Márcia olhando para a placa do Caminho do Itupava

A primeira edição do projeto Nerds no Mato foi um sucesso. Em 30 de abril e primeiro de maio, eu e a Márcia completamos o Caminho do Itupava: cerca de vinte e cinco quilômetros no coração da serra.

Sábado

Tínhamos passado a semana anterior juntando as tralhas todas. Como era nossa primeira aventura a sério decidimos fazer algo simples, e a idéia inicial foi descer a estrada da Graciosa. Mas ela encontrou uma página muito informativa sobre o Itupava, com um dado crucial: camping monitorado — gratuito — no final da trilha. Eu estava decidido a passar a noite no mato, mas nos últimos tempos os caminhos históricos estão sendo atacados com freqüência por assaltantes, e acampando em um lugar apropriado poderíamos ficar mais tranqüilos.

Infelizmente ninguém mais quis vir, então fomos só nós dois.

Domingo, Oito e cinco

Lagartinha vermelha em teia

Embarcamos no Curitiba/Quatro Barras (via Graciosa) por R$1.80, economizando cinco centavos com um sujeito que vendia passes insistentemente. O ônibus estava abarrotado de pessoas que no caminho descobriríamos ser fiéis de grupos religiosos e que foram parando em igrejas remotas. Perdemos o das sete, o que atrasou um pouco a caminhada.

Uma vez no terminal Quatro Barras, quase todos embarcando no alimentador Borda do Campo eram alpinistas ou campistas. Ficamos aliviados, pois seria mais fácil encontrar o começo da trilha.

Quase Dez

Teia de aranha no bambuzal

Uma baita placa avisava que o caminho está interditado para revitalização, mas os nativos nos encorajaram a continuar. Seguimos a direção geral do povo mas entramos no lugar errado, as bifurcações eram muitas e acabamos numa pedreira. Lá estava um tiozinho, seu Antônio, quebrando pedras em plena véspera de primeiro de maio. Pedimos informações e ele, simpático, parou o serviço para nos levar por um atalho até o Itupava, a fim de evitar que fizéssemos o caminho de volta. A cadela que o acompanhava, Xuxa, conhecia a trilha e parecia muito feliz de nos guiar pelo mato. No caminho passamos pelos primeiros “barraqueiros”, como os chama seu Antônio, que evitou cuidadosamente passar por perto. Fico imaginando o porquê.

Dez e tantos

Córrego na entrada do Itupava

Entramos no Itupava, enfim, e tirei a primeira foto do dia. A mochila da Márcia, na verdade minha mochila para notebook que comprei em Manaus, não tem barrigueira; improvisei uma amarrando duas faixas e logo ela, como eu, acostumou-se com o peso. As dicas que encontrei na Internet todas valeram: granola e banana pra comer enquanto andamos, um doce pelas calorias instantâneas (levamos mocotó, que também é fonte de proteínas), óculos escuros e chapéu, tudo funcionou muito bem.

Onze

Paisagem no Itupava

Paramos para descansar um pouco depois de subir um morro e notei que, pela primeira vez em nem sei quanto tempo, eu gosto de minha voz. Suponho que não são só os passarinhos que cantam mais estridente com os 65 decibéis constantes da cidade. Silêncio. Silêncio abençoado.

Meio-dia

Besouro vermelho

Escorregamos bastante na Trilha do Sabão, mas não tanto quanto o grupo animado (e chapado) que vinha atrás de nós. Deixamos que eles passassem; não tínhamos pressa. Quando saímos da mata o sol estava forte demais para caminhar, mas logo a folhagem nos cobriu novamente e chegamos ao rio indicado no mapa. A trilha parecia acabar ali e não sabíamos o que fazer. Enquanto vasculhávamos os arredores, apareceu na outra margem um grupo de senhoras idosas calçando havaianas. Perguntamos e de fato o caminho seguia pelo outro lado.

Leonardo Boiko no sol do Itupava

Paramos para esquentar o almoço perto do rio, aproveitando a fonte de água. Descobri rapidamente que os mosquitos também apreciam muito essa conveniência. Alguns sanduíches de queijo e patê no pão sírio, dois Miojos e muitas picadas depois, ficamos prontos para continuar.

Catorze horas

Depois das ruínas da Casa do Ipiranga fica a entrada mais elusiva da trilha, mas justamente por ser tão infame não tivemos dificuldades em encontrá-la. Tínhamos chegamos na parte mais difícil do Itupava. Andamos. E andamos. E andamos. Primeiro devagar, que estávamos passeando. Mas a luz do dia começa a diminuir e fomos apertando o passo. Seguindo o manual, quem está no passo mais lento vai em frente para não forçar o grupo, e às vezes ia eu, às vezes ela. Parei para fotografar a cachoeira e quando voltei ela tinha levado um tombo, do nada, perdendo os óculos e molhando as calças, além de ficar com a moral balançada. Durante o resto da viagem ela lamentaria não ter trazido roupas extras.

