Eu moro em uma casa. Não apartamento, mas casa mesmo, com quintal, horta, cachorro. Atrás tem uma churrasqueira, um galpãozinho, um banheiro de casinha (que não funciona mais), uma bomba d’água (também abandonada), um pé de maracujá-doce, um arbusto de flores noturnas. E uma oficina.

A casa era de propriedade de seu Pedro, que, segundo dizem, era fissurado em fazer tudo com as próprias mãos. Ajudou no planejamento e construção desde o começo. Montou os galpões, a lavanderia, a caixa de correios. Parece que passava mais tempo na oficina do que em casa.

É uma bela oficina, aliás, com vários armários feitos à mão, um banco de carpintaria decente e um grande painel para pendurar ferramentas, com a silhueta de cada ferramenta pintada próxima aos pregos. Eu não comentei porque queria esperar até ter algo pronto para mostrar, mas de uns tempos pra cá tenho me interessado por carpintaria. Estive lendo, pesquisando preços, comprei já algumas ferramentas. Minha intenção era tirar um sábado de sol para fazer uma faxina, ressucitar a velha oficina e usá-la para construir meus próprios móveis.

Seu Pedro está morto. O filho quer vender a propriedade. Tenho no máximo até maio ou junho até acabar o contrato. Serei obrigado a sair de minha casa. Minha casa que é casa mesmo, não apartamento, e tem quintal, horta, cachorro. Minha casa que fica literalmente em frente ao Centro Politécnico, e que gasto R$200 mensais para viver. Terei que sair de minha casa, provavelmente, para um lugar que não será casa mesmo, não será em frente ao Centro Politécnico, e não custará só R$200.

Não sei se seu Pedro era do interior ou não, mas ele sabia. Está aparente nos detalhes, na bomba, no chapéu de palha que acabou ficando para trás, no esmero com a casinha. Seu Pedro entendia. Velho, eu sei o que você estava tentando fazer com esses cabides feitos de galhos, essa ferradura atrás da porta, esses entalhes no formão. A minha dor de ser separado disso tudo nem se compara à sua. Está fora de meu alcance salvar a sua criação, e é bem provável que o futuro dono vá derrubar tudo, concretar os fundos e construir uma piscina. Mas, até lá, eu vou tirar o pó dos armários, juntar umas tábuas e trabalhar. O que o senhor criou será usado pela última vez para minha iniciação na carpintaria, e viverá comigo enquanto eu também criar. É a única homenagem que posso prestar a alguém que não conheci, mas que ergueu do chão o lar que me acolheu.