March 2006


Penny Arcade comic strip about Macintosh

Com a morte do shikigami, eu precisava de um computador novo. Acabou de chegar meu Powerbook 3400C, e por R$590 (incluindo um HD extra de 6GB, placa wireless (olá DS), bateria boa, manual e etc.), foi um excelente negócio. Mais detalhes depois que eu instalar Debian nele.

Se minha vida fosse um romance, seria terrivelmente repetitivo. Em todo capítulo, eu estou prestes a mudar de casa; comprei $OBJETO_CARO (instância atual: Powerbook 3400C), fiquei endividado e não sei como vou pagar; assumi tarefas demais para mim mesmo para depois procrastiná-las todas até o esquecimento; e matei mais aulas do que deveria.

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Mulholland Drive, de David Lynch, é um dos melhores filmes já produzidos na história do cinema, mesmo sem consumir psicotrópicos antes de assistí-lo.

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A: Olha só que legal: esse cara inventou um tipo de cerâmica, shichirin, para se fazer num braseiro qualquer em poucas horas. E fica de uma textura bonita.
B: Ahn.
A: Normalmente você precisa de um forno grande e várias semanas. Os mestres ceramistas japoneses chegam a passar as últimas noites em claro, controlando o fogo…
B: Puxa.
A: (entusiasmado) …Eu vou aprender isso e fazer minhas próprias tigelas e xícaras! E com a carpintaria meus próprios móveis, e vou escrever meus próprios programas, e cozinhar minha comida, e bordar e costurar e pintar minhas roupas, e sobreviver por mim mesmo acampando, e…
B: Nossa, que menino independente. (risos)
A: Hm… não, não é isso. Não é por um desejo de independência, os impulsos são outros. Primeiro, tem a vontade pura de criar; fazer com as próprias mãos é legal, divertido, dá barato de poder. Segundo, tem o desejo de conhecer. A maioria das coisas não dá pra entender de verdade antes de você mesmo tentar fazer. Posso não ter aprendido a desenhar, por exemplo, mas todo o tempo que gastei com isso não foi jogado fora; só comecei a entender as artes visuais de verdade, só fui entender o valor de um Picasso e o não-valor de um quadro “abstrato” da feirinha do Largo, depois que eu mesmo estudei desenho. Pelo desejo de criar seu mundo se expande. Há seis meses um móvel era um móvel; mas hoje, quando olho para um objeto de madeira, imediatamente já vou vendo como as tábuas foram unidas, que tipo de acabamento deram, essas coisas.
B: Entendi.
A: (pensativo) Desde pequeno eu adorava revistas. Entrava numa banca e ficava um tempão olhando aqueles assuntos todos que não entendia. Meu objetivo de vida é fazer com que todas as revistas de uma banquinha me sejam interessantes.

Eis que, entre cigarras e libélulas, minha estação favorita começa. Feliz outono.

De repente parece que todo mundo está usando o tema Connections para o Wordpress. Êita, mais uma vez na moda sem saber.

Case in point, última aula de cerimônia do chá, sábado passado. Klécio-sempai, dona Ishida e Atchan assistem enquanto eu tento fazer u-no-hana, o tipo de cerimônia que será usado no chakai em Registro. Klécio, satisfeito porque eu cortei o cabelo curtinho, comenta com dona Ishida:

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Troquei a imagem do topo do Connections 1.0 por uma versão editada de uma foto minha. A visibilidade do título caiu muito, mas mesmo assim eu gostei 8)

Ele gostava de livros velhos. Não que isso fosse estranho, claro, é um traço comum a quase todo leitor não alérgico. Nas sombras dos corredores da biblioteca, seus óculos enormes eram um par de bolas negras oleosas, absurdas, caçando livros voluptuosamente: Hemingway, Kant, Byron, Sidney Sheldon, Dan Brown, seu apetite não tinha limites.

