Sat 26 Aug 2006
Comédia.
Personagens:
O Artista, um jovem de aparência mal cuidada vestindo uma blusa de lã preta gola alta, calça jeans velha e tênis all-star.
O Bobo, usando roupas espalhafatosas de bobo da corte, sapatos coloridos pontudos e chapéu com guizos.
Cena única: o Artista está pintando. Apesar de serem ainda as primeiras pinceladas sobre o rascunho, ele está visivelmente insatisfeito. O Bobo, sentado no chão, assiste TV. Entre os dois há uma lâmpada antiga pendurada, à moda de mesa de pôquer.
Artista: Num acesso súbito de raiva, rabisca a tinta de qualquer jeito sobre a tela, gritando angustiado. Não dá, não dá! Encolhe-se no chão com as mãos sobre a cabeça.
Bobo: Demonstra pouco interesse na cena até virar na direção do cavalete. Oh! Caminha até ele, tira um monóculo do bolso e começa a examinar o quadro. Excelente! Magnífico!
Artista: Ainda no chão Como?
Bobo: A fúria, a selvageria!… Um verdadeiro tratado sobre o insano instinto de sobrevivência humano! Uma obra-prima!
Artista: Não, não é! É puro lixo!
Bobo: Dir-se-ia que o artista tentou destruir a própria obra num espasmo de fúria!
Artista: Mas foi exatamente o que fiz!
Bobo: Oh!… Um trabalho espontâneo! Pintura marginal! Verdadeiramente Arte da mais profunda!
Artista: Pois olha aqui o que faço com sua Arte! Levanta-se, joga a tela ao chão e pisa várias vezes em cima.
Bobo: Oh!
Artista sorri, triunfante.
Bobo: Maravilhoso! Maravilhoso! Essas pegadas sem controle, como fosse caótico estouro de uma manada de antílopes assustados! Bravo! Incrível!
Artista: Ensandecido Ah, é? Ah, é? E que tal isso? Rasga a tela ao meio.
Bobo: Ajusta o monóculo Sim, sim, o artista aborda aqui a destruição, a separação, a alienação interna causada pelo abismo entre homem e animal! Magnífico! Tamanha riqueza de significados em trabalho tão singelo! Nada menos do que genial! Estou lhe dizendo, o senhor é um gênio!
Enquanto o Bobo fala, o Artista sobe na TV e enforca-se com o cabo da lâmpada. Terminado seu monólogo, o Bobo percebe surpreso o suicídio.
Bobo: Oh! Ajusta mais uma vez o monóculo Estupendo! Fenomenal! O último trabalho de um homem que deu a vida pela Arte! Observe a maneira poética com que a lâmpada ilumina seu corpo retorcido e morto! Visceral! Primitivo! Oh, o statement metafórico de se destruir na luz! Preciso ligar para meu agente.
Gesticula como se estivesse falando em um celular. Baixam as cortinas.
August 26th, 2006 at 16:39:28
Voce eh o bobo ou o artista no post acima, Leoboiko?
August 26th, 2006 at 17:43:59
ambos.