Wed 4 Jan 2006
Sábado de madrugada
— Nóis acostuma com a cidade, depois vorta pra cá e acha uma tranqüilidade…
A frase foi dita pelo homem que sentou à minha frente no táxi. Ao meu lado, a Márcia e outra mulher, talvez irmã ou esposa do homem. Havíamos decidido compartilhar o mesmo táxi, apesar de não nos conhecermos e dos destinos serem bem diferentes. Mais tarde encontraríamos o mesmo homem na rodoviária duas vezes. É o interior.
Na corrida cruzamos com o outro táxi da cidade e os motoristas se comprimentaram buzinando. Fora nós, não havia absolutamente nenhum carro ligado na cidade inteira, e o silêncio era ensurdecedor.
Desviamos de um gato que dormia bem do meio de uma rua; em outra, um cão preto vira-lata estava sentado nas patas traseiras, imóvel como uma estátua; numa terceira, só consegui ver os olhos amarelos de um animal selvagem.
Segunda à tarde
Eu moro na roça, iaiá
Eu nunca morei na cidade
Compro jornal da manhã
Pra saber das novidade
A Gazeta do Norte é divertida: sensacionalista, religiosa, mal redigida, mal diagramada, e mais tendenciosa que revista Veja. O melhor de tudo é o sentimento condescente e grandioso dos jornalistas. Folheando uma pilha de jornais velhos, descubro uma gruta em um sítio próximo na qual têm acontecido milagres e aparições da Virgem (minha gente cheguei agora/minha gente cheguei com Deus/e com Nossa Senhora). A moça que teve as visões iniciais diz tê-las compartilhado com duas irmãs. Última linha da matéria: “um pastor contatado pela redação não quis comentar o assunto”.
Terça à tarde
O interior é onde as músicas pop vêm morrer, é a praia em que o refugo da indústria musical desemboca. A última moda em funk carioca e bandinhas modernas de “rock” convive lado a lado com axés de carnavais passados, com o single que lançou as Spice Girls, com aquela música da Shania Twain. As pessoas enviam recadinhos românticos com a trilha do Ghost de fundo, e a sério.
Terça à noite
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Será mesmo, Caetano? Pois para o povo do campo tudo o que é “de fora” é um sonho. Curitiba, São Paulo, Manaus, Nova Iorque, Tóquio, tudo é igual, tudo é igualmente distante, o mundo uniformizado pelo descaso, tudo fantasia de gente nova que sai pra trabalhar.
Apenas Wenceslau Braz existe.
Quarta à tarde
Jaguariaíva é sem dúvida a cidade com a história mais interessante na região. Seria possível dividí-la em ciclos, como a história do Amazonas: o ciclo dos tropeiros e da fazenda Jaguariaíva; o do coronel Carneiro Lobo e sua jovem esposa, dona Isabel Branco; o ciclo dos Matarazzo, com as hidroelétricas, o frigorífero e a ferrovia; o das grandes indústrias de papel e madeireiras; e a fase atual, de diversificação industrial e crescimento acelerado.
Meu tio contou uma história curiosa sobre um homem que fez fortuna vendendo porcos para os Matarazzo. Segundo dizem, um de seus truques era dar sal para os animais, forçando-os em seguida a passar um bom tempo sem água. Pouco antes de levá-los para venda, ele deixava os porcos beberem à vontade, inflando assim seu peso.
Quinta à tarde
Há alguns avisos interessantes em Jaguariaíva. Na entrada do Ipê, bairro de classe alta, vê-se uma placa deliciosamente ambígüa: “Cuidado com nossas crianças”. O slogan de um sistema de pagamento de contas soa como ameaça: “Piscou, pagou”. E uma rede local de supermercados tem o seguinte cartaz nas seções de bebidas alcoólicas: “Este produto já destruiu várias vidas. Tem certeza que é isso que você quer?”.
Fico pensando se o proprietário teve problemas com álcool na família.
Quinta à noite
Com medo de dormir sozinho, a tensão cresce e acabo tendo que acender a luz. Mais uma vez, pude constatar o ateu de araque que sou. Em condições normais de temperatura e pressão, no concreto sem noite da cidade grande, sou perfeitamente cético. Mas me deixe sozinho na noite do interior e eu passo a acreditar em fantasmas, vampiros, lobisomens, sacis, boitatás, curupiras, anjos, Deus, Diabo e no negão que segura as pernas da minha vó e não deixa ela dormir — tutti cosa, sendo que elas todas estão lá fora e querem vir me pegar.
Sexta de manhã
O cemitério de Wenceslau é cheio de histórias sobre cavernas secretas, esqueletos, maçons (em uma lenda, violaram o túmulo de um homem que tinha vendido a alma e encontraram apenas um galho seco). O cemitério fica no topo de uma colina e está sempre ventando, a cidade dos mortos um microcosmo da dos vivos. A vó veio lavar os túmulos de nossa família.
Os túmulos japoneses parecem seguir todos o mesmo padrão: mármore preto com os dizeres 「〇〇家之墓」 gravados em baixo-relevo. Reconheço os nomes das famílias de alguns amigos: Nishi, Sameshima, Oizumi.
Uma mulher veste uma camiseta branca na qual está escrito “pegue 3, pague 2″.
