Mon 13 Mar 2006
— Está demorando.
— Pois é.
Silêncio desconfortável. Olhares se evitando.
— Está demorando mesmo.
— Pois é.
— Domingo só passa um carro, demora mais.
— Eu vou ligar pra saber.
— O quê?
— O horário do ônibus. Vou ligar no cento e oito pra saber.
— Ligar de onde?
— Dali do orelhão, ué.
— E se o ônibus passar com você lá longe? Eu é que não vou correr pra te
chamar.
— Tá
— Muito menos segurar o ônibus.
— Tudo bem.
— Tinha que ser mulher mesmo.
— Central de atendimento, em que posso ajudar?
— Oi, eu gostaria de saber o próximo horário do 656…
— Pois não. Poderia me informar em que ponto você está?
— Bom, não sei explicar direito… fica na rua 25 de março, um pouco
antes do shopping.
— Aquele na frente do Café Buraco?
— Isso, exatamente!
— Um momento, por favor… aqui: é às vinte horas e quarenta e sete.
— Puxa, muito obrigada.
— O que é isso, eu é que agradeço.
— Então?
— Hm? Ah. O próximo é às oito e quarenta e sete.
— Pô, ainda demora um monte.
— Pois é.
— Incompetência desse prefeito frouxo, que só abaixa a cabeça pra
Transportes…
— Hm.
— Aconteceu alguma coisa, amor?
— Quê? Não, nada.
— Em que você estava pensando?
— Nada não, bobeira. Tava lembrando da moça que me atendeu no cento e
oito. Ela tinha uma voz bonita…
* * *
— Caralho, esse ônibus não vem nunca.
— Pois é.
— Todo domingo a mesma coisa.
— Vou ligar lá pra saber.
— Heim? Mas você já não tinha ligado na outra semana?
— Ah, é que eu esqueci o horário.
— Central de atendimento, em que posso ajudar?
— Oi, eu queria saber o próximo horário do 656… na frente do Café
Buraco.
— Aah, sim. Um momento, por favor… é às vinte horas e quarenta e
sete.
— Tudo bem. Muito obrigada, viu?
— Imagina, eu é que agradeço.
— Sabe…
— Sim?
— A sua voz é muito bonita, sabia?
Risadas.
— Que é isso, bondade sua.
— Qual é o seu nome?
— Marina.
— Eu sou a Ana. Obrigada de novo, Marina.
— Imagina.
— E aí?
— É às oito e quarenta e sete.
— Porra meu, ainda faltam uns vinte minutos.
— Pois é.
* * *
— Não é possível! Pro inferno! Não agüento mais esperar esse ônibus do
cacete!
— Calma, amor, não precisa ficar nervoso. Eu vou ligar lá pra saber o
horário.
— Você esqueceu outra vez?!
— Pois é.
— Central de atendimento, boa noite.
— Éé… perdão, com quem estou falando?
— Como? Com Cláudia.
— Me desculpe, Cláudia, mas a Marina está?
— Aahn, está sim. Olha, é pra você.
— Alô?
— Pois não?
— Er, eu gostaria de saber o horário do 656 no ponto na frente do Café
Buraco…
— Ah, é você de novo? Você gosta do Café Buraco, heim?
Risadas.
— Pois é.
— Vai todo domingo?
— Sim.
— Eu também gosto de lá.
— Sério?
— É. Vou sempre que tenho folga.
— E quando são suas folgas?
— Bom, é que as escalas variam…
— Arrã. Escuta. Eu tava pensando. Na sua próxima folga, você não
queria ir lá comigo?
— Demorou, heim?
— Tava dando ocupado.
— E quando chega o próximo?
— Oito e quarenta e sete.
— Ainda demora um pouco.
— Pois é.
Silêncio.
— O que foi, amor?
— Não foi nada.
March 14th, 2006 at 07:35:42
Num intendi…
March 14th, 2006 at 10:20:14
Boa história! Divertida. Abraço. Fique com Deus!
March 16th, 2006 at 07:45:32
O novo template da tua página ficou perfeito. Muito mais a sua cara, mais profissional e bonito. Parabéns!