien, no kendo, no lab… No começo, te olham com curiosidade, são legais, mas com o passar do tempo você se torna invisível. Aí eles resolvem não conversar contigo, e quando você tenta tomar a iniciativa as coisas ficam bem chatas, dada a estranha dinâmica do diálogo - basicamente, a conversa não “flui” porque eles só emitem uma opinião se você perguntar explicitamente. O pior é quando eles se “esquecem” de te chamar quando saem todos para ir no cinema, no boteco (não que eu vá, mas nunca me chamam!), no RU ou no raio que os parta. Ou fazem um comunicado geral para todos num nihongo cheio de gírias e intangível para qualquer estrangeiro. E, mesmo sabendo que você não entendeu nem do que estavam falando, os seus “colegas” não vão se dar o trabalho de te avisar em inglês ou pelo menos num nihongo que você entenda.
AH, sim, claro, é importante lembrar que verdades estatísticas não são verdades absolutas. É assim que as coisas funcionam “no geral”. Existem japas e japas, uns te tratam mal mesmo, fazem piada da tua ignorância; outros te ignoram; e uns outros podem até ser bem gentis. Mas é muito raro mesmo um estrangeiro ser considerado “do grupo”. E infelizmente, a maior parte dos japas são do grupo que “te ignoram”. Mas sobreviverei.
AH, e diversão de densha para mim é assistir filminhos / desenhos animados no PSP. Pelo menos aqui não aparece um malaco em 0,2 ms para te roubar. :P