Depois de dez anos de espera e boatos, Mother 3 (talvez “Earthbound 2″ para quem joga em inglês) será lançado em 20 de abril. O mundo não está nem aí.

Se eu fosse definir minha vida em uma palavra, ela seria “videogame”. Exagero? Vejamos. Videogame é de longe a atividade com qual mais gastei tempo até hoje. Aprendi inglês por videogame. Estudar japonês é o próximo passo lógico; a primeira língua que você precisa saber para entender videogames é o inglês, a segunda o japonês. Comecei a gostar de anime, de mangá e de HQs por influência de videogames. Entrei no curso de ciência da computação porque queria fazer videogames. Estou saindo do curso porque descobri que ser um programador de videogame não é tão interessante. Me interessei por cultura japonesa porque ela é o contexto que envolve todos os videogames. Quero entender de literatura é conseqüência direta da vontade de entender videogames em um nível mais abstrato do que a programação permite (”videogames não são Sartre”, então eu fui ler Sartre para saber exatamente o que eles não são). Meu interesse por artes visuais vem todo do video em videogame.

Não, amigos não-jogadores, não estou falando figurativamente quando digo que meu hobby de videogames influencia tudo em minha vida.

“Não vivo sem meu Playstation”, um amigo me disse na adolescência. “Passo fome em Curitiba se precisar, mas não largo dele”. É um sentimento com que eu simpatizo perfeitamente, mas que os não-jogadores fecham os olhos e recusam-se a tentar entender. É de se admirar que a gente se chateie quando um não-jogador trata nossos videogames como “joguinhos” ou como um mal hábito indigno sequer de investigação? É tão estranho que a gente fique ressentido quando mostra uma obra-prima e recebe em troca um “ah, que legal” em tom condescente?

Tim McGowan, na Gamer’s Quarter 4, conta que, em um trabalho de faculdade, ele discutiu a pós-modernidade daquele que é o mais pós-moderno de todos os jogos, Mother 2. A série Mother, pra quem não sabe, é de autoria de Shigesato Itoi, um Escritor De Verdade que já trabalhou com o Haruki Murakami. O Itoi também dublou Papai em Meu Vizinho Totoro, mas isso não tem nada a ver. Então. Depois de apresentar seu trabalho, alguém da sala comentou: “Sempre pensei em videogames como algo juvenil, mas agora acho que pode ter algo interessante aí”.

Tim conta que “me senti, pela primeira vez em meu hobby, validado”. É triste que a pressão contrária da sociedade seja tão forte que a gente fique feliz até com migalhas de compreensão.

Mas não faz mal. O Sr. Carteiro logo trará meu DS, e com ele em mãos as agruras vão embora. Se tudo isso “é a vida”, deixem-me viver outras.