Fri 5 May 2006

A primeira edição do projeto Nerds no Mato foi um sucesso. Em 30 de abril e primeiro de maio, eu e a Márcia completamos o Caminho do Itupava: cerca de vinte e cinco quilômetros no coração da serra.
Sábado
Tínhamos passado a semana anterior juntando as tralhas todas. Como era nossa primeira aventura a sério decidimos fazer algo simples, e a idéia inicial foi descer a estrada da Graciosa. Mas ela encontrou uma página muito informativa sobre o Itupava, com um dado crucial: camping monitorado — gratuito — no final da trilha. Eu estava decidido a passar a noite no mato, mas nos últimos tempos os caminhos históricos estão sendo atacados com freqüência por assaltantes, e acampando em um lugar apropriado poderíamos ficar mais tranqüilos.
Infelizmente ninguém mais quis vir, então fomos só nós dois.
Domingo, Oito e cinco

Embarcamos no Curitiba/Quatro Barras (via Graciosa) por R$1.80, economizando cinco centavos com um sujeito que vendia passes insistentemente. O ônibus estava abarrotado de pessoas que no caminho descobriríamos ser fiéis de grupos religiosos e que foram parando em igrejas remotas. Perdemos o das sete, o que atrasou um pouco a caminhada.
Uma vez no terminal Quatro Barras, quase todos embarcando no alimentador Borda do Campo eram alpinistas ou campistas. Ficamos aliviados, pois seria mais fácil encontrar o começo da trilha.
Quase Dez

Uma baita placa avisava que o caminho está interditado para revitalização, mas os nativos nos encorajaram a continuar. Seguimos a direção geral do povo mas entramos no lugar errado, as bifurcações eram muitas e acabamos numa pedreira. Lá estava um tiozinho, seu Antônio, quebrando pedras em plena véspera de primeiro de maio. Pedimos informações e ele, simpático, parou o serviço para nos levar por um atalho até o Itupava, a fim de evitar que fizéssemos o caminho de volta. A cadela que o acompanhava, Xuxa, conhecia a trilha e parecia muito feliz de nos guiar pelo mato. No caminho passamos pelos primeiros “barraqueiros”, como os chama seu Antônio, que evitou cuidadosamente passar por perto. Fico imaginando o porquê.
Dez e tantos

Entramos no Itupava, enfim, e tirei a primeira foto do dia. A mochila da Márcia, na verdade minha mochila para notebook que comprei em Manaus, não tem barrigueira; improvisei uma amarrando duas faixas e logo ela, como eu, acostumou-se com o peso. As dicas que encontrei na Internet todas valeram: granola e banana pra comer enquanto andamos, um doce pelas calorias instantâneas (levamos mocotó, que também é fonte de proteínas), óculos escuros e chapéu, tudo funcionou muito bem.
Onze

Paramos para descansar um pouco depois de subir um morro e notei que, pela primeira vez em nem sei quanto tempo, eu gosto de minha voz. Suponho que não são só os passarinhos que cantam mais estridente com os 65 decibéis constantes da cidade. Silêncio. Silêncio abençoado.
Meio-dia

Escorregamos bastante na Trilha do Sabão, mas não tanto quanto o grupo animado (e chapado) que vinha atrás de nós. Deixamos que eles passassem; não tínhamos pressa. Quando saímos da mata o sol estava forte demais para caminhar, mas logo a folhagem nos cobriu novamente e chegamos ao rio indicado no mapa. A trilha parecia acabar ali e não sabíamos o que fazer. Enquanto vasculhávamos os arredores, apareceu na outra margem um grupo de senhoras idosas calçando havaianas. Perguntamos e de fato o caminho seguia pelo outro lado.

