De minhas anotações pessoais.

Exercício: Resuma em uma frase a causa de sua alienação.
R: Eu me importo com beleza.

O problema todo está descrito aí. No meu mundo, beleza manda. Se essa rua, se essa rua fosse minha… ela seria, antes de mais nada, bonita. Podia ser cara, estreita, bagunçada, violenta, corrompida, o diabo, mas seria bonita. Os carros seriam proibidos, não por serem a principal causa de morte evitável, mas porque são barulhentos e fedidos. Por que eu não consegui trabalhar em empresa? Porque não me deixavam criar coisas bonitas — o cliente, o patrão, o prazo, todos pressionavam por algo que funcione, e agora. Por que cerimônia do chá? Nas palavras de um japonês, “é uma desculpa para ser meticuloso”. Por que não sou um liberal? Porque me parece que o modelo de mercado livre puro prenderia a humanidade no utilitarismo. Eu estava prestes a dizer que sacrificaria fama e fortuna por razões estéticas, mas me toquei que já fiz isso.

As pessoas parecem tratar beleza como um adicional — firula, decoração, estilo. Beleza de verdade vem de elegância estrutural. Infelizmente criar coisas realmente bonitas, ou seja, que resolvam problemas da melhor maneira possível, é uma atividade muito difícil mas aparentemente fácil, e portanto pouco popular.

Culpo a feiúra da cidade, por exemplo, na insistência em ideais estéticos gregos falidos. Pra qualquer lugar que você olhe só dá linha reta, polígonos regulares, sólidos platônicos, ângulos retos, círculos perfeitos, cores fortes e brilhantes. Plástico, metal e concreto: o desejo de eternidade. Só que esse ideal todo não toca a realidade em ponto algum. As cores desbotam, as linhas entortam, os tijolos racham, o redondinho do caixa do Itaú quebra e junta aranhas e o laranjão fica empoeirado nos cantos. A solução, claro, é wabi. Construa o caixa automático com formas orgânicas, cores naturais, materiais irregulares, e ele ficará mais charmoso ao envelhecer, ao invés de feio. Abrace a impermanência das coisas. Mas o que é discreto não vende, e vivemos na era dos mercadores…

Aparentemente todo mundo vive numa boa com todo esse platonismo incompetente. Eu não. Será que sou sensível demais?

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