Tue 28 Mar 2006
Guia de turismo namakajiri.net para Mulholland Dr., Hollywood Hills
Posted by leoboiko under Palavras , Ensaios , Cultura , CinemaMulholland Drive, de David Lynch, é um dos melhores filmes já produzidos na história do cinema, mesmo sem consumir psicotrópicos antes de assistí-lo.
O parágrafo anterior faz parte do que chamam pirâmide invertida, estilo de ensaio no qual você de cara já joga a conclusão na cara do leitor e depois argumenta. Esse estilo foi criado por jornalistas, que se preocupam muito em capturar logo a atenção dos outros, e ultimamente está na moda entre blogueiros, sendo chamado de “o jeito certo de escrever para a Web”.
Caso não tenha dado pra notar, eu não gosto de pirâmides invertidas. O primeiro parágrafo deste ensaio foi uma paródia — uma crítica. E continuarei quebrando de propósito quase todas as outras recomendações daquela página. Se você está entendiado porque já estamos no segundo parágrafo fazendo nariz-de-cera sem mencionar o filme, vá ler reddit ou outra coisa, porque eu vou enrolar muito. Se está disposto a encarar, pegue uma xícara de expresso do bom e continue lendo…
FMF (Frequently Misunderstood Films)
Já faz tempo que quero abrir uma seção sobre filmes freqüentemente mal-entendidos. Dói ver a maioria dos títulos com que tenho mais apego emocional — Lain, Adaptação, 2001 — descartados sem serem aproveitados com tudo o que têm para oferecer. Esses dias a Kátia escreveu que prefere o seriado en vogue Lost ao Mulholland; especificamente, que o “Armageddon” J. J. Abrams deveria “dar aulas” ao Lynch. Deixando de lado a comparação pessoal absurda (Lynch é muito mais l33t kra!!!~!), o que acabou me convencendo a publicar este guia foi a escolha dela de Mulholland como contraste para o Lost. Tivesse ela escolhido, digamos, Twin Peaks, e eu estaria trabalhando agora, mas comparar justamente a obra-prima do Lynch com uma novela gimmick de alto orçamento como o Lost foi demais. Mas não falemos mais sobre séries populares; vamos à Hollywood.
Mas, Boiko, o que diabos aconteceu em Mulholland Drive?
Se você não viu o filme, pare de ler este ensaio agora. Eu não estou brincando. Mulholland é um daqueles filmes com uma surpresa e virada de trama bem no meio, como Clube da Luta ou Adaptação, e saber dela de antemão estraga completamente o efeito. Se está muito curioso, eu imploro que vá alugar o DVD ou baixar o torrent. Assista antes de continuar. Caveat emptor.
Aviso: estragador de surpresa a seguir.
O filme está dividido em duas narrativas distintas, o que imagino que tenha confundido quem não está acostumado com estruturas não-lineares. A primeira parte é algo como um “sonho” da protagonista; a divisão acontece quando o Cowboy diz “Time to wake up, pretty girl”. De maneira confusa, os nomes dos personagens de uma narrativa são permutações dos nomes na outra (a correspondência entre eles é importante; mais sobre isso depois). Se o leitor não tinha percebido isso, peço novamente que pare de ler e assista o filme outra vez, ou a discussão não vai fazer muito sentido.
Da primeira vez que você assiste o filme você não sabe sobre a irrealidade da primeira parte, o que torna necessário vê-lo de novo para entender melhor algumas nuances. Mas pára por aí. Na segunda vez tudo se encaixa perfeitamente. Mulholland não é como Lain, que você assiste quinze vezes e continua achando significados. Lain, sim, eu não culpo ninguém por querer tomar um chazinho antes de ver, mas Mulholland é absolutamente lógico (cof, cof) e não exige estados alterados de consciência: apenas um pouquinho de embasamento em Freud, Jung e… cinema blockbuster!
Mulholland Drive é uma crítica ao cinema hollywoodiano
Temos de novo o problema da expectativa das audiências; acredito que o espectador que não esteja acostumado a ver filmes do Nenhenhistão possa ter deixado passar as paródias sutis. O cinema, hoje, tem uma divisão aguda entre filmes formulaicos (baseados em fórmulas fixas de gênero, vendem bastante, quase sempre são americanos e de Hollywood) e o “resto” (de estilo mais livre, vendem pouco, quase sempre feitos no “resto do mundo”). A fórmula de um filme de ação, por exemplo, dita a personalidade estóica do herói, o par romântico que é superficialmente uma mulher independente mas na prática tem um papel puramente de suporte, o vilão esnobe, a cena de perseguição de carro, a de explosão e o beijo dramático antes do clímax, entre outras coisas.