Paramos para esquentar o almoço perto do rio, aproveitando a fonte de água. Descobri rapidamente que os mosquitos também apreciam muito essa conveniência. Alguns sanduíches de queijo e patê no pão sírio, dois Miojos e muitas picadas depois, ficamos prontos para continuar.
Catorze horas
Depois das ruínas da Casa do Ipiranga fica a entrada mais elusiva da trilha, mas justamente por ser tão infame não tivemos dificuldades em encontrá-la. Tínhamos chegamos na parte mais difícil do Itupava. Andamos. E andamos. E andamos. Primeiro devagar, que estávamos passeando. Mas a luz do dia começa a diminuir e fomos apertando o passo. Seguindo o manual, quem está no passo mais lento vai em frente para não forçar o grupo, e às vezes ia eu, às vezes ela. Parei para fotografar a cachoeira e quando voltei ela tinha levado um tombo, do nada, perdendo os óculos e molhando as calças, além de ficar com a moral balançada. Durante o resto da viagem ela lamentaria não ter trazido roupas extras.
Andamos, andamos, andamos, a trilha parecia não ter fim, a sinalização era mínima e começamos a imaginar se não havíamos tomado o caminho errado — mas toda trilha tem que dar em algum lugar, e eu queria chegar lá antes que fosse tarde demais. Várias vezes avistamos os trilhos do trem, às vezes até o próprio trem, e em cada vez nossa esperança de ter chegado ao final avivava-se e frustrava-se.

Dezessete e trinta

O sol já estava atrás dos montes quando achei uma clareira em pedra própria para acampar, mas queríamos chegar no camping. Andamos mais um pouco e nos deparamos com um declive agudo. Havia uma espécie de escada metálica fixa na pedra, mas as bases cederam e ela estava cercada de avisos de perigo. Descemos a pé (e à mão). Finalmente, os trilhos! Santuário de Nossa Senhora do Cadeado. Tínhamos terminado o segundo trecho do Itupava. Descansamos, comemos, eu tirei fotos (já com pouca luz) do trem passando.

Opções: se aventurar a fazer o terceiro e último trecho no escuro, ou acampar no Cadeado mesmo. Nos entreolhamos, sabendo de antemão que o pique estava alto demais para parar. Seguimos no escuro.