Andamos, andamos, andamos, a trilha parecia não ter fim, a sinalização era mínima e começamos a imaginar se não havíamos tomado o caminho errado — mas toda trilha tem que dar em algum lugar, e eu queria chegar antes que fosse tarde demais. Várias vezes avistamos os trilhos do trem, às vezes até o próprio trem, e em cada vez nossa esperança de ter chegado ao final avivava-se e frustrava-se.

Leonardo Boiko e Márcia no Caminho do Itupava

Dezessete e trinta

Escadas inusáveis no Caminho do Itupava

O sol já estava atrás dos montes quando achei uma clareira em pedra própria para acampar, mas queríamos chegar no camping. Andamos mais um pouco e nos deparamos com um declive agudo. Havia uma espécie de escada metálica fixa na pedra, mas as bases cederam e ela estava cercada de avisos de perigo. Descemos a pé (e à mão). Finalmente, os trilhos! Santuário de Nossa Senhora do Cadeado. Tínhamos terminado o segundo trecho do Itupava. Descansamos, comemos, eu tirei fotos (já com pouca luz) do trem passando.

Trem passando no Santuário do Cadeado

Opções: se aventurar a fazer o terceiro e último trecho no escuro, ou acampar no Cadeado mesmo. Nos entreolhamos, sabendo de antemão que o pique estava alto demais para parar. Seguimos no escuro.

Pôr-do-sol no Santuário do Cadeado

As lanterninhas da Casa China funcionaram bem, o terreno era fácil e esta seção da trilha estava bem sinalizada. Encontramos campistas, pedimos informações, atravessamos um rio ao lado de uma ponte de madeira em construção (com os mesmos avisos de perigo da escada de antes). Eu daria um beijo na boca de quem quer que seja que amarrou várias fitinhas indicando o caminho correto.

Dezenove

Terminamos o Itupava e… chegamos em uma estrada de terra. Cadê o acampamento? Me amaldiçoei ao perceber que tinha prestado pouca atenção sobre o final da trilha. Lembrei que o camping tinha algo a ver com a Estação Engenheiro Lange, estudei o mapinha por um tempo e concluí que a estação ficava subindo a estrada, à direita (droga de mapa turístico sem legenda). Por sorte, encontramos gente no caminho e eles confirmaram. A Márcia está cansada.

Vinte

Engenheiro Lange e nada de acampamento. Batemos na porta dos moradores da estação e eles nos deram várias instruções sobre como chegar lá. “Lá” aparentemente é a estação Marumbi, não a Lange. Os moradores garantiram que estávamos perto.

Parecia fácil, era só seguir a estradinha de tijolos brancos que está sendo construída no braço por um morador altruísta. A estradinha termina ao cruzar novamente com os trilhos, e daí era… por onde mesmo? Está escuro, os trilhos são colados no paredão do morro, o trem mal deixa espaço para nos movimentarmos. Encontramos um caminho calçado em pedra do outro lado, mas Márcia achava que as instruções não diziam para cruzar os trilhos. A trilha subia o morro, e ela estava cansada. Decidi subir sozinho para investigar e, na atitude mais estúpida do dia, esqueci de deixar a barraca e mochila com ela. Pretendia andar até a subida acabar, mas calculei (corretamente) que ela deveria estar assustada por ficar sozinha no escuro e fui correndo com o equipamento nas costas. Depois da subida o caminho continuava, passando por um rio. Concluí que não devia ser por ali. Voltei o mais rápido que pude, e agora também estava no meu limite. Retornamos à estradinha mágica. Desdobrei o mapa desajeitadamente, irritado. Lembrei das instruções de orientação, alinhei as posições e decidi que a Marumbi precisa necessariamente estar na direção da bendita subida. Ela insistia que não era para cruzarmos os trilhos. Arrastei-a pelo caminho assim mesmo e, num evento absolutamente improvável àquela hora da noite, encontramos gente descendo. Pedi informações e sim, a Estação Marumbi era subindo por ali mesmo, logo depois do rio.