Filmes americanos não são a primeira forma de arte a cair em esquemas rígidos; aconteceu, por exemplo, com as histórias de detetive, ou com a poesia japonesa antiga (tanka e renga). Como os artistas são inventivos, eles logo encontram alguma maneira de se movimentar dentro da camisa-de-força da convenção. Uma possibilidade é simplesmente abandonar tudo e começar de novo, como Bashô fez na criação da poesia haiku, ou como fazem os diretores fora da cadeia Holywood–UCI–Blockbuster. Outra, que considero a mais elevada, é o pastiche: mistura de paródia e homenagem feita conscientemente dentro da fórmula esquematizada. O autor aqui entende muito bem as limitações de se atribuir ao gênero, mas busca inovar sem quebrá-lo. O pastiche é o ganha-pão do Tarantino.
A terceira maneira é a crítica, na qual o autor busca esclarecer ao público as restrições, nem sempre bem compreendidas, da forma rígida.
As pistas começam já no nome original do filme, referência a uma famosa estrada das Hollywood Hills (segundo a wpedia, o Baudrillard chamou-a certa vez, metaforicamente, de “pista de pouso de alienígenas”). Considere a colagem de estilos que é o começo do filme. Depois de uma ceninha inicial com uma limusine Cadillac em Mulholland Drive (esta cena terá importância para a trama), vemos mais longe na estrada um racha de adolescentes animados e garotas com a cabeça para fora do teto solar, gritando, cabelo ao vento. “Os carros vão tão rápido que parecem até flutuar quando voam com velocidade psicótica pelas pistas da Mulholland Drive”. É um filme de adolescente.
Voltamos para a cena inicial, que se revela uma tentativa de assassinato ou seqüestro à beira da estrada. O bandido pára o carro e sai armado ameaçando a vítima, uma mulher. Surge uma luz; mal ele se vira e um dos carros do racha colide com o Cadillac. O filme mal começou e já temos a cena de explosão, barulhenta e fantástica. A mulher foge, ainda ferida, como se temesse perseguição. Vemos alguns detalhes de sua fuga sofrida e voltamos para a cena da explosão, com polícia e paramédicos. Dois detetives de meia-idade, vestindo preto, observam o acidente imóveis, impassíveis, e trocam algumas poucas palavras sem nunca olhar um para o outro. Eles deduzem o que aconteceu pelas pistas existentes.
Thriller.
Mais um pouco da trama e vamos para um diálogo entre dois homens tomando café num bar de mesinhas baixas com uma garçonete loira mostrando o nome no crachá. Um deles parece ser um detetive ou psicólogo e interroga o outro, que é um tanto excêntrico. Nervoso, ele afirma que viu num sonho o que está acontecendo agora e o que vai acontecer a seguir. O sonho premonitório, sinistro, é sobre um homem fora do prédio. A descrição fica mais e mais viva, o suspense cresce. Eles saem do prédio para ver o homem. Close no rosto do sonhador; ele está “coberto de suor, com dificuldade para respirar”. O outro também consegue “sentir” alguma coisa. Devagar, devagar, eles viram a esquina de tijolos vermelhos, chegam perto, chegam perto.. PAM! De repente surge o homem, rosto escuro, feio, olhando fixo para o sonhador. Este cai duro, os olhos escancarados em puro de terror. O interrogador olha para cima e o homem feio sumiu; olha para baixo, e seu amigo está morto.
Agora estamos vendo suspense sobrenatural/terror. Está pegando o espírito da coisa?
Finalmente conhecemos a protagonista em mais uma mudança de estilo; a trama prossegue um pouco no espírito dos filmes da época de ouro do cinema, com personagens inocentes que vêm tentar a sorte na cidade e descobrem um grande talento. Nossa loirinha inocente entra no apartamento emprestado pela tia e encontra a morena fugitiva do começo do filme. Ela perdeu a memória no acidente e se comporta de forma taciturna, calada.