As lanterninhas da Casa China funcionaram bem, o terreno era fácil e esta seção da trilha estava bem sinalizada. Encontramos campistas, pedimos informações, atravessamos um rio ao lado de uma ponte de madeira em construção (com os mesmos avisos de perigo da escada de antes). Eu daria um beijo na boca de quem quer que seja que amarrou várias fitinhas indicando o caminho correto.
Dezenove
Terminamos o Itupava e… chegamos em uma estrada de terra. Cadê o acampamento? Me amaldiçoei ao perceber que tinha prestado pouca atenção sobre o final da trilha. Lembrei que o camping tinha algo a ver com a Estação Engenheiro Lange, estudei o mapinha por um tempo e concluí que a estação ficava subindo a estrada, à direita (droga de mapa turístico sem legenda). Por sorte, encontramos gente no caminho e eles confirmaram. A Márcia está cansada.
Vinte
Engenheiro Lange e nada de acampamento. Batemos na porta dos moradores da estação e eles nos deram várias instruções sobre como chegar lá. “Lá” aparentemente é a estação Marumbi, não a Lange. Os moradores garantiram que estávamos perto.
Parecia fácil, era só seguir a estradinha de tijolos brancos que está sendo construída no braço por um morador altruísta. A estradinha termina ao cruzar novamente com os trilhos, e daí era… por onde mesmo? Está escuro, os trilhos são colados no paredão do morro, o trem mal deixa espaço para nos movimentarmos. Encontramos um caminho calçado em pedra do outro lado, mas Márcia achava que as instruções não diziam para cruzar os trilhos. A trilha subia o morro, e ela estava cansada. Decidi subir sozinho para investigar e, na atitude mais estúpida do dia, esqueci de deixar a barraca e mochila com ela. Pretendia andar até a subida acabar, mas calculei (corretamente) que ela deveria estar assustada por ficar sozinha no escuro e fui correndo com o equipamento nas costas. Depois da subida o caminho continuava, passando por um rio. Concluí que não devia ser por ali. Voltei o mais rápido que pude, e agora também estava no meu limite. Retornamos à estradinha mágica. Desdobrei o mapa desajeitadamente, irritado. Lembrei das instruções de orientação, alinhei as posições e decidi que a Marumbi precisa necessariamente estar na direção da bendita subida. Ela insistia que não era para cruzarmos os trilhos. Arrastei-a pelo caminho assim mesmo e, num evento absolutamente improvável àquela hora da noite, encontramos gente descendo. Pedi informações e sim, a Estação Marumbi era subindo por ali mesmo, logo depois do rio.
Vinte e trinta
— São só vocês dois?
— Sim.
— Vão fazer o quê amanhã?
— Não temos planos, pra ser sincero. Nossa idéia era atravessar o Itupava…
— Ah, entendi. Legal. Se vocês forem subir em algum lugar amanhã precisam registrar o roteiro aqui antes, ok?
— Tá.
— Só por curiosade, quando vocês saíram?
— Acho que uma dez da manhã…
— Uau, então levaram tempo. (Pausa) Dez horas e meia de caminhada! Normalmente o pessoal leva umas seis…
— É que nós nos perdemos um pouco… é nossa primeira vez, sabe.
— Arrã. Vocês se perderam onde?
— Um pouco logo na entrada, e também depois de sair da trilha, na estrada de terra. Demoramos para achar aqui…
— Ah, mas então vocês fizeram a trilha certinho, pela estrada? Não vieram pelos trilhos?
— Isso, passamos pela estrada e pela Engenheiro Lange.
— Tá certo. Tem muita gente que corta caminho pelos trilhos, mas é um risco de vida.
Ele parecia satisfeito. Eu não sou louco de ir pelos trilhos. É risco de vida inútil a cada ponte e túnel, sem falar nos fiscais. Ele prosseguiu perguntando sobre nossos planos e equipamento:
— Vocês têm lanterna?
— Sim.
— Quantas?
— Duas, respondemos ao mesmo tempo.
— Casal esperto.
Fomos devidamente registrados e finalmente vimos o camping. Enquanto andávamos caiu a ficha do que o guarda estava perguntando sobre roteiros: a Estação Marumbi não é um ponto de chegada, é de partida. Partida pra onde? Perguntei: o que o pessoal costuma fazer por aqui?
O guarda apontou silenciosamente para cima, onde, contra estrelas e poluição luminosa da cidade, via-se o contorno negro do Monte Olimpo. Imponente. Desafiador. Pedindo para ser escalado.
Durante o caminho a Márcia estava ansiosa pelo chuveiro quente do acampamento, mas alguém tinha roubado os cabos de eletricidade. Sinceramente, não estávamos nem aí. Dormimos nosso melhor sono do ano.

Segunda, primeiro de maio

O trem para Curitiba só passa às dezesseis horas. Estávamos quebrados. Passamos o dia morgando, sem fazer absolutamente nada, e muito felizes com a aventura do dia anterior. Fizemos o balanço: os efeitos do exercício físico eram visíveis, e eu me sentia mais seguro e tranqüilo. Tudo o que pesquisei na Internet e tudo o que compramos foi útil. As botinhas de R$150 valeram o investimento, mas a minha já precisaria de um remendo.

Estudamos as trilhas e atrativos da região nos panfletos e placas (eles têm até uma maquete 3D com os caminhos desenhados), passeamos por aí, preparamos miojo e chá verde no fogareiro. Decidimos fazer o Itupava novamente no próximo feriado, mas dessa vez continuar e subir o Olimpo.
Dezesseis e cinco

O trem era meio salgadinho a R$15 mas valeu a pena. A viagem é bacana, pena que a escuridão e neblina impediram fotos da paisagem. A América Latina LogísticaSerra Verde Express estava comemorando nove anos de concessão e ganhamos um chocolatinho.

