ou para o diabo, quem quer que esteja disponível

Não sou do tipo que faz negócio diariamente com os Bancos Celestiais S. A., não peço empréstimos e não pago adoração. Vivo por mim mesmo. Mas me ocorreu um desejo que só os Céus ou os infernos podem atender, e decidi propor este acordo.

No presente documento, “o Contratante” se refere a mim, Leonardo Boiko; o “Contratado”, à outra parte; “Céu”, a qualquer recompensa desejável concedida pela Divindade (seja um campo agradável, a vida eterna, ou o que for); e “Inferno”, a qualquer resultado indesejável de não seguir os conselhos da Divindade expostos na Palavra (seja um abismo de fogo e tormento, um “lugar longe de Deus”, a morte definitiva, etc. etc.). A realidade específica não altera o argumento.

A Bíblia é clara: muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos. A maior parte da humanidade irá para o Inferno. Por outro lado, como Jesus explica na parábola da ovelha perdida, não é que a Divindade queira assim. Ela se angustia com cada uma de suas almas rebeldes, a ponto de se preocupar com elas mais do que com as já amansadas.

A Palavra também é bem clara sobre o preço do ingresso para os Condomínios Paradisíacos: aceitar Jesus. Quem não o fizer, seja por recusa ou simples ignorância, já era. Isso significa que, entre outros, estão ou estarão no Inferno Ingmar Bergman, Douglas Adams, Nietzsche, Einstein, Buda e todos os índios.

Em um certo sentido, poderíamos dizer que as almas no céu “valem” mais do que as almas no inferno, pois as vagas preenchidas são poucas e preciosas (especificamente, “valem” número de almas no inferno / número de almas no céu, que é um resultado maior que 1). Por outro lado, as almas no inferno “valem” mais no sentido explicado pela parábola acima. Podemos também assumir como verdadeiro que a Divindade gostaria muito que mais das almas condenadas fossem salvas.

O Contratante, como um jovem saudável, inteligente, capaz e que conhece a Palavra, teve muita oportunidade de ir para o Céu. Os índios da América do Sul pré-descobrimento não tiveram nenhuma. Que o Contratante recuse a oportunidade de livre e espontânea vontade soa injusto para os índios. Com essas considerações, a seguinte proposta é feita:

O Contratante vende sua alma ao Diabo, vai para o Inferno ou sofre a Morte Final, com a condição de que pelo menos um índio vá para o Céu em seu lugar.

Poder-se-ia objetar que os indivíduos só podem ir para o Céu por decisão própria. Se for o caso, a condição é relaxada: basta que um ou mais índios tenham condições de conhecer a Palavra, ou seja, uma segunda chance, que iguale sua oportunidade com a que o Contratante teve em vida. Deus pode tudo, por definição, então com certeza pode enviar um profeta aos Infernos ensinar religião prescritiva para os índios. Mas caso as decisões passadas não possam ser alteradas nem pela Divindade, a condição é novamente relaxada para a salvação futura de alguns índios (ainda existem muitas tribos que nunca ouviram falar em cristianismo, e portanto condenadas integralmente). Como o Contratante não iria para o Céu de um jeito ou de outro, a Divindade não tem nada a perder e algumas preciosas almas desgarradas a ganhar.