Poucos prestavam atenção no corpo esguio que se arrastava pelas estantes, e tampouco ele tinha mais do que um resquício de consciência de seus colegas leitores. Era assim desde pequeno. O desinteresse mútuo que partilhava com a vida era como que uma habilidade inata, de forma que um não se importava com o outro. Morava sozinho em um quarto qualquer do alojamento universitário, as paredes verdes já amareladas e o vidro quebrado da janela sustentado por durex. O único móvel era uma cama velha com baú, sobre a qual ficava largado um cobertor xadrez cheio de poeira. Perdera o contato com a família e não tinha amigos. Nas aulas sentava-se sempre no fundo, atrás de todos, nunca falava nada e fazia as provas discretamente. Suas notas oscilavam em torno da média, vez ou outra reprovava.

Ele pouco se importava. Passava mais e mais tempo na biblioteca, e à medida que deixava de dar atenção aos outros estes retribuíam-lhe o descaso. As interrupções para comprar uma fatia de pizza na cantina eram-lhe um incômodo, e não notava o quanto andava emagrecendo. Achava a gordura molhada nojenta, comparada à pureza seca do pó e papel. E o cheiro! Nada estranho em gostar do cheiro de livros, mas ele começara a mergulhar o nariz nos volumes com luxúria, desejo mesmo, as páginas eram seu vinho, seu café, seu charuto: cheirava-as antes de devorá-las.

Era impressão sua, ou o aroma variava com autor, tema, estilo? Não, não era; podia agora discernir com facilidade o teor do livro só pelo olfato. Impossível confundir o cheiro azedo de Machado com o terrestre de Guimarães.

De tanto debruçar-se sobre volumes a fim de cheirá-los, sua coluna passou a doer muito. Sentia-se feito de gelatina, incapaz de sustentar o próprio corpo. Percebeu que a aflição era aliviada se a cada passo curvasse o torso para frente e para trás, alternadamente, e passou a andar assim, bicando o ar como um corvo ridículo de desenhos animados. Mas ninguém notou.

Um dia estava colado à capa de uma antologia de Alberto Caeiro, aspirando — não havia dúvidas — a fragrância de flores do campo, quando não resistiu e lambeu. Erva-doce, tinha gosto de erva-doce. Este momento pareceu-lhe mágico, uma grande descoberta, sempre achou Caeiro mais próprio para gostar de lamber do que de ler, e ficou um bom tempo lá, imóvel, a língua obscena grudada no hiato de “antologia”. Abriu o livro sem pressa, leu, cheirou, lambeu, não resistiu e beliscou a pontinha de uma página sobre um rio de aldeia.

Passou aquela tarde comendo o canto superior de folhas, transformado pelo destino em um estranho Van Gogh psicopata a arrancar e devorar orelhas em série. Extasiado, esqueceu-se de voltar para casa. As lentes grossas de seus óculos, cobertas por sombras, não refletiram a luz da lanterna do segurança sonolento. Alimentou-se a noite toda.

Pela manhã sentia-se satisfeito, mas a privação de sono o tornara sensível à claridade. Acomodou seu ser pequeno e magro embaixo da escada e dormiu. O tempo todo agia com uma naturalidade incrível, sem nunca cogitar que fazia algo estranho ou impróprio.

Os livros saciavam-lhe, não sentia mais fome. Descobrira que o centro da folha, o texto em si, concentrava mais sabor, e abandonou as orelhas. Cada letra tinha um gosto próprio, mas que ao mesmo tempo variava com a sílaba, palavra, parágrafo e livro em que estava inserida. Os elementos gramaticais eram todos hologramas apetitosos. O sabor do “a” preposição, por exemplo, era diferente do sabor do “a” artigo. Um “a” crase tinha o gosto do primeiro, mas seu acento grave o mesmo que o artigo. Os sabores se misturavam e passou a comer uma letra por página, a fim de experimentar vários livros. E com tal dieta mirrava, mirrava muito.

Por bastante tempo devorou Camões (que lembrava pão-de-ló) sem nunca enjoar. Apreciava muito as inconstâncias de Nietzsche, ora amargo, ora cítrico, ora doce como um suspiro. Misturava os quatro sabores de Pessoa e achava bom. Poe deixava-o bêbado, Sartre, com ânsias, e Paulo Coelho era como um pudim de bar enjoativo; mas não recusava nada, entregava-se todo às delícias gastroliterárias, intelligentsia e gourmet num só corpo.