Dezenove em ponto
Desembarcamos na rodoviária.
— Eu quero comer alguma coisa coisa de cidade, disse ela. Uma coxinha, algo assim.
— Um buffet quente agora ia bem.
Pensei um pouco e acrescentei meio brincando:
— Eu tinha moral de ir assim mesmo no Nakaba.
— Você tem? Eu tenho.
— Vamos?
— Vamos.
Fomos. Na hora pareceu uma loucura, mas pensando agora foi uma atitude compreensível: comida japonesa é leve e balanceada, servindo para repor qualquer nutriente que tivesse faltado durante o acampamento. Além disso, um restaurante japonês é precisamente o tipo de prazer carnal que a cidade pode oferecer e o campo não. Eu estava há dois dias sem tomar banho ou usar desodorante, vestindo a camiseta suada que tinha me acompanhado por vinte e cinco quilômetros, carregando as tralhas nas costas, mais do que nunca era o próprio Bárbaro do Ocidente. Por coincidência o Nakaba estava com garçons novos que não nos conheciam, e nos divertimos com a reação deles.
Estávamos felizes, eufóricos até. Tive vontade de me bater por não ter feito isso antes. O Nerds no Mato vai continuar, com pelo menos um roteiro por mês (nota posterior: ou assim pensávamos antes dela engravidar), e os morros da Área de Interesse Turístico Marumbi que nos aguardem.