Vinte e trinta

— São só vocês dois?
— Sim.
— Vão fazer o quê amanhã?
— Não temos planos, pra ser sincero. Nossa idéia era atravessar o Itupava…
— Ah, entendi. Legal. Se vocês forem subir em algum lugar amanhã precisam registrar o roteiro aqui antes, ok?
— Tá.
— Só por curiosade, quando vocês saíram?
— Acho que uma dez da manhã…
— Uau, então levaram tempo. (Pausa) Dez horas e meia de caminhada! Normalmente o pessoal leva umas seis…
— É que nós nos perdemos um pouco… é nossa primeira vez, sabe.
— Arrã. Vocês se perderam onde?
— Um pouco logo na entrada, e também depois de sair da trilha, na estrada de terra. Demoramos para achar aqui…
— Ah, mas então vocês fizeram a trilha certinho, pela estrada? Não vieram pelos trilhos?
— Isso, passamos pela estrada e pela Engenheiro Lange.
— Tá certo. Tem muita gente que corta caminho pelos trilhos, mas é um risco de vida.
Ele parecia satisfeito. Eu não sou louco de ir pelos trilhos. É risco de vida inútil a cada ponte e túnel, sem falar nos fiscais. Ele prosseguiu perguntando sobre nossos planos e equipamento:
— Vocês têm lanterna?
— Sim.
— Quantas?
— Duas, respondemos ao mesmo tempo.
— Casal esperto.

Fomos devidamente registrados e finalmente vimos o camping. Enquanto andávamos caiu a ficha do que o guarda estava perguntando sobre roteiros: a Estação Marumbi não é um ponto de chegada, é de partida. Partida pra onde? Perguntei: o que o pessoal costuma fazer por aqui?

O guarda apontou silenciosamente para cima, onde, contra estrelas e poluição luminosa da cidade, via-se o contorno negro do Monte Olimpo. Imponente. Desafiador. Pedindo para ser escalado.

Durante o caminho a Márcia estava ansiosa pelo chuveiro quente do acampamento, mas alguém tinha roubado os cabos de eletricidade. Sinceramente, não estávamos nem aí. Dormimos nosso melhor sono do ano.

Acampamento da Estação Marumbi à noite

Segunda, primeiro de maio

Botas de caminhada, com um rasgo

O trem para Curitiba só passa às dezesseis horas. Estávamos quebrados. Passamos o dia morgando, sem fazer absolutamente nada, e muito felizes com a aventura do dia anterior. Fizemos o balanço: os efeitos do exercício físico eram visíveis, e eu me sentia mais seguro e tranqüilo. Tudo o que pesquisei na Internet e tudo o que compramos foi útil. As botinhas de R$150 valeram o investimento, mas a minha já precisaria de um remendo.

Miojão no fogareiro

Estudamos as trilhas e atrativos da região nos panfletos e placas (eles têm até uma maquete 3D com os caminhos desenhados), passeamos por aí, preparamos miojo e chá verde no fogareiro. Decidimos fazer o Itupava novamente no próximo feriado, mas dessa vez continuar e subir o Olimpo.

Dezesseis e cinco

Chocolate do Serra Verde Express

O trem era meio salgadinho a R$15 mas valeu a pena. A viagem é bacana, pena que a escuridão e neblina impediram fotos da paisagem. A América Latina LogísticaSerra Verde Express estava comemorando nove anos de concessão e ganhamos um chocolatinho.

Serra Verde Express voltando na neblina

Dezenove em ponto

Desembarcamos na rodoviária.

— Eu quero comer alguma coisa coisa de cidade, disse ela. Uma coxinha, algo assim.
— Um buffet quente agora ia bem.

Pensei um pouco e acrescentei meio brincando:

— Eu tinha moral de ir assim mesmo no Nakaba.
— Você tem? Eu tenho.
— Vamos?
— Vamos.

Fomos. Na hora pareceu uma loucura, mas pensando agora foi uma atitude compreensível: comida japonesa é leve e balanceada, servindo para repor qualquer nutriente que tivesse faltado durante o acampamento. Além disso, um restaurante japonês é precisamente o tipo de prazer carnal que a cidade pode oferecer e o campo não. Eu estava há dois dias sem tomar banho ou usar desodorante, vestindo a camiseta suada que tinha me acompanhado por vinte e cinco quilômetros, carregando as tralhas nas costas, mais do que nunca era o próprio Bárbaro do Ocidente. Por coincidência o Nakaba estava com garçons novos que não nos conheciam, e nos divertimos com a reação deles.

Estávamos felizes, eufóricos até. Tive vontade de me bater por não ter feito isso antes. O Nerds no Mato vai continuar, com pelo menos um roteiro por mês (nota posterior: ou assim pensávamos antes dela engravidar), e os morros da Área de Interesse Turístico Marumbi que nos aguardem.

Leonardo Boiko na Estação Marumbi

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