Manhã cedinho, estou indo pegar o ônibus e uma mulata me interpela. Pensei que fosse perguntar as horas ou pedir direções, mas ela diz simplesmente:

— Tenha um lindo dia, moço. Um lindo dia.

Ela não estava sorrindo, absolutamente. Tinha um rosto grave e urgente. E nunca mais a vi.

* * *

— Vai me empurrar contra a parede?
— Não tem parede…
— Aqui tem uma.

Eu empurro.

* * *

Levanto. Não suporto vê-la assim; se eu sou a causa vou embora, deixo de ser pessoa e viro cartas e emails; ela tem uma desculpa pronta, precisa esperar o irmão… Mas quando pergunto se quer ir ela meneia a cabeça e me puxa de leve, e por um instante — pelo mais instantâneo dos instantes, pelo que deve ser a unidade discreta de percepção de instantes — penso ver um brilho de súplica em seus olhos. Ilusão, wishful thinking, estou vendo o que quero ver mas que se dane, se existe a chance de que eu possa afogar um pouco a tua solidão eu fico.

* * *

— Mas diga… você é curitibano?
— Não.

Ela ri alto.

— Ah, eu tinha certeza. Você é tão simpático.

Simpático? Simpático, eu? Já fui chamado de muita coisa, mas nunca ninguém disse que sou simpático. Ela quer alguma coisa de mim? Estaria tentando me seduzir? Fico o resto do dia intrigado com o fato de alguém me achar simpático.

* * *

Estou desempacotando as tralhas em meu quarto novo, movendo móveis, lavando o chão, todo suado e sujo e sem camisa, quando minha vizinha aparece pela primeira vez. Ela é uma morena graciosa com um sorriso misterioso, seu shortinho preto exibindo para o mundo as pernas mais desejáveis que vi nos últimos tempos — pernas grossas, curvilíneas, macias, bronzeadas, verdadeiramente brasileiras. Eu suo mais um pouco. Ela sorri novamente e pede desculpas, “pensei que o dono das quitinetes estava aqui”. “Não tem problema”, digo eu, “vamos trepar como animais no cio até afogar nosso vazio existencial mútuo em prazer cru e carnal”. Digo isso em minha mente, claro. Na vida real acho que pronunciei mais ou menos “hmmrpf”. Ela volta pro quarto e eu fico sozinho de novo.

* * *

Oi, é você mesmo? Sou eu, lembra de mim? O que anda fazendo? Que legal. Há quantos anos? Puxa. Pois é, estou casada, moro ali perto do terminal. E como vai sua família?

Eu não a via há cinco anos. Pensei que a tinha esquecido. Ela está ainda mais bonita adulta do que adolescente, o mesmo olhar doce de canção da Marisa Monte agora num corpo de mulher. Minhas mãos querem se enovelar em seus cabelos macios e de lá nunca mais sair. Resisto. Respondo monossílabos. Descubro que ainda a amo, tanto ou mais quanto antes.

Você não mudou nada, ela conclui antes de ir.

* * *

Estou em casa no fim de semana mais tedioso de minha vida quando surge o filósofo. Ele veio atrás de X. ou Y., mas como nenhum dos dois estava contentou-se em conversar comigo. Faz tempo que não nos falamos. Discrepâncias filosóficas, acho; ele não gosta de hedonismo, de materialismo, de naturalismo, de determinismo biológico, de cientificismo, enfim, de mim.

Mas eu gosto do filósofo, ele tem uma mente mais aguçada que a minha e uma postura corajosa, cáustica. Pena que esteja cada vez mais afastado de tudo, afogado em um oceano mental de conflitos insolúveis. Às vezes o filósofo perde o contato com a realidade mesmo, tem fantasias paranóicas de grupos conspiradores no trabalho, na faculdade.