Ver todas as fotos (tamanho grande)
May 5th, 2006 at 23:13:18
meu negócio não é muito acampar, acho, mas adorei a idéia da caminhada enorme.
e as fotos ficaram lindas, adorei a última, com o céu azul babando neblina :)
May 5th, 2006 at 23:14:01
aliás, que mal lhe pergunte, cadê as minhas fotos? >:|
May 6th, 2006 at 20:51:06
…no meu coração! ducks
May 6th, 2006 at 20:53:11
mas sério, aquela foto das minhas botas é tua.
June 29th, 2006 at 18:42:09
oi, vc`s são loucos….e quem não è… eu ja fui 12 vezes, hoje eu sei o caminho mas a primera vez foi “foda” cara, não tinhamos nocão nenhuma, fomos em tres amigos… chovia muito, mas acho que foi a mais divertida e arriscada avantura que tive em minha vida, estava muito frio. Vàrias pessoas nos davam dicas mas como vc vai acreditar em algem que vc vunca viu e no meio do nada e perto de coisa alguma…..”muito legal”……….Quem sabe algum dia nos encontramos nas trilhas da vida… um abraco ( dia 08/07/2006 vai rolar a minha 13 canminhada com minha galera ) so que vamos ate Morretes.. Abraco Elvis..
July 17th, 2006 at 09:40:12
ai galera fiz pela primeira vez a trilha ,eu minha esposa .
cara foi td belza não nos perdemos.e cara eu cai 3 tombos e minha esposa 12.as pedras são muito lisas ,alguen conseguiu fazer a trilha sem levar
nem um tombo? não minta.
cara fomos rapido pois tinhamos que pegar o onibus em porto de cima .saimos as 7.30 e chegamos e morretes as 14.30 .
agora na proxima vamos mais devagar.não vejo a hora,valeu
July 17th, 2006 at 10:43:56
Eu e a Márcia não levamos nenhum tombo na parte das pedras lisas, mas quase caímos uma porção de vezes; só nos safamos por se apoiar um no outro. Ela caiu depois no rio da cachoeira, na segunda seção da trilha.
October 9th, 2006 at 11:54:09
Daí, beleza!
E o que aconteceu com os capítulos restantes da epopéia Nerds no Mato?
Falou!
October 9th, 2006 at 12:04:23
Aconteceu mais nada! Ela engravidou e está sem poder se esforçar, e eu estou no último semestre da faculdade e sem tempo pra nada… mas nós ainda temos planos! Um dia saem mais episódios…
November 8th, 2006 at 10:35:08
Fantástico o relato… Só um “senão”: Quem fez aniversário de 9 anos de concessão foi a Serra Verde Express, e não a ALL. A serra Verde Express é quem faz o transporte de passageiros. A ALL só mexe com as cargas. E o chocolatinho é bom, não é?
December 6th, 2006 at 16:10:15
Dae velho,
pô… parabens pela iniciativa!!! normalemnte as pessoas tem medo do que não conhecem e deixam de viver otimas histórias… apesar de ir sozinho para um lugar desconhecido não seja o mais aconselhavel… ainda bem que deu tudo certo!!! Sou estudante de geografia e fazem 4 anos que caminho por todos os cantos da Serra e tem muita coisa boa pra conhecer… espero que voces possam estar logo na ativa!!!
abraços
December 12th, 2006 at 17:56:58
TRILHA DO ITUPAVA
O Caminho do Itupava é uma trilha histórica aberta para ligar Curitiba a Morretes no Paraná entre 1625 e 1654 por índios e mineradores e calçado com pedras por escravos. Durante mais de três séculos os caminhos coloniais foram a única passagem da costa para o planalto, dando posteriormente origem às rodovias e ferrovia, que possibilitaram o desenvolvimento do Estado do Paraná. O Itupava é um caminho de belezas naturais e históricas, cruzando rios, cercado de vales verdes e montanhas. Deu origem ao traçado da estrada de ferro.
O dia 29/11/2006 será um daqueles dias inesquecíveis marcado pelo cansaço e pela beleza da floresta tropical paranaense a qual eu Jeovane-46, Marcelo-40 e Júlio-57 tivemos o privilégio de desfrutar apesar da chuva e o mau tempo que enfrentamos na segunda etapa do percurso da TRILHA DO ITUPAVA…
Chegando em Quatro Barras às 08:20h apanhamos outro ônibus “Alimentador” para o início da trilha, chegando lá encontramos uma placa junto ao ponto final do ônibus que nos deu a certeza de que estávamos no caminho e lugar certo.
Às 08:45h quando seguimos em direção ao início da trilha nos deparamos com uma pedreira onde alguns operários trabalhavam, perguntamos a eles se aquele era o caminho certo e para onde deveríamos seguir, um deles nos disse que não, e que deveríamos voltar cerca de 2 Km e pedir informações aos moradores locais.
Entrada da pedreira.
