Preguiça, preguiça braba. Mas ninguém vai me culpar, que nessa quinta-e-sexta todo mundo tá preguiçoso, num mormaço… Aula pela metade, advogado não trabalha, a seca deixando a gente assim meio lesado… Monitoria? E que tipo de estudante vai querer vir estudar Teoria dos Grafos assim, longe das provas, sexta à noite e com uma baita festa com rock ao vivo aqui no gramado do Politécnico?

Eu já tenho matéria pra recuperar, mas gastei o dia no Sagarana. Êita livrinho desgraçado de ruim pra botar a gente triste, com saudade lá do sertão. Com tanto livro pra ler pro vestibular por que eu fui escolher justo o Guimarães que já li pra primeiro? Ah, mas eu sei por que, é porque eu gosto dele, sim senhor. Nunca vi ninguém pra registrar a linguagem do campo assim tão direito, e o que é melhor, de jeito todo subversivo, satanista mesmo… Fora os poemas escondidinhos na prosa toda, como torrãozinho de sal na paçoca:

E, nas ilhas, penínsulas, istmos e cabos, multicrescem taboqueiras, tabúas, taquaris, taquaras, taquariúbas, taquaratingas e taquarassús. Outras imbaúbas, mui tupis. E o buritizal: renques, aléias, arruados de buritis, que avançam pelo atoleiro, frondosos, flexuosos, abanando flabelos, espontando espiques[…]

As aliteraçõezinhas:

Arre! que nunca foi tão penosa uma ida ao arraial. Também, com tudo tão triste, carreando o pai para a cova, coitado do pai…

Ou inda aquela passagem célebre descrevendo a boiada:

Galhudos, gaiolos, estrelos, espácios, combucos, cubetos, riados, corombos, cornetos, bocalvos, borralhos, chumbados, chitados, vareiros, silveiros… E os tocos da testa do môcho macheado, e as armas antigas do boi cornalão…

E vontade que me dá é de voltar pro campo, do chimarrão sem pressa nos dias morosos, do tio Licínio contando história, das menininhas bobas saindo da escola, preocupadas com seus joguinhos sociais… E subir os morros lá do Norte Pioneiro e tomar vento forte e frio…