Outra vez o gênero muda, e vemos um escritório meio amarelado, sujo, contrastando muito com o estilo brilhante da cena anterior. Vemos dois homens jovens conversando amigavelmente; um parece um roqueiro de risada fácil, fumando, e o outro veste um terno preto limpo, mas é um pouco “diferente de um homem de negócios”. Cheios de gírias, eles conversam casualmente sobre um acidente e sobre uma agenda telefônica. Assim que o homem de terno mostra a agenda o outro habilmente o mata. Calmo, ele arranja a arma na mão do cadáver para forjar um suicídio, mas ela dispara e atinge uma mulher no quarto ao lado. Em uma cena de comédia grotesta e violenta, a mulher, obesa, aparece reclamando que “alguma coisa me mordeu”, e o assassino arma para matá-la também. A passagem inteira é absolutamente tarantinesca.
Pra quem viu o filme no cinema, esta foi a cena em que você julgava a audiência. Quem já tinha sacado o que o diretor estava tentando fazer não riu¹. Eu vi o filme na pré-estréia meia noite no Cine Ritz; quase ninguém riu.
A colagem continua alternando gêneros. Seguem-se cenas de conspiração maligna, com direito a chefões do crime misteriosos e aparatos tecnológicos absurdos (estilão filmes de espionagem dos anos 60), e finalmente a trama principal engatilha no já citado formato de filme-do-protagonista-inocente, mas ele será sutilmente quebrado no decorrer dos acontecimentos. Até agora, cada cena seguiu obedientemente os clichês de vários estilos hollywoodianos.
Está claro agora o que o diretor está querendo mostrar? Bom. Arranhamos os primeiros minutos do filme. Continuemos…
Jung, sonhos e cinema, ou Rita Hayworth é minha Afrodite
Lá no começo eu chamei a primeira parte do filme de “sonho” — desse jeito mesmo, entre aspas. Durante o “sonho” a loirinha tem uma visão de si mesma morta na vida real, o que seria premonitório. Não acho que seja o caso. Mais provavelmente, a primeira parte não é bem um único sonho e sim uma representação do inconsciente da protagonista em linguagem onírica. Exceto que, no lugar de arquétipos jungianos clássicos, temos figuras típicas de filmes. O casal idoso gentil. A mulher gorda, engraçada e maternal. O artista excêntrico e infantil. O mafioso e a conspiração sombria. O cowboy estóico.
Para benefício dos entediados, não vou continuar mais escovando cada cena. Acredito que os simbolismos menores já estejam bastante óbvios para quem for ver o filme agora. Vamos só destacar alguns pontos:
Observe o contraste entre imaginação e realidade. Na vida real, a loira é uma atriz bastante medíocre que teve um caso com a morena, atriz de mais renome. Ela se apaixonou, mas a morena é hedonista e só queria se divertir, trocando-a rapidamente pelo diretor; ciúme e inveja consomem a protagonista até fazê-la contratar um assassino. No mundo dos sonhos, a loira é pura, inocente e tem um grande talento secreto, que só não é reconhecido por conspiração de forças malignas (olha o Freud). A morena dos sonhos, tendo perdido a memória (e a identidade), é perfeitamente passiva, receptiva, modelável, e o amor entre as duas floresce romântico e perfeito.
O material da fantasia, além dos arquétipos de filmes, é tirado de eventos da vida real da loira. Detalhes sem importância, como homem com chapéu de cowboy, viram mistérios; pessoas com quem ela teve inimizade, como o diretor que roubou a amada, viram personalidades odiáveis; e pessoas com quem ela simpatizou, como a Coco, são vistos como personagens bons.
A confusão entre nomes e imagens também não é aleatória. Os nomes dos personagens no mundo-dos-sonhos da loira foram todos retirados de figuras da sua vida real. A si mesmo ela atribui o nome da garçonete loira (Betty), por exemplo, que é a pura imagem da inocência; à morena o nome Rita, da atriz Rita Hayworth, um arquétipo de “atriz famosa e bonita” (perceba a pista do diretor no cartaz do filme: “there NEVER was a woman like Gilda!”). A morena-real tirou o emprego da loira-real; o nome da morena-real, Camilla, e o papel de tirar o emprego são atribuídos a uma atriz maligna. Interessante ou não? Tem mais: a imagem da atriz maligna é tirada da garçonete da vida real, de quem a loira tomou o nome para sua auto-imagem, o que claramente indica que a loira-real inveja a inocência da garçonete.
