Ontem aconteceu algo pra me derrubar. Não estou a fim de falar em público; envolve rejeição. Coisa pequena, mas sou sensível às coisas pequenas. Fui cumprimentar um amigo superficial e do nada ele estava distante, me cortando.

Já passei por isso e sei o que significa: ele descobriu algo sobre mim e não gostou. Talvez tenha achado alguma coisa na net, ou ouvido um boato, ou simplesmente caiu uma ficha retardatária. De qualquer forma, ele descobriu que o Boiko não era a pessoa que imaginava e agora vai se afastar rapidamente.

Amigos superficiais são perigosos para nós, gente diferente. Eles nos vêem como reflexos de si mesmos e nos tratam bem, deixando-nos mal-acostumados. Aí do nada descobrem algo e dão as costas. É muito pior do que preconceito aberto, porque você se sente traído. Deve ser por isso que tantos de meus amigos diferentes desenvolvem uma postura agressiva, misantrópica: é uma forma de filtrar fora os amigos superficiais . Nós temos que evitar os pontos intermediários da escala do orkut, devemos ter ou conhecidos ou bons amigos.

Fodam-se os amigos superficiais.

* * *

Caminho pelos campos úmidos do Politécnico à noite, os eucaliptos enormes balançando em um vento que só existe lá em cima, lá contra o céu sem estrelas, e eu indo em direção ao ônibus prateado — mas lá está o Cobrador Que Puxa Papo e não quero conversar, por isso mudo de idéia e vou até o ponto do ônibus amarelo. O ônibus prateado me leva pra casa rapidamente, e o amarelo, lentamente.

Estou tão emo que meu cabelo quase cai sozinho no olho.

Saco meu Nintendo DS e seguro o botão B ao ligá-lo, o que o força a fazer de conta que é um Gameboy e ler o conteúdo do cartucho no slot inferior. Nesse cartucho eu gravei um pequeno sistema operacional, e dentro do sistema operacional um pequeno tocador de música, e dentro do tocador de música algumas canções de uma banda japonesa de heavy metal chamada Onmyouza. A melodia fácil e poderosa do metal toma conta de meus sentimentos e a letra épica em japonês arcaico me transporta para um mundo de magia onmyou e espíritos youkai.

Eu preciso de escapismo.

Tomo uma decisão e mudo de caminho, indo para o ponto do ônibus verde. O ônibus prateado me leva até em casa rapidamente, o amarelo, lentamente. O ônibus verde me leva até o fliperama.

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Durante a semana estive economizando literalmente cada real. Com o orçamento apertado, não gastei um centavo a mais do que o estritamente necessário para ir até o campus e comer no restaurante universitário. Mas agora me permito, e entrego minha única nota de cinco reais ao atendente:

— Uma?
— Duas.

Dose forte, por favor.

Sento na máquina do Guilty Gear Isuka sabendo que vou perder. Você não joga bem quando está de mal com a vida. Falta sangue-frio, competitividade. Lutando sozinho contra times de dois, eu vou chegar até a dupla do nível 70, 80 no máximo. Estou jogando pra esquecer.

Mal coloco a ficha e o Carinha Chinês aparece do meu lado. Ele está especialmente bonito hoje, usando roupas da moda estilo juventude asiática. O Carinha Chinês é, acredito, o melhor jogador de Isuka da região; ele termina o jogo sozinho umas quatro em cinco vezes que tenta. Eu não sou tão bom, mas sou bom o bastante para não fazer feio em parceria. “Posso?”, ele me pergunta com entonação chinesa, e faço que sim com a cabeça.

Ele pensa por um momento e escolhe Potemkin. Eu, claro, vou de Anji. Ele está animado. Nossa dupla é devastadora e os inimigos caem como moscas. Eu e ele estamos nos vingando de todas as vezes em que, sozinhos, perdemos para a máquina de dificuldade insana.

Nos movimentamos em sincronia, cercamos o inimigo, montamos estratégias sem falar nada, conversando em movimentos de luta. Uma hora ele até diz “sobe para cá”, mas eu já estava subindo. Meus leques arremessam o inimigo para cima e ele o pega no ar, quebrando suas costas. “Isso”. “Bonito”. Nós comemoramos e xingamos, resgatamos um ao outro, alternamos papéis na pancadaria. Somos como ondas ressoando na mesma freqüência. Somos guerreiros, legionários, samurais, irmãos de armas.

Derrotamos Leopaldon sem perder uma vida.

O Garoto Chinês está especialmente feliz hoje, e aperta minha mão (algo sem precedentes). Nos despedimos sem falar nada, como convém.

Guardo a outra ficha na carteira. Hoje não vou precisar dela.