Desejando um prato típico, tentou alcançar a prateleira de literatura coreana, mas mal podia tocar a segunda fileira de livros. Pensou em uma escada, mas percebeu que seus dedos pastosos e lambidos aderiam com facilidade à madeira. Escalava estantes e sua gula aumentava sem parar, o corpo pálido curvando-se ritmicamente, seus olhos um par de bolas negras oleosas, absurdas, caçando livros voluptuosamente. Seu último pensamento antes do cérebro encolher para proporções insectóides foi que seus colegas traças também haviam sido um dia humanos, leitores ávidos como ele mesmo. Mas, possuído pela voragem, não teve tempo de refletir sobre as implicações.

Está na moda fazer listas, e já que eu toquei no assunto… “irresistível” aqui é definido assim: a chance de uma estranha poder me manipular à vontade aumenta grandemente com cada uma dessas características.

  • 10. Trancinhas.
  • 09. Sardas, especialmente em ruivas naturais.
  • 08. Rosto com características étnicas, ou de alguma forma diferente e marcante.
  • 07. Corpo moldado por exercício, especialmente artes marciais; roupas e acessórios típicos de quem treina ou luta.
  • 06. Vestidos longos com bordados, pregas ou rendas, e toda forma de peças classicamente consideradas femininas.
  • 05. Chapéus, gravatas, peças militares e toda forma de roupas classicamente consideradas masculinas.
  • 04. Voz macia.
  • 03. Pele característica de quem nunca usa maquiagem.
  • 02. Olhar brilhante, entusiasmado, curioso.
  • 01. Arrogância.

Adendo: achei que tinha ficado claro pela definição explícita no primeiro parágrafo, mas teve gente reclamando que alguns itens são mutuamente exclusivos. Duh, claro que são. Essa não é uma “lista de pré-requisitos para que uma pessoa me seja atraente”, é uma lista de coisas que tornam alguém irresistível (∀ p ∈ Pessoas, ∀ i ∈ Lista, tem(p,i) => irresistível(p), e não irresistível(p) => tem(p,i)). Case in point, a garota que há cinco anos é minha namorada preenche apenas dois ou três itens da lista.

Promíscuo, sim, mas em boa companhia.

Como vocês já devem ter notado, o diário está de endereço novo. O antigo redirecionará para cá por mais um mês ou dois, mas atualizem suas referências. http://diary.leoboiko.8x.com.br agora é http://namakajiri.net/old/diary.

Sobre o domínio

O endereço no 8x.com.br foi “provisório” por uns dois anos. Eu queria registrar um endereço definitivo para usar por toda a vida e abandonar o Hostsul (que é um provedor caro e muito ruim), mas ficava adiando a tarefa. Quando o boto me contou que estava dividindo hospedagem no Dreamhost (que é barato e suficientemente bom), finalmente decidi mudar.

Eu queria um nome mais criativo do que “leoboiko.org”, provavelmente uma expressão em japonês. Tinha que ser razoavelmente fácil de soletrar por brasileiros e americanos, mas interessante, e que não refletisse apenas um de meus interesses. Li dicionários de haiku, pesquisei provérbios de quatro letras, mas não conseguia me decidir. Já estava quase desistindo e indo com leoboiko.org mesmo quando, na última hora, encontrei essa palavra. Namakajiri (estou sem kanji por problemas com o mysql; já comentei que odeio mysql?). Segundo o edict, (1) conhecimento superficial; (2) diletante. “Nama” significa “cru”, e “kajiru” é roer ou beliscar; suponho que um nama de kajiru hito seja alguém que não tem paciência de cozinhar até o fim e fica comendo de tudo antes da hora — um hábito meu, com comida ou livros. Além disso, o caractere de “nama” não significa apenas “cru”, mas também “vida”. Li “namakajiri” como alguém que come a vida em pedacinhos, e me vi obrigado a adotar este nome de domínio.

Sobre a página

Aproveitei que ia migrar o diário mesmo e atualizei para o Wordpress 2.x. Também mudei para um tema novo, porque estava enjoado daquele tema padrão batido. Meu escolhido foi o Connections 1.0, de Patrícia Müller. Mas, como acho que deu para notar pelo endereço, esta ainda não é a forma definitiva de meu blog. Meu código ruby para servir páginas em várias línguas vai de vento em popa, e no futuro abandonarei o wordpress e passarei a usar meu projeto para tudo.