A chave e a caixa azuis são freudianismos purinhos. Além disso, foi a morena-dos-sonhos quem trouxe a chave, mas ela a deixa horrorizada. É que, na vida real, a chave foi o sinal que o matador deixou para confirmar o assassinato da morena-real. Note também que ela carrega na mesma bolsa o dinheiro que, na vida real, foi usado para pagar o matador (loirinha-dos-sonhos: “Não devemos tocar neste dinheiro, ele pode ser perigoso… você parece ser uma pessoa nova e pode ser uma pessoa nova, pode ser quem você quiser”. Será que é quem *ela* quiser mesmo?).
A caixa azul, é claro, representa a caixa de Pandora, a quebra da fantasia, e a chave o desejo de quebrá-la. Toda fantasia no fundo sabe de sua própria irrealidade e conspira para quebrar-se. Todo o mundo dos sonhos gira em torno da caixa.
O homem feio é uma representação do Id, as partes estranhas e assustadoras do inconsciente. Significativamente, é ele quem libera as pequenas imagens dos pais da arrependida loira-da-vida-real; essas imagens crescem e a atormentam até o suicídio. Os pais são, obviamente, o superego.
O clube Silencio, que surge logo antes do fim da fantasia, é outra representação do desejo de quebrar a fantasia. O anfitrião, um ilusionista, nos avisa várias vezes que é tudo uma ilusão. No hay banda! No hay orquestra! Apenas silêncio. Mesmo após todos os avisos nos emocionamos com a performance magnífica de Llorando (eu chorei), para mais uma vez quebrarmos a cara porque era mentira. É tudo falso. Exatamente quando percebemos isso, morena-dos-sonhos olha para a sua bolsa e descobre a caixa. Faz sentido agora?
Incidentalmente, o clube Silencio é a mensagem do filme inteiro; ele nos lembra que a “vida real” do filme, por mais que seja sombria e realista, é também mentira, é tudo una grabación.
No hay banda!
Este é um filme com mensagem: duas delas, até. A primeira, já comentada, é a crítica à esterilização do cinema comercial. A segunda é sobre o cinema em si, e nos ensina a não usá-lo como escapismo da realidade — a manter sempre em mente que não há banda. Para comparar, esta última é também a pretensa mensagem do Matrix. No livro “Matrix e a filosofia”, a feminista Cynthia Freeland contrasta-o com eXistenZ, sendo favorável ao último. Ela comenta que o Matrix prega sobre encarar a realidade da boca pra fora, mas vende a si mesmo pela ilusão (a maior parte da história acontece fascinantemente dentro da Matrix, e em particular as cenas de ação com superpoderes são o destaque do filme). Este tipo de desonestidade intelectual não tem espaço em Mulholland, Lynch quebra fantasias implacavelmente. É por isso² que Baudrillard, ao recusar a comparação de Matrix com “Simulacros e Simulações”, citou Mulholland como exemplo de filme que realmente trata desse assunto (junto com O Show de Truman e Minority Report).
Time to wake up
Espero que esteja claro que Mulholland Drive não é um filme viajado. O essencial dele, em trama e em mensagem, é bastante claro, segue uma lógica bem definida e não dá muito espaço para interpretações. A questão é que você precisa pegar a gestalt da coisa para que as cenas façam sentido, senão fica com um monte de imagens desconexas e a impressão de nenhum significado. Vá para as internets agora ler as análises de outras pessoas; os pontos de debate são todos menores (por exemplo, para pensar: qual é a da tia Ruth?).
Notas:
[1] Ou riu de barriga cheia, sem nervosismo.
[2] Por isso, e pelo platonismo do Matrix.