Voltamos e perguntamos a uma senhora que nos informou que a entrada da trilha era exatamente ali em frente à casa dela. Ali não existia nenhuma sinalização e mal dava para perceber que era o inicio de uma trilha. Enfim seguimos atendo a mais algumas dicas que aquela senhora havia nos dado. Chegamos então em uma bela cachoeira onde tiramos fotos e contemplamos a beleza da queda, mal sabíamos nós que iríamos nos deparar com vária quedas d’água ainda bem mais imponente que aquela.
Bem…logo percebemos que a trilha aparentemente terminara ali naquela cachoeira, então após procurar novamente o fio da meada, nos deparamos com uma trilha que se iniciava à esquerda da cachoeira à alguns metros antes dela, seguimos animados com a certeza que estávamos certos, porém depois de alguns cansativos kilometros chegamos em uma estrada a qual já nos era familiar, adivinhem onde estávamos!?…Foi difícil de acreditar, mas estávamos de volta na bendita pedreira do começo da caminhada. Confirmou-se a teoria de que o individuo perdido tende a andar em círculos. O Júlio chegou a se esconder de vergonha dos operários. Lá vamos nós de novo voltar até a cachoeira e procurar o caminho certo. Foi quando às 10:30h enxergamos uma fita plástica amarrada em uma árvore sinalizando o início da trilha. “Sabíamos da existência dessa fita graças a um relato de outro aventureiro na internet”
Agora sim, no caminho certo oficialmente à partir das 10:30h.
Nessa primeira fase da trilha fomos agraciados por tempo bom onde pudemos apreciar e tirar várias fotos durante o percurso.
Mas como na vida nem tudo são flores encontramos também alguns habitantes naturais da região que vieram nos dar boas vindas…
…como essa aranha viúva negra…
…e essa cobra jararaca que se confundia com a coloração da rocha.
Seguimos a trilha e constatamos a restauração da mesma conforme fora veiculado na imprensa a alguns meses atrás. Várias pontes foram construídas ou restauradas, porém a sinalização está deficitária devido a depredação de vândalos. “Seguimos abençoando a pessoa que amarrou as fitas durante o percurso”.
Travessia sobre uma área de mangue.
Ponte próximo ao final da 1ª fase da trilha, + ou – 8 Km do início da trilha.
Às 13:30h chegamos na roda d’água…Uma usina abandonada que utilizava a linda cascata no curso do rio Ipiranga. Um lugar que apesar da beleza natural parece ser um pouco inóspede à julgar pelos rastros de depredação causado pelo lixo deixado por indivíduos que ali acampam e pouco se preocupam com a preservação do meio ambiente. “Garrafas/latas de bebidas alcoólicas, latas de cola de sapateiro, lonas de plásticos etc.” Fizemos a travessia do leito do rio por uma ponte de trilhos de ferro sem corrimão, mas com a mão de Deus.
Logo após a travessia chegamos a linha do trem.
“Quando saímos de casa prometemos as nossas esposas que iríamos andar na linha durante o passeio… Não sei por que o Júlio não conseguia… manter o equilíbrio”
O mapa referência que tínhamos “Com poucos detalhes” mostrava que deveríamos cruzar a linha e seguir em frente, mas como do outro lado não havia nenhuma continuação da trilha, resolvemos seguir sobre os trilhos para o lado direito, não obtendo sucesso retornamos para o sentido oposto. Chegamos então nas ruínas da CASA DO IPIRANGA e encontramos a continuação da trilha.
Casa do Ipiranga em ruínas
Estava começando ali a difícil e cansativa segunda fase do percurso, foi quando o tempo fechou e a água caiu do céu se afunilando nas encostas dos morros e escoando principalmente pela trilha a qual não poderíamos abandonar, foi aí que o desânimo tomou conta de todos somando-se ao cansaço, dores e câimbras, mas só tínhamos duas opções: continuar ou continuar, naquela hora gostaria de ser um barquinho de papel.
