December 2006


Esta é a parte que não fala de Naruto.

Estou ficando velho e descobrindo que gosto menos e menos de anime, em comparação com mangá. Certos mangás são completamente descaracterizados na versão anime (como Shaman King), outros simplesmente ficam melhor impressos ou em live action (Death Note).

Mas às vezes me dá vontade de ver um anime Shonen Jump. Um anime Jump tem muito movimento, músicas agitadas e uma cor de cabelo para cada personagem principal. O protagonista tem um dom, poder secreto, gene demoníaco, alta contagem de midi-chlorians etc. que faz com que ele evolua muito rápido. Ele é meio bobo, mas extremamente dedicado. Com a ajuda dos amigos, o protagonista vence vilões poderosos e alcança seu sonho de ser o campeão/rei/líder/número 1. E tem torneios. Sempre tem torneios.

O lema da Jump é: “perseverança, amizade, vitória”. Por impossível que pareça o sonho do protagonista, ele vai alcançá-lo se perseverar estoicamente e confiar nos amigos. Esta é a moral de todas as histórias da Jump, ao invés da caridade altruísta que associamos às histórias infantis no Ocidente.

Volta e meia eu enjôo de assistir o mesmo roteiro de novo e de novo, e decido não ver mais animes Jump. Nunca dura muito. Acho que está na hora de admitir que eu gosto da coisa.

* * *

Esta é a parte que fala de Naruto.

Assisti uns cem episódios de Naruto, um atrás do outro. Não é ruim. É bastante bom, na verdade. O único problema é que está cheio de lixo. Desde Dragon Ball Z não vejo um anime com tanto filler irritante. Mas existe uma solução: YouTube.

Assita Naruto no YouTube, com a lista de arcos e a lista de episódios à mão. Pule todos os flashbacks (por vezes isso significa pular episódios inteiros *cof*Sasuke*cof*). Pule todos os episódios de filler. Pule todos os arcos de filler. Pare de assitir no episódio 135, quando o anime alcança o mangá, e fuja dos episódios seguintes. Espere pela continuação da história em 2007. O que sobra é um anime rápido com ação viciante e muitos, muitos ninjas. É ninja pra todo lado. Ninjas amarelos, pretos, verdes, azuis. Ninjas que parecem ocidentais, ninjas que parecem lendas folclóricas, ninjas que parecem cavaleiros do zodíaco, um ninja que parece uma versão fofinha do Bruce Lee e até mesmo (raramente) ninjas que parecem ninjas. O que mais posso pedir?

Achei especialmente divertido ler os comentários do povo a cada episódio. Anime fica muito melhor quando você compartilha audiência com gente que se emociona com os personagens. Ler os comentários foi quase como participar de um encontro de anime.

Retrospectiva 2006 em uma frase: o ano passou e eu não vi. No Natal vou pro interior e de lá pra Sampa. É minha última semana em Curitiba, já? Nossa.

Como desisti de ser cientista da computação, vou perder meu acesso ao laboratório; e como não tenho computador minha presença na net vai se reduzir ao w3m em meu notebook velhão — quando conseguir pegar wireless, ou seja, muito raramente. O blog vai morrer por uns tempos e também não vou poder voltar a tirar fotos tão cedo.

Uma amiga me perguntou por onde começar a ler Nietzsche.

É mais fácil dizer por onde não começar a ler Nietzsche: não leia Assim Falou Zaratustra, e não leia Ecce Homo. O Zaratustra, escrito num estilo parodiando a Bíblia, é alegórico e fácil de ser lido errado, especialmente antes de se ter contato com as idéias nietzscheanas. O Ecce Homo contém reviews de tudo o que ele publicou na vida e também é muito fácil de ser mal compreendido. Deixe para lê-los depois de dar uma olhada em cinco ou seis dos mais famosos.

E quais são bons pra começar? Praticamente todos os outros. O Anticristo é excelente: pequeno, direto, fácil de ler, mostra bem o estilo idiossincrático de Nietzsche e trata de um assunto ainda atual (ou seja, o que faz do cristianismo uma idéia péssima). Gaia Ciência e Aurora servem para dispersar qualquer impressão errônea de que Nietzsche seria pessimista ou niilista. Além do Bem e do Mal e a Genealogia da Moral são, em minha opinião, os mais importantes filosoficamente. Humano, Demasiado Humano é um bom segundo livro, para mostrar como o Nietzsche fica quando ele quer ser frio. O Caso Wagner é menos filosofia e mais crítica de arte, e é um dos melhores trabalhos já feitos sobre crítica de arte.

Seja qual for o escolhido, é fundamental encontrar uma tradução decente. Evite os livrinhos de bolso traduzidos às pressas por um estagiário. As edições de Paulo César de Souza, disponíveis pela Companhia das Letras/Companhia de Bolso, são todas de qualidade ótima.

Okay, é isso. Eu preciso de um PS2.

(Mais detalhes no insertcredit: 1,2).

Finalmente saiu a nota da última final. 6,7. Eu precisava de 4,6. Passei. Passei em todas as oito matérias que estava fazendo. Sou um Bacharel em Ciência da Computação. E passei no vestibular da USP, e passei nas entrevistas do Google, tudo ao mesmo tempo.

Eu sei que, no contexto ético do pós-modernismo globalizado, demonstrações de autoconfiança precisam ser contidas e discretas, sob o risco de ostracização por crime de arrogância; mas, depois de quase quebrar ao meio de tanto stress, eu acho que mereço. Então, com sua licença,


YES I AM!! YES I AM!! I AM A BAD MOTHARFUCKA!! A SEVEN NATION ARMY COULDN’T HOLD ME BACK!! ORE NO KACHI DA!! YOU MUST DEFEAT SHENG LONG TO STAND A CHANCE!!

É hora da… KIRBY DANCE!!

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Cara, se você for aceito no Google e recusar, eu te mato.
— Vários colegas bolsistas

Agora é hora de parar de sonhar.
— Minha mãe, quando soube que eu ia ser pai

Léo, você tem que fazer o que te deixa feliz.
Mas não largue computação, não.
— Minha tia

M. A. é um expert em redes neurais. Sua especialidade na graduação foi inteligência artificial, seu mestrado foi em algoritmos genéticos e sua tese de doutorado foi sobre programação evolutiva. Uma educação tão completa em ciência da computação abriu para ele um amplo leque de opções de carreira, indo de professor em uma universidade a… professor em outra universidade.
— DailyWTF, 2006-12-01

Na vida tudo é jogo de cintura, quem nada contra a maré o tempo todo ou é burro ou louco […] Eu estudo numa faculdade pública e posso confirmar que 99% dos professores que eu tive se concetram[sic] em dois grupos: loucos ou imbecis.
— Anonymous Coward, no meu blog

quando eu larguei a Grande Carreira Computacional pra fazer letras, meio mundo deu chilique, mas tá, e daí? eu acho que ia me foder em qualquer coisa que fizer mesmo, então que seja numa coisa em que a fodida é criativa e me agrada por dentro.
— Kelly Lima

O que diz a tua consciência? — “Torna-te aquilo que és.”
— Friederich Nietzsche, