Fri 18 Aug 2006
Escapismo
Posted by leoboiko under Pessoal , Chorinhos , Diário , Cultura Pop Japonesa , Jogos eletrônicosOntem aconteceu algo pra me derrubar. Não estou a fim de falar em público; envolve rejeição. Coisa pequena, mas sou sensível às coisas pequenas. Fui cumprimentar um amigo superficial e do nada ele estava distante, me cortando.
Já passei por isso e sei o que significa: ele descobriu algo sobre mim e não gostou. Talvez tenha achado alguma coisa na net, ou ouvido um boato, ou simplesmente caiu uma ficha retardatária. De qualquer forma, ele descobriu que o Boiko não era a pessoa que imaginava e agora vai se afastar rapidamente.
Amigos superficiais são perigosos para nós, gente diferente. Eles nos vêem como reflexos de si mesmos e nos tratam bem, deixando-nos mal-acostumados. Aí do nada descobrem algo e dão as costas. É muito pior do que preconceito aberto, porque você se sente traído. Deve ser por isso que tantos de meus amigos diferentes desenvolvem uma postura agressiva, misantrópica: é uma forma de filtrar fora os amigos superficiais . Nós temos que evitar os pontos intermediários da escala do orkut, devemos ter ou conhecidos ou bons amigos.
Fodam-se os amigos superficiais.
* * *
Caminho pelos campos úmidos do Politécnico à noite, os eucaliptos enormes balançando em um vento que só existe lá em cima, lá contra o céu sem estrelas, e eu indo em direção ao ônibus prateado — mas lá está o Cobrador Que Puxa Papo e não quero conversar, por isso mudo de idéia e vou até o ponto do ônibus amarelo. O ônibus prateado me leva pra casa rapidamente, e o amarelo, lentamente.
Estou tão emo que meu cabelo quase cai sozinho no olho.
Saco meu Nintendo DS e seguro o botão B ao ligá-lo, o que o força a fazer de conta que é um Gameboy e ler o conteúdo do cartucho no slot inferior. Nesse cartucho eu gravei um pequeno sistema operacional, e dentro do sistema operacional um pequeno tocador de música, e dentro do tocador de música algumas canções de uma banda japonesa de heavy metal chamada Onmyouza. A melodia fácil e poderosa do metal toma conta de meus sentimentos e a letra épica em japonês arcaico me transporta para um mundo de magia onmyou e espíritos youkai.
Eu preciso de escapismo.
Tomo uma decisão e mudo de caminho, indo para o ponto do ônibus verde. O ônibus prateado me leva até em casa rapidamente, o amarelo, lentamente. O ônibus verde me leva até o fliperama.
* * *
Durante a semana estive economizando literalmente cada real. Com o orçamento apertado, não gastei um centavo a mais do que o estritamente necessário para ir até o campus e comer no restaurante universitário. Mas agora me permito, e entrego minha única nota de cinco reais ao atendente:
— Uma?
— Duas.
Dose forte, por favor.
Sento na máquina do Guilty Gear Isuka sabendo que vou perder. Você não joga bem quando está de mal com a vida. Falta sangue-frio, competitividade. Lutando sozinho contra times de dois, eu vou chegar até a dupla do nível 70, 80 no máximo. Estou jogando pra esquecer.
Mal coloco a ficha e o Carinha Chinês aparece do meu lado. Ele está especialmente bonito hoje, usando roupas da moda estilo juventude asiática. O Carinha Chinês é, acredito, o melhor jogador de Isuka da região; ele termina o jogo sozinho umas quatro em cinco vezes que tenta. Eu não sou tão bom, mas sou bom o bastante para não fazer feio em parceria. “Posso?”, ele me pergunta com entonação chinesa, e faço que sim com a cabeça.
Ele pensa por um momento e escolhe Potemkin. Eu, claro, vou de Anji. Ele está animado. Nossa dupla é devastadora e os inimigos caem como moscas. Eu e ele estamos nos vingando de todas as vezes em que, sozinhos, perdemos para a máquina de dificuldade insana.
Nos movimentamos em sincronia, cercamos o inimigo, montamos estratégias sem falar nada, conversando em movimentos de luta. Uma hora ele até diz “sobe para cá”, mas eu já estava subindo. Meus leques arremessam o inimigo para cima e ele o pega no ar, quebrando suas costas. “Isso”. “Bonito”. Nós comemoramos e xingamos, resgatamos um ao outro, alternamos papéis na pancadaria. Somos como ondas ressoando na mesma freqüência. Somos guerreiros, legionários, samurais, irmãos de armas.
Derrotamos Leopaldon sem perder uma vida.
O Garoto Chinês está especialmente feliz hoje, e aperta minha mão (algo sem precedentes). Nos despedimos sem falar nada, como convém.
Guardo a outra ficha na carteira. Hoje não vou precisar dela.