March 28th, 2006 at 11:50:47
Credencruz, realmente o Lynch tá te pagando algo :P. Ainda assim permanece em minha mente a situação que imaginei: “putz, cara, fodeu, esqueci de fazer um roteiro, como é que vou vender essa biboca?”. Existem filmes que contam suas (es) histórias de forma diferente, mas usando um “diferente” que é apenas uma das pernas da trama mostrada, como foi o caso da Amelie Poulain, como foi o caso do Brilho eterno de uma mente blábláblá. Foi diferente, mas um diferente que serviu como tempero, não como prato principal. Não senti que estava comendo um peixe e só sentia gosto de sal. E é isso que sinto com “cidade dos sonhos”. É como se o formato com que ele contou a história tivesse recebido mais atenção do que a própria história. Como se eu tivesse comido peixe e sentido apenas o gosto do sal.
March 28th, 2006 at 11:52:44
droga! não consegui chamar você de esnobe. humpf
March 28th, 2006 at 12:04:15
O formato recebeu mais atenção do que a própria história. As histórias são bobas, as duas delas. O filme é sobre o formato, não sobre a história. É como o peixe que eu fiz para o Capitulino: pescado genérico de caixinha azul frito na manteiga com pimenta branca, alcaparras e limão. O peixe sem graça só serve de sustentação, o que é uma situação adeqüada se o que você quer é discutir sobre temperos (argh, a Sociedade Protetora de Analogias está atrás de mim agora). Outros filmes assim incluem o já citado Adaptação, o 1,99, o Evangelion depois da segunda metade, e basicamente tudo o que é descrito como “pós-moderno” ou “desconstrustivista” (o Baudrillard não está lá em cima duas vezes à tôa).
Pode ser sincera, ficou esnobe pra caramba 8)
March 28th, 2006 at 12:29:46
O formato recebeu mais atenção do que a própria história.
Talvez seja por isso o meu desgosto.
Se juntasse o que me faz gostar de Lost, por exemplo, não daria nem um episódio. Odeio aquele excesso de heroísmo, odeio as distribuições de culpa desnecessários, odeio os mistérios forçados, os operações na base da gambiarra. Mas o suspense, mesmo que imbecil, prende minha atenção. Assim como as piadas batidas do Chaves. Fora que alimenta a minha fome de conspirações baratas.
Esnobe seria se você dissesse “como aquelazinha ousa comparar o obra primoroso no maravilhoso Lynch com aqueles perdidos de merda? Chorarás lágrimas de sangue por isso”
Sobre formas de se contar uma história a minha preferida é o Brilho eterno de um nome blabla, na hora em que aparece nas lembranças pessoas sem rosto, acho magnifíco.
March 28th, 2006 at 12:31:10
Ah, e em tempo: a idéia de que as cenas sejam desconexas ou não-planejadas não cola porque o filme todo é altamente coeso. Praticamente toda cena tem duas ou três referências ao que vai passar ou ao que já passou (dica do diretor: preste atenção na xícara de café, no robe e no cinzeiro). E mais, praticamente todo diálogo dos personagens principais faz duplo sentido com o segredo do filme. Pra continuar com as comparações, nessa coesão de referências ele lembra bastante o Eyes Wide Shut do Kubrick, outro filme-sobre-filmes widely misunderstood.
March 28th, 2006 at 12:45:57
Fiquei com a impressão de que você não gosta do Mulholland primariamente porque ele não prende a atenção. É questão de estilo; existem vários filmes que exigem que você se force para pensar, sem te deixar simplesmente relaxar na poltrona e aproveitar a viagem. Lain é dez vezes pior do que Mulholland, você ou encara ele como um problema a ser resolvido ou dorme. Lost sem dúvida cativa muito mais que Mulholland, mas o Mulholland nem tinha intenção de cativar, pra começo de conversa.
March 28th, 2006 at 13:08:50
Em que sentido ele não tinha intenção de cativar? Digo, quem consegue assistir, receber uma mensagem, achar algo interessante, sem que a linguagem usada e/ou o que foi passado não o tivesse cativado?
March 28th, 2006 at 13:13:19
ou melhor: quem tem como objetivo que os outros assistam a sua obra sem que ela cative? (cativar aqui possui um único sentido: despertar interesse para que a gente entenda o que ele quis mostrar)
March 28th, 2006 at 14:35:26
Respostas: um monte de gente e um monte de gente, respectivamente. Por exemplo, quase nenhum artigo científico se preocupa em cativar (os que se preocupam em geral estão mais interessados em notoriedade do que em rigor científico), e os bons leitores de artigos científicos estão bem preparados para ler sem incentivo (Dijkstra escreveu certa vez sobre os perigos da pedagogia que ensina por gratificação emocional; o cursinho pré-vesbular moderno é conseqüência disso). “O Ser e o Nada” não está nem aí se te cativa ou não.