E quando as poucas palavras já estavam saindo pela metade, chegamos ao santuário de Nossa Senhora do Cadeado onde a dimensão do cansaço está documentada aqui pela ausência de fotos. Encerrava-se ali a segunda fase da trilha e além do mau tempo o relógio também passou a ser nosso inimigo, pois já eram 16:00h e tínhamos a terceira e última fase do percurso, tentamos apelar para o telefone celular na intenção de conseguir informações de horário do trem, porém estávamos fora da área de serviço da operadora de celular, foi quando ouvimos alguma coisa se aproximando pelos trilhos…Quando pudemos avistar constatamos mesmo que aquilo era realmente uma “coisa”. Se tratava de uma espécie de caminhão sobre trilhos o qual presta manutenção para a rede ferroviária, não pensamos duas vezes em esticar o dedo carona acompanhado de um semblante de clemência, que sensibilizou o motorista da “coisa”, que parou e perguntou em que podia nos ajudar, falamos que pretendíamos fazer a trilha mas em função do mau tempo gostaríamos de seguir a qualquer lugar onde pudéssemos apanhar um ônibus até Morretes ou Curitiba, então ele nos levou até a estação de “Banhados” e nos aconselhou em seguir pela linha do trem caminhando por + ou – 1 hora que encontraríamos ajuda numa vila chamada “Roça Nova”
Eis aqui o interior da cabina da coisa. “Deu até pra esboçar um sorriso”
Mas antes de chegarmos em “Banhados” Acreditem se quiser… Mas a “coisa” encalhou nos trilhos em função da roçada feita próxima a linha deixando-os escorregadios e sem aderência (Ocasionado pelo mato cortado sobre os trilhos). A “coisa” patinava e não subia, um silêncio indagador tomou conta da cabina da “coisa” naquele momento. Pensamos que iríamos ter que empurrar aquilo serra a cima, “Era só o que nos faltava!!” Mas o experiente motorista ou maquinista, como queiram chamar, retornou de ré nos trilhos e solicitou via rádio, autorização para usar o reverso “Uma espécie de desvio daquele trecho ali existente”. Após a autorização seguimos viajem e chegamos à estação de Banhados.
Antes de iniciar a caminhada pelos trilhos conforme o motorista da coisa havia nos aconselhado, encontramos um abrigo na estação de “banhados” onde trocamos as roupas molhadas e nos alimentamos com as últimas reservas alimentar que levamos, seguimos então pelos trilhos, avisados pelo motorista da coisa que teríamos de atravessar um túnel de 400 m de comprimento “O mais extenso da ferrovia Curitiba/Paranaguá”
Caminhada rumo ao túnel e a estação de Roça Nova.
Durante essa caminhada descobrimos que o motorista da “coisa” não tinha muita noção de tempo e distância quando nos disse que levaríamos de 30 a 40 minutos para chegar em Roça Nova, pois levamos 1 hora e 40 minutos, pensando bem acho que ele não tinha muita noção do nosso cansaço. A estação de Roça Nova fica logo após o túnel o qual ficamos felizes em avistá-lo sem saber o que ainda o destino nos reservava…
Entrada do túnel
Ainda na entrada do túnel 20:00h
Seguimos pelo interior do túnel com a dificuldade da luz de apenas uma lanterna e também tentando acalmar o Júlio que estava apavorado com a possibilidade da vinda do trem, seguíamos entre um tropeço aqui e outro ali sobre os dormentes quando perguntei ao Marcelo se ele estava ouvindo um barulho um tanto quanto característico, e ele disse que sim… Era justamente o que o Júlio não queria ouvir, naquela hora a última coisa que queríamos ver era uma luz no fim do túnel… E ela estava lá bem em nossa frente e vindo em nossa direção, era uma composição “trem” com mais de 100 vagões. Não sei como, mas ainda consegui tirar essa foto antes de procurar um lugar menos perigoso junto às paredes do túnel.
O farol da locomotiva a menos de 20 metros de onde estávamos.
Ficamos em uma fenda da parede do túnel Esperando o trem passar.
Foi quando a locomotiva chegou e parou na estação de Roça Nova, porém a composição ainda estava dentro do túnel proporcionando uma condição insegura para deixarmos o abrigo e sair caminhando ao lado dos vagões, mesmo assim optamos em sair caminhando, concluímos a travessia do túnel e logo em seguida chegamos na estação onde perguntamos para alguns operários da rede ferroviária, onde poderíamos apanhar um ônibus para piraquara, foi quando descobrimos que deveríamos andar + ou – 4 Km até o ponto do ônibus. Pedimos carona à um rapaz proprietário de um passat modelito 1976 dizendo que estávamos demasiadamente cansados e que pagaríamos pela corrida, o rapaz se propôs a nos levar até o destino, esperamos ele descarregar alguns objetos que levava no interior do carro para sobrar espaço para todos e foi nos apanhar do outro lado da linha do trem, quando chegou próximo o motor do “possante” começou a falhar até que apagou e não pegou mais, sentimos naquele momento que a caminhada não terminara ali ainda, agradecemos a boa vontade do moço e seguimos em frente sob a luz do luar às 20:30h, caminhamos durante mais 1 hora até chegarmos no ponto de ônibus onde seguimos para Piraquara e às 22:30h chegamos na praça Santos Andrade em Curitiba, encerrando ali aquele fadídigo porém inesquecível passeio.