August 18th, 2006 at 15:02:13
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(Sem palavras)
August 21st, 2006 at 10:47:40
Já vivi situação parecida, Sr. Boiko, uma vez que, percebendo a superficialidade, os afasto imediatamente pelo desdém. É o que chamo de máxima precaução ou rejeite antes de ser rejeitado, filosofia tosca, típica de quem aprende a temer amizades suspeitas. Por muito tempo a superficialidade frustrou minhas expectativas com relação a amizade e hoje eu nem permito sua iminência. Todo que tenho são colegas e como colegas quero tê-los.
Quanto a você cara, com tantos amigos legais que vc aparenta ter, com tantos que te saúdam pela mente criativa que vc tem, na proximidade de um filho que vai te fazer mais feliz do que muitos, e com um china carismático desse fazendo parceria no GGIsuka, vc tem é que dar um chute no traseiro desses manés que nada entendem sobre o que é ter amigo.
August 22nd, 2006 at 15:27:27
Ou as folhas caem, ou a árvore não se renova…
August 23rd, 2006 at 12:18:19
Talvez ele não goste de amizades superficiais e / ou, assim como você, acha que amigos superficiais são perigosos e resolveu “cortar o mal pela raiz”. Todos somos diferentes, moço. Todos nós temos os nossos “segredinhos”. E todos nós corremos o risco de não gostar de determinada faceta do outro.
August 23rd, 2006 at 12:29:44
quando eu sou amigo de alguém, considero como meu compromisso pessoal aceitar qualquer aspecto da personalidade da pessoa. você pode não gostar ou não concordar com essa opinião ou aquela, mas isso não tem nada a ver com aceitar ou não.
por exemplo, eu acho o cristianismo o câncer da sociedade ocidental, mas não é por isso que ia sair cortando ou evitando o ademar, que é adventista. ele, por sua vez, deve achar que o ateísmo é muito perigoso, mas nunca me tratou mal por causa disso.
rola até uma catchphrase: posso tolerar qualquer coisa, exceto intolerância.
August 23rd, 2006 at 12:49:26
Mas daí você tá medindo todos apenas pelo seu foco e pelo seu nível de tolerância. E sinceramente não acredito que a intolerância seja a única coisa que você não tolera, isso seria o ideal, não o humanamente possível. Eu não tolero jeans apertado e minha colega não tolera jeans folgado, qual de nós é mais tolerante? Outra coisa (e isso é baseado apenas no meu foco de amizade): eu costumo ser fria, chata, emburrada, silenciosa, grosseira com aqueles que considero amigo. Sinto-me livre para sê-lo porque sei que não vou ser julgada inteiramente por esse momento específico e porque sei que meu amigo não vai deixar morrer a amizade caso eu não esteja tão disponível para ele do jeito que ele quer em todos os momentos que ele escolher. É isso.
August 23rd, 2006 at 12:50:08
como eu uso mal as vírgulas. :P
August 23rd, 2006 at 14:37:00
bom, se você não acredita que seja só intolerância que eu não tolero em meus amigos, eu não tenho como provar. só sei que é assim. que me lembre nunca deixei de ser amigo de ninguém por diferença de opinião, e não pretendo começar.
eu não entendi qual é a da analogia do jeans, o que tem a ver com a morte da bezerra? o que não gostar de jeans folgado tem a ver com discriminação?
e uma coisa é ser chata ou grosseira (eu mesmo sou introvertido e converso pouco com meus amigos quando estou concentrado em algo), outra coisa bem diferente é cortar a amizade porque a pessoa tem um hábito ou opinião com a qual você não concorda e por isso você passa a vê-la como um monstro nojento.
August 23rd, 2006 at 18:37:51
A relação que fiz foi que nós sempre temos algo que não toleramos (Foi um exemplo horrível e raso, confesso). A diferença é como exprimimos isso. Tem uma porrada de características humanas que não tolero (incluindo em você) mas o fato é: como eu encaro isso?
a. É algo que chego e digo “oh cara, não suporto isso, etc e tal e isso é algo que não me deixa ter uma relação plena de amizade com você”.
b. Simplesmente, por não saber direito como falar dou “cortadas” como as que você descreveu acima
c. Pensa: pouco me importo, enquanto ele não me fizer mal…
d. Guarda em silêncio e faz “cara de tolerante”.
O fato de que ter certeza de que todos nós somos diferentes e intolerantes, mesmo que seja quando estamos sozinhos com nossos pensasmentos é porque acredito, por exemplo, na nossa evolução como espírito. Alguém é arrogante com você por algum motivo necessário, como por exemplo deixar claro algum melindre seu. Ou porque você também magoou essa pessoa sem perceber e talvez agora ele está te magoando também sem perceber. Não quero explicar melhor o meu pensamento porque acho que daí a gente vai entrar numa discussão profunda sobre evolução, espírito, caráter, o que somos e o que parecemos ser, etc.