Se você assume que a audiência já tem interesse (Sartre), ou se você acredita que a audiência se interessar por si mesma é um prerequisito para a experiência da obra (cientistas, Mulholland), você não levanta um dedo para despertar interesse.
Para trabalhar mais com essa classificação: 1.99 e Lain são títulos arrastados, não se preocupam nem um pouco em cativar; End of Evangelion e 2001 e fazem de conta que te guiam um pouco para depois largar sua mão; Mulholland tem pequenas cenas fechadas parodiando fórmulas cativantes, mas no conjunto é desesperador; Tarantino, exatamente ao contrário, é bastante cativante como um todo, mas gosta de criar pequenas cenas pesadas e não-cativantes (como a demissão de Budd no Kill Bill); Clube da Luta e Perfect Blue tratam de temas complexos, mas são cativantes do começo ao fim; e Eyes Wide Shut é um caso à parte. Capisci?
March 28th, 2006 at 16:39:10
Entendo. Mas isso não seria cativar através da (falta-me um termo) “não cativação”? Assim como “está na moda justamente aquele que não se preocupa com isso” ou “é bonito justamente quem não se preocupa em sê-lo?”. A resposta para essa pergunta que acabei de fazer é tão extensa, principalmente quando se fala em algo que é, além de expressão artística, produto (no caso do cinema). Acho que é mais fácil ficarmos mesmo na explicação dos estilos. :P
March 28th, 2006 at 16:54:38
O que quero dizer também com cativar é: ninguém faz um filme pra guardar em casa, um filme é feito para ser projetado numa tela para que afete determinadas sensibilidades (e pelo menos cobrir os custos com a produção, claro. Porque ninguém faz cinema com fins filantrópico, nem a Santa Xuxa). E se ele afeta determinadas pessoas que se identificaram com o seu estilo (ou linguagem, ou seja lá o que for) entre o filme e esse espectador houve uma relação de cativador - cativado. Houve um lance dentro de ti que te disse “vi Lynch! Os teus olhos foram meus agora”. O processo dessa cativação que descrevi não acontece sempre da tela pro espectador, mas o contraŕio também. Existem os sádicos e os masoquista, mas nem sempre eles se encontram. O que não quer dizer que o momento não será prazeroso já que basta um deles para que ocorra um tapinha :P
March 28th, 2006 at 16:56:39
ah sim, faz tempo que quero perguntar: aqueles filmes na casa da Márcia pertencem a quem? Será que está aberto à empréstimos em troca da promessa de devolução rápida?
March 28th, 2006 at 18:52:01
Você está ampliando o sentido que eu tinha dado para cativar. Nos meus comentários, “cativar” significa apenas montar a trama de forma que você fique tentado a ver mais e acabe passando pela história toda sem esforço. Por uma variedade de razões, um autor pode de propósito fazer com que você precise se esforçar para entender o que acontece, ao invés de te guiar sem dor. É a diferença entre lazer “relaxar no parque” e lazer “escalar montanhas”. Quando você sai do cinema depois de ver Shrek, é como se você tivesse dormido a manhã toda; quando você sai do cinema depois do Mulholland, é como se tivesse saído de três horas de academia. E sim, para determinado público, falta de “cativação” é atrativo.
Os filmes da Márcia estão disponíveis para negociação com a própria. Eu tenho um ou outro, também. Antes de perder o computador estava colecionando filmes que influenciaram Kill Bill; consegui o Battle Royale e o Shurayuki Hime, ambos muito bons.
March 29th, 2006 at 07:42:11
Você está ampliando o sentido que eu tinha dado para cativar. Nos meus comentários
Pois é, o que você fala é um subconjunto do meu conceito de cativação. Liga não, em diversas conversas com o Eduardo percebemos (eu e ele) a mesma coisa. Você também é uma tragédia no stop? É acho estou quase fazendo um estudo que prove que a capacidade de se ater tão bem aos pequenos detalhes é inversamente proporcional à capacidade de pensar aleatoriamente.
March 29th, 2006 at 08:20:45
Eu só vou me considerar bom no stop quando descobrir uma peça de roupa que começa com “d”.