Quando dona Hara ligou para me avisar em cima da hora que teríamos visitantes de Himeji (cidade-irmã de Curitiba no Japão) e que eu iria preparar o chá para eles, eu estava esperando o prefeito e comitiva como da outra vez.

Não estudantes colegiais fofinhas.

Elas eram duas, mais o professor-guia do intercâmbio e alguém da prefeitura. Uma das meninas estuda chá e daí veio a idéia (meio em cima da hora) de organizar uma cerimônia.

A Maki era a única com alguma experiência. Suponho que ou o estilo deles é diferente ou ela não estava acostumada a ser a convidada principal, já que não disse os ganchos certos na hora certa, mas sua etiqueta pra tomar o chá e observar os instrumentos foi perfeita. Curti muito o cartão de visitas dela no mais autêntico Engrish, com direito até a uma instância de “be belong to” como no imortal “all your base”:

I like dancing. I was belong to a dance club. I learn Japanese tea ceremony and Japanese flower arrangement.

Eu fiquei contente porque meu japonês fraquinho até quebrou o galho. Tudo bem que os visitantes entraram em modo “japonês fácil para gaijin”, mas ainda assim a língua tem aquelas pegadinhas… Considere algo aparentemente simples como responder sim e não. Na escola a gente aprende que “sim” é hai e “não”, iie. Exceto que “sim” também é un, e “não”, uun, o que confunde pacas, especialmente porque un é mais comum, mas brasileiros tendem a pensar em “não” primeiro.

De acordo com a cerimônia de chá fraco, enquanto eu lavava a tigela da Maki ela deveria dizer “pode terminar agora” (dōzo oshimai kudasai). Se o convidado não disser nada assume-se que ele deseja tomar chá novamente. Ela não disse nada, mas notando a falta de familiaridade, suspeitei que não estivesse ciente e achei melhor confirmar, perguntando se ela desejava outra tigela. Iya, kekkō desu, foi a resposta.

E agora, ela quer mais ou não? Kekkō desu significa “ótimo” ou “excelente”. Do primeiro som eu só tinha certeza que tinha um ‘a’ no meio. Se fosse pelo japonês dos livros eu teria interpretado como hai, kekkō desu* — expressão que eu nem tenho certeza se existe, mas que talvez fosse “sim, seria ótimo”. Por sorte minha exposição a japonês coloquial foi suficiente para eu já conhecer o iya, forma casual de iie.

Por essas e outras acho importante evitar japonês só de livro-texto e buscar se expor a músicas, filmes, jogos, blogs.

Depois da cerimônia teve a sessão padrão de gaijin haiken (”ele estuda isso e aquilo e aquilo outro e nem é nikkei!”), durante a qual o professor me perguntou que parte do Japão eu queria conhecer. Respondi, com bastante honestidade, Himeji, o que deixou as meninas muito contentes, até agradecendo em voz alta. É um nível de identificação que raramente se vê em nossa cultura. Ganhei (mais) um guia turístico da cidade, (mais) uma coleção de cartões-postais e um saquinho de chá, todos previamente preparados para presente. Mas a Maki pareceu ter uma idéia e perguntou se eu gostava de umeboshi. Me surpreendi com a sensibilidade da mocinha. Suponho que o raciocínio dela tenha sido “ele gosta de cultura japonesa antiga” -> “ele é tradicionalista” -> “ele gosta de umeboshi“. Respondi que sim, ela abriu a mochila e me deu um saquinho de umeboshi seco.

Overdose de fofura! My heart is belong to your cuteness, Maki-chan. Se você fosse dez anos mais velha…

Vocês fãs de animê podem morrer de inveja agora: eu estava de roupa tradicional japonesa entre japoneses fazendo a cerimônia japonesa do chá para estudantes colegiais japonesas — não cosplayers, não personagens de visual novels, mas estudantes colegiais japonesas de verdade, de saia e tudo. Melhor que isso, só quando eu descolar minha bolsa para estudar cultura japonesa em japonês numa faculdade do Japão.