Não podemos exigir que o outro tenha a nossa mesma forma de agir perante algo (isso aprendi um pouco recentemente com o Eduardo)
E no mais, acredito que a gente ainda é tão mesquinho, mas tão mesquinho que sempre ou odiamos aquilo que temos de bem feio mas não admitimos, ou odiamos aquilo que mais amamos mas não conseguimos ser.
August 23rd, 2006 at 19:46:53
Você pode não tolerar calças justas, mas isso não tem nada a ver porque calças não têm sentimentos. Estamos falando de pessoas e gostos, e há uma diferença gigantesca entre não tolerar e não gostar, não concordar, não curtir ou não querer para si. Tolerar é:
Eu não gosto, não concordo, não curto e não quero ser religioso, mas tenho um monte de amigos religiosos e tolero isso neles.
Em suma, eu discordo completamente com você de que tem um monte de coisas que não toleramos. Tem um monte de coisa que eu não gosto, não concordo e não quero, mas a única coisa que não tolero é intolerância.
Isso é intolerância, mas honesta, o que não é tão ruim quanto preconceito disfarçado. Na prática acontece pouco porque se você não tolera abertamente você nem fica amigo da pessoa em primeiro lugar.
Isso é tolerância.
Isso também é tolerância. Continuar amigo é tolerar. Você só deixa de ser tolerante quando você ativamente pune a pessoa por não concordar com uma opinião dela.
Não necessariamente. Uma pessoa pode ser preconceituosa por ser preconceituosa, e o preconceituado (?) não tem culpa nenhuma. Jogar a culpa em quem é discriminado é apologia do preconceito. Se eu deixo de ser amigo de um cara porque descubro que ele vota no partido tal, isso é um “melindre” dele? É uma “falta de evolução”, um “problema de caráter” do cara? Eu tenho o direito de maltratar os outros porque eles fazem algo que não faz mal a ninguém, mas que eu pessoalmente acho que é ruim? Claro que não.
Aqui é o ponto onde eu invoco a lei de Godwin em mim mesmo: O patrão machista não está ajudando no “aperfeiçoamento espiritual” da funcionária quando dá pra ela um salário mais baixo injustamente. Os espanhóis não estavam “evoluindo” os nativos da América quando os massacraram. Não foi pelos pecados dos judeus que eles foram discriminados na Alemanha da Segunda Guerra, foi pela doutrina venenosa do Partido Nacional Socialista. Ninguém é santo, mas intolerância é intolerância, e intolerância injusta é intolerância injusta.
“Evolução”, “caráter”, “espírito” são palavrinhas traiçoeiras que eu evito como o diabo à cruz, porque a noção do que é “evoluído”, “bom caráter”, “espiritual” é diferente para cada um. Por exemplo, a posição do partido social-democrata cristão do Eymael é que homosexualismo é uma “falha de caráter” a ser “evoluída”, “consertada”, idéia com a qual os homosexuais discordam completamente. Eu não tenho obrigação nenhuma de adaptar meus gostos aos ideais morais-estéticos dos outros, e tampouco eles tem obrigação de se adaptar aos meus. Para citar minha dama, non serviam.
Em tempo: não acho que tenha nada de feio ou mesquinho comigo e não odeio nenhum de meus hábitos. Estou feliz e satisfeito comigo e com a vida.
E agora cansei, pois que esse post não é sobre intolerância — é sobre videogame, êita!
August 23rd, 2006 at 21:32:26
Eu sei que a lei de Godwin é absoluta e a discussão já acabou, mas para dar uma de chato:
(Tendo em vista que eu não sei o que realmente se passou, mas) Não é uma forma de intolerância presumir o motivo pelo qual o seu colega lhe tratou mal? (por ex., não pode ter sido um “dia ruim”?)
August 24th, 2006 at 09:49:30
Boa pergunta, e de fato não seria justo tirar conclusões sobre a cabeça dos outros só por algo que aconteceu numa noite. O texto está romanceado. Eu sei por outros meios.
August 24th, 2006 at 10:07:12
Wow! É a primeira vez que eu vejo a lei de Godwin sendo invocada ao vivo!
August 24th, 2006 at 12:34:54
ôi que todo mundo que respondeu foi pra me consolar pelo episódio de discriminação ou para discutí-lo. Mas meu ponto não foi que eu fiquei pra baixo. Não me importa mais. O ponto foi Guilty Gear Isuka.
Até dois anos atrás uma pessoa me condenando moralmente era o suficiente para me deixar deprê por duas semanas. O que estou contando é que aprendi a lidar com isso. Eu abordava o problema do jeito errado, tentando descobrir como não se sentir mal quando alguém te rejeita. Se sentir mal você vai de todo jeito, ninguém é uma ilha. O que eu precisava era entender que é só levar a vida adiante, sem autopiedade. E a manha, como me disse alguém num fórum de videogames, é: whoever beats Leopaldon is winner is you.
August 24th, 2006 at 13:39:14
ha ha he he
então foi tudo sobre superação?…
bem valeu a pena, afinal houve um discussão bem interessante entre vocês dois!