— Está demorando.
— Pois é.
Silêncio desconfortável. Olhares se evitando.
— Está demorando mesmo.
— Pois é.
— Domingo só passa um carro, demora mais.
— Eu vou ligar pra saber.
— O quê?
— O horário do ônibus. Vou ligar no cento e oito pra saber.
— Ligar de onde?
— Dali do orelhão, ué.
— E se o ônibus passar com você lá longe? Eu é que não vou correr pra te chamar.
— Tá
— Muito menos segurar o ônibus.
— Tudo bem.
— Tinha que ser mulher mesmo.

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Agora é oficial: o autor de Java não entende de linguagens de programação.

Para quem perdeu o bonde, Ruby é uma linguagem criada em 1995 realmente orientada a objeto e com fortes características funcionais (como o uso extensivo de blocos de código/closures em todo lugar, inclusive na biblioteca padrão, a possibilidade de alterar qualquer classe já criada e instanciada, inclusive as classes builtin, e continuations). Recentemente Ruby ficou famosa por um framework para páginas web, o Ruby on Rails. Eu não gosto do Rails, mas Ruby é de longe minha linguagem favorita. E “só pra gerar páginas web” é o caramba!

Ele também disse que você não pode fazer, “por exemplo, navegação interplanetária” com PHP, implicando que é um problema dessas “linguagens de scripting“. O contra-exemplo está logo na página de entrada de outra linguagem melhor que Java.

Eu moro em uma casa. Não apartamento, mas casa mesmo, com quintal, horta, cachorro. Atrás tem uma churrasqueira, um galpãozinho, um banheiro de casinha (que não funciona mais), uma bomba d’água (também abandonada), um pé de maracujá-doce, um arbusto de flores noturnas. E uma oficina.

A casa era de propriedade de seu Pedro, que, segundo dizem, era fissurado em fazer tudo com as próprias mãos. Ajudou no planejamento e construção desde o começo. Montou os galpões, a lavanderia, a caixa de correios. Parece que passava mais tempo na oficina do que em casa.

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Foto do logo do Lucky Strike abaixo de uma imagem da Virgem MariaPra deixar bem claro: não fumo, não pretendo fumar, e não acho que seja um hábito aconselhável. Mesmo assim, toda vez que vejo um maço de Lucky Strike tenho vontade de comprar. Não pelo conteúdo, vejam bem, mas pela caixa.

Eu adoro este logo. Ele é forte mas charmoso, chamativo mas discreto, altamente evocativo, de apelo retrô. É, como diria Paul Graham, com a forma mais forte e primária na cor mais forte e primária. Todas as outras marcas que vi têm símbolos de gosto duvidável, tentando passar uma imagem de classisismo ou, pior ainda, de modernidade lean minimalista (um outro logo lembra as pílulas do Matrix).

Adoro também a publicidade. Ela envolve artigos de tabacaria — cigarros, caixas, potes de metal — em iluminação sugestiva e acompanhados de círculos de fumaça, uma evocação clara do logo. Senhores, eis uma marca de cigarro que faz propaganda de seu produto como cigarro. As campanhas de outras marcas, em comparação, envolvem imagens de gente feliz e livre, esportistas, aventureiros, rebeldes, ou o caubói da Malgosto (que além de ser propaganda enganosa não faz sentido nenhum por essas bandas).

Eu adoro Lucky Strike, e como se vê nos trabalhos de Ray Johnson, não sou o único. Raymond Loewy, o designer original, já está morto, mas para ele e para quem quer que seja o responsável pela campanha atual: A+ pra vocês.

A mudança do campo para a cidade é drástica, e muito se falou sobre as alterações dramáticas no estilo de vida. Mas eu acho que boa parte do sentimento de alienação vem de detalhezinhos que nem sempre são notados. Por exemplo, quase ninguém repara que aqui a comida sempre vem embalada. Não só comida pronta, mas os próprios ingredientes: frutas, legumes, carne, temperos, chás, tudo é servido em plástico, sacolas, bandejas de isopor, filme.

Há quem ache que plástico não altera o gosto da comida. (more…)

Vejam só, agora além de fazer pão eu acertei o pão. Ficou com cara de pão mesmo. Ficou bom, até.

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