— Nós todos mudamos bastante desde quando saímos de Wenceslau.
Balanço a cabeça, concordando.
— Quantos anos você tem, piá?
— Vinte e três.
— Ah, já não é mais tão moleque então.
— É, já dá pra ser pai…

O filósofo diz que, como foi quem nos uniu (ou assim ele pensa), sente-se um pouco responsável, como se o filho fosse dele. Diz que um dia quer também ser pai, deixar descendentes. Eu posso ouvir as entrelinhas: e você roubou ela de mim. Quero protestar, dizer que não foi de propósito, que não fui eu quem inventou as regras, que não concordo com esse sistema, que jamais quis propriedade exclusiva sobre ninguém, que eu acho que no mundo todo ele é a pessoa que mais precisa de um pouco de companhia. Não falo nada.

— Quer ser o padrinho?, ofereço enfim como demonstração de paz.

* * *

Doctor Who, ela conta. Dançar no invisível em frente ao Big Ben. Zepelins. Zepelins, eu conto.

* * *

— Você ganhou o quê?
— Concurso de contos.
— Você escreve contos?
— Às vezes.
— Yaoi?
— Não, não yaoi.
— Ah, então não me interessa.

E ele ri,
ri aquela risada viciada e pura,
aquela risada infantil e desesperada,
rasa e falsa como o azul de seus olhos,
iressistível como o violeta em seus lábios.

* * *

Olho para os lados ansioso, fingindo indiferença. Ele esconde cuidadosamente sua impressão, inventa críticos hipotéticos para o texto que mostrei: “Se eu fosse um artista diria que…” “Mas como filósofo diria que…” “Se fosse um lingüista, eu ia criticar seu estilo, porque teria um pouco de inveja”. Ele acha a idéia engraçada e fala de novo, rindo.

Leva um tempo para eu entender: é um elogio. É a coisa mais próxima de elogio que eu jamais conseguirei dele.

* * *

Chego do campus e espio discretamente pela janela. Sei que é inútil; uma mulher sempre sabe quando você está desejando seu corpo, mesmo que você olhe pelas costas, mesmo que olhe por um reflexo no vidro, mesmo que ela seja míope e esteja bêbada pulando num show de heavy metal. Espio mesmo assim. Ela está deitada na cama assistindo o Jornal Nacional, cabeça na direção da janela, vestindo apenas uma camiseta branca, suas pernas que deveriam ser uma visão proibida pela lei de Deus e dos homens gloriosamente expostas para qualquer um ver através da janela escancarada, joelhos para cima a fim de mostrar as coxas. Ah, sim, ela está fazendo de propósito. Essas são pernas de alguém que entende seu poder muito bem — são as pernas bem depiladas, hidratadas, perfumadas de uma menina que afia suas lâminas todo dia. Nós homens sofrendo e ela quer matar todos nós; ela quer matar todos nós.

Pondero por um momento se devo dizer um oi, então paro de me enganar e vou para meu quarto.

A melancolia ataca e busco minha shakuhachi. Não sei tocar uma única música mas sei espremer notas aleatórias, e faço isso. De repente as vozes monótonas do Jornal Nacional se calam. Algo dentro de mim quer acreditar que a vizinha e suas pernas querem me ouvir e desligaram a televisão. Fico repetindo que é bobagem até ouvir um acorde.

Mein gott, ela toca violão.

Sopro mais algumas notas, tentando evitar meu tom triste de costume e puxando algo mais jazz. Ela começa algumas chord melodies simples. Eu “improviso” — palavra boa demais para descrever o que faço — sobre esse fundo. Fizemos contato, e através de música. Cara, isso é tão bom quanto sexo.

Tá, quase tão bom.

Considero levantar, andar até o quarto dela e tocar flauta em sua janela. Ela olharia para trás e daria risada e eu diria algo charmoso e engraçado e ela me convidaria para entrar. Claro que não faço nada.

Fico deitado até dormir.

* * *

Lixo, montes e montes de lixo. Vontade de te jogar fora junto com os outros cadernos, jogar fora toda essa prosa pretensiosa e cheia de ângulos. Tudo isso só tem valor pra mim. Mas afinal, valor pra mim é algum valor, então você vai escapar dessa vez.

Mas vou te deixar bem escondido.