“As fotos não estão abrindo aqui, posso te enviar em seu e-mail se quiser”
March 5th, 2007 at 10:58:09
Oi
Muito legal o diário de bordo de vocês, realmente empolgante. Vocês, por acaso não teriam um mapa do caminho?
Estou precisando de um enão estou conseguindo achar!!!!
Obrigado
March 6th, 2007 at 08:45:18
Obrigado, Vanderléia. Você acha um mapa na página http://www.circovoador.mus.br/caminhodoitupava.
April 1st, 2007 at 14:49:01
Ótimo relato Jeovane Cordeiro.
Acabo de fazer o caminho, eu e mais 9 amigos.
O caminho é simplesmente maravilhoso, apenas aconselho que quem quer que deseje percorrê-lo esteja muito bem fisicamente.
Iniciamos a trilha às 08:00h e às 10:00h estávamos nas ruínas da CASA DO IPIRANGA, a mais ou menos 9,5 km do início da trilha. Aí começou a “pior parte” (geograficamente falando) da caminhada !!!
Deste ponto até o Santuário Nossa Senhora do Cadeado, é um caminho muito difícil de ser percorrido.
As subidas e descidas em meio as rochas cobertas com folhas secas somado a umidade do lugar devido as cachoeiras e a pouca insolação por conta da densa folhagem da mata atlântica fazem do caminho uma aventura inesquecível. Este trecho exige muito de todos os músculos das pernas, músculos que normalmente são pouco exigidos.
Vocês tiveram sorte com a “coisa” que encontraram. Eu ainda tive que percorrer toda a última parte da trilha (sempre descendo com muito cuidado por conta das pedras escorregadias).
Não posso dizer que não fiquei maravilhado com a natureza e com o banho de rio que tomei próximo ao final da trilha. Água transparente e maravilhosamente fria !!!
Mas a minha “odisséia” não acabara ali. Ainda havia mais 7 km até Porto de Cima.
Quando resolvi me juntar ao grupo para percorrer a trilha não fazia idéia do que me esperava. Sempre que vi ou li algo sobre o Caminho do Itupava, nunca tomei conhecimento de um relato como o seu ou como o que faço agora. Não tenho informação se já houveram acidentes leves, graves ou fatais, mas o fato é: esteja preparado para desfrutar bela natureza e manter sua saúde física !!!!
Pretendo fazer o caminho novamente, mas quero estar em muito boa forma física para poder desfrutar de 100% das belezas naturais.
May 5th, 2007 at 17:35:36
lalalalalalalalalalalalalaalalalalalal
June 5th, 2007 at 14:10:18
Oi gente!
O relato foi muito bem elaborado, e vcs estão de parabéns!!! As fotos também são de uma expressão única!! sou do RS, e moro em Quatro Barras a dois anos… a Seis mêses fiz o caminho de Itupava com um amigo… saimos da Borda já eram 18 horas e quando chegamos ao Rio, muito tempo e escorregões depois, não achamos mais o caminho (ñ sabia que teria que atravessá- lo) e dormimos ali mesmo… a decisão de ir foi impulsiva, depois de uma festa e não estávamos preparados… uma lanterna (q ñ funcionava direito), sem barraca, pouca comida (somente alguns cereais em barra, bolachas e um bolinho da Nutrella (sem merchan, né)!!! Enfim, tivemos mais sorte que juízo. No outro dia, depois de atravessarmos o Rio, chegamos até a casa do ipiranga e seguimos pelos trilhos (sugestão de um pessoal que já conhecia a trilha) até o Santuário do cadeado, passando pela estação véu da noiva e pela hidrelétrica… encontramos um pessoal que nos disse que perdemos o melhor da trilha, a Roda d’água (até hoje fazemos terapia) que fica perto da casa do Ipiranga. Ao chegar ao cadeado, já perto das 11 horas da manhã, decidimos descer pela trilha do Sabão, que não nos deixou dúvidas do porquê do nome, e seguimos a pé, até morretes…é muuuiiitttooo longe!!!! Almoçamos no Restaurante da ponte e voltamos a tardinha, de ônibus. O caminho é maravilhoso, lindo e de uma natureza ainda bastante preservada. O caminho sobre os trilhos realmente é um pouco perigoso, assim como os túneis, mas é muito bonito e um tanto radical, com um panorama único… não sabiamos que tinha outra opção de caminho na época. O caminho é inesquecível e logo estarei fazendo ele novamente.
Parabéns pelo relato e pelo Bebê, que vocês tenham muita saúde, prosperidade e uma vida cheia de aventuras como essa!!!
Fiquem com Deus!!!!