Sexta à tarde
Siqueira Campos fica em um vale, e da borda dá pra ver a cidade toda. A janela da sala da casa de minha mãe tem um mosquiteiro, que à luz do pôr-do-sol não consigo dizer se é azul ou verde. Colorido por esse tom desconhecido vê-se o cemitério municipal. Ele ocupa um terreno enorme, quase um bairro inteiro. Acho que o prefeito daqui não terá que proibir a morte.
Sábado à tarde
Os rios de Tomazina, bonitos mas movimentados demais. Procurando alguma lanchonete com pastel de peixe, paramos em um boteco que minha mãe já conhecia. É um muquifo, mas ela conta que um dia foi um cinema. O salão principal agora é uma área vazia e assustadora no caminho para o banheiro.
Domingo à tarde
Nunca deixo de me impressionar com o povo rural. Essa gente tem uma firmeza de pulso, uma direção de vontade que nunca vi em Curitiba ou Manaus. O tio da Márcia é um homem baixo, jeitão duro, pele bronzeada de sol, que gosta de animais e passa o tempo retraído num canto com uma chaleira e uma cuia prateada de chimarrão. Um dos cães da casa veio cheirar nossos pés e pude ver o tio bravo, ralhando. Um homem desses ralha, e você descobre quão terríveis podem ser os homens. Um tiozinho simpático desses ralha, e você sente um frio na espinha como se ele tivesse te emboscando no mato, facão na mão. Ele ralha com o cachorro, e você espontaneamente recai para o comportamento submisso de décadas atrás, sentado quietinho no sofá, timidamente de mãos dadas com a namorada.
Domingo à tarde
A mãe da Márcia diz que o café Casa Verde não está mais tão bom. Em Jaguariaíva meu tio tinha contado que uma amiga da família é parente dos fabricantes do Casa Verde; é o interior. Meu tio contou também uma história interessante, sobre um agricultor amigo dele que entrou no mercado de café. Eles pesquisaram , plantaram café 100% arábica, colheram à mão para poder escolher apenas os grãos bem maduros, torraram no sol e venderam a um preço acessível. O produto encalhou nos mercados, e as vendas não foram suficientes nem para cobrir o prejuízo. Chamaram da cidade um especialista no assunto:
— Olha, doutor, nós fizemos tudo direitinho, seguimos todas as recomendações, produzimos o café do bom, purinho, e ninguém comprou.
— Pois é aí que vocês erraram! Torrem no forno mesmo, e torrem junto uns grãos verdes, umas folhas, galhos, deixe que entre poeira.
Segundo o especialista, o brasileiro está tão acostumado a café cheio de lixo que não tem mais paladar para o café realmente bom, e não o compra. Eu estaria inclinado a pensar que a história toda é só um causo, não tivesse testemunhado eu mesmo o terrível mau gosto das pessoas na cidade grande (que deixam restaurantes de excelente qualidade morrer enquanto se alimentam de sanduíche do Subway’s no shopping). Um pouco de pesquisa não desmentiu a história; segundo o Wikitravel, todo café brasileiro de qualidade é exportado, e o que se vende no país são as sobras.
Bom mesmo é café feito à mão, do pé até a moagem, como o de meu bisavô. Pena que o vô Carlito está muito fraco para carpir e já não planta mais.
January 4th, 2006 at 11:42:20
Quanta nostalgia, é nem faz uma semana que estivemos lá. Será que vamos mesmo para a ilha no carnaval?
January 4th, 2006 at 14:24:07
Feliz Ano Novo LBoiko!
Livrei-me um pouquinho das radiações dos eletrônicos e da histeria do trabalho a semana passada! Fui numa praia lá da BA e q maravilha…
O mar é assustadoramente lindo, isso mesma sempre q vejo o mar depois de muito tempo sinto um pavor indescritível frente a algo tão grandioso, mas me acalmo quando finalmente sento a areia e observo tamanha e normal anormalidade ! É como se sosse sempre a primeira vez.
O aviões e helicópteros passam voando sobre aquela imensidão azul toda hora e eu ñ acho nada normal, com toda minha madura ingenuidade fico ali achando aquilo, q é über-tipico e ultra-comum, uma maravilha inexplicável, “voando sobre o mar? q coragem! como eles se sentem?”.
haha…. uma pausa para rir de mim mesmo
E o café, minha bebida notuna favorita, não por vício, (isso pq viajei e fiquei mais de uma semana sem beber tranqüilo), meu lindo cafezinho q tomo está cheio de poeira e outras tranqueiras, como um chá q teve suas folhas arrancadas com pequenos insetos e foi preparado assim mesmo…
… eu estou tomando sobra e os caras lá foram estão rindo de mim enquanto tamam café puro…
haha…. uma pausa para rir de mim mesmo
January 5th, 2006 at 09:55:27
Excelente texto! Temos um registro fotográfico dessa jornada?
January 5th, 2006 at 10:58:09
Valeu, Claudio. Tem uma fotinha à-toa ou outra, mas sem um Linux pra tratá-las fico desanimado. Qualquer dia uplodeio.
January 5th, 2006 at 15:35:43
[…] Some photos from my mini-vacation in Santa Maria. Small towns in the Brazilian countryside were also visited by Felipe (Pinhalão) and Leo Boiko (Jaguariaíva, Portuguese text only). Perhaps I should start looking for a small, travel companion notebook computer — 12″ wide seems to be a nice form factor, any recommendations? […]
January 24th, 2006 at 20:15:48
Chuif…
Fiquei emocionado…
January 6th, 2007 at 17:46:35
Achei uma tremenda viadagem…