Mon 17 Apr 2006
Uma coisa é querer fazer poesia, outra é querer ser poeta. O que leva alguém a querer ser visto como poeta? O que me leva?
Não me deixe dizer que te amo —
é mentira, menina, é mentira.
Tem quem queria ser poeta por achar que uma imagem de “cara sensível” vai ajudar a pegar mais meninas. Tem quem queira que o mundo dê valor às suas picuinhas e acredite que elas ficarão mais interessantes se versificadas. Tem também o fato de que intelectuais adoram competição: em um encontro ou workshop ou concurso de poesia sai mais pegação do que em torcidas de futebol inteiras.
E tem quem queira liberdade.
Eu saio dos caminhos, sabe? Sempre fui assim. É batata: coloque um retângulo de concreto na minha frente e lá vou eu pisando na grama, andando no barro, pulando muro, subindo árvore. Eu não brincava com os amiguinhos no recreio porque estava mais interessado em formigas. Acho que gastei meses inteiros observando o comportamento social de saúvas durante recreios. Sempre chegava atrasado na escola, porque a escola era chata e o caminho era cheio de besouros e flores e bancas de revistas.
Garoa de madrugada:
na esquina, a prostituta toma
cup noodles.
Eu saía dos caminhos. Eu andava no meio-fio, cantava na rua, passeava por aí com o gi do caratê. Os adultos me diziam: vá pela calçada, ande em linha reta, olhe sempre pra frente de cabeça erguida, vista roupas aceitáveis pela moderna civilização católica não praticante. Eu-criança já sabia o quanto tudo isso era estúpido, mas dez anos se passaram e eis que eu ando em linha reta, olho para frente e só visto meu quimono em ambientes apropriados. Esses dias quis cantar na rua e por qualquer razão não cantei, e percebi que não era livre.
Peraí, pára tudo, o que aconteceu exatamente? Quem me forçou a ser pacato e previsível? Desde quando meus amigos me reprimem — há quantos anos eu tenho que me esconder das pessoas que teoricamente me amam, sob o risco de ser emocionalmente castrado? Quem são os unforgivens que tiraram minha liberdade de mim?
Sim, eu me acho,
porque sei me perder.
O filme Mindwalk, lançado no Brasil como “O ponto de mutação” para lucrar com a popularidade do livro de mesmo título, consiste em uma longa conversa fictícia entre Al Gore, um poeta e uma física. Al Gore e o poeta são totalmente desinteressantes; o Al é um pamonha e o poeta é uma maquininha de entusiasmo falso e citações baratas. Porém, em um único momento o poeta toma uma atitude legal, e é quando os três vão para uma praia. Nosso enciclopédico escritor, calado, abandona os outros e vai caminhar sozinho. O político desculpa o amigo assim: ele pode, ele é poeta…
Bingo. Eu quero ser poeta (ou artista, ou excêntrico, intelligentsia, o que seja) porque eu quero poder também abandonar os amigos sem aviso e ir andar sozinho na praia. O que é o motivo errado, lógico, devemos ser poetas para fazer poesia e não pose.
“Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo” — Drummond
Mas, alas, eu não estou reinvindicando um direito que já tenho? Não é como se tivesse alguém com um revólver na minha nuca ditando como devo me comportar. A essa altura o leitor provavelmente estará pensando “ora pombas, seja você mesmo e não se importe com o que os outros pensam”, conselho bastante racional que a Xuxa já me dava quando eu tinha três anos. De um jeito ou de outro é a única alternativa possível, já que a outra está condenada ao fracasso. Como diz o ditado, é impossível agradar a todos (∃ a ∈ Atributos_pessoais, ∃ p ∈ Pessoas | desagrada(a, p)) e, pior ainda, é impossível agradar uma única pessoa em tudo (∀ p ∈ Pessoas, ∃ a ∈ Atributos_pessoais | desagrada(a,p)). Mas falar é fácil, falar é fácil. Meu grande problema psicológico é: como não se importar com o que os outros pensam?
April 17th, 2006 at 15:07:38
ser poeta não é uma ambição minha. é a minha maneira de estar sozinho.
né.
porque é claro que você escreve pros outros. escreve porque tem quem leia, escreve poesia porque tem quem prefira ler poesia. enfim. MAS. escrever é materializar a incompreensão. por causa da história toda sobre (des)agradar & significar. ou coisa que o valha.
April 19th, 2006 at 10:40:06
Penso que o importar-se com o olhar do outro é como uma herança cultural, não há como se desvencilhar disso, uma vez que vivemos inseridos em uma espécie de canibalismo social. Por outro lado, o prazer que se obtém nos raros momentos de “sentimento de liberdade” são indescritíveis. Sim, apenas sentimento de liberdade, e não a liberdade em sí. Acho que não temos idéia do que ela é na realidade,pois o nosso eu se dá através do olhar do outro.
April 19th, 2006 at 14:59:59
Ser poeta é minha maneira de estar sozinho sem que ninguém fique enchendo o saco caramba? Se for assim, um ponto a mais para minha teoria de que poesia tem muito a ver com programação.
Diferenciar sentimento de liberdade de liberdade “de verdade” é metafísica. Eu quero é me sentir livre, e não estou nem aí se a liberdade é uma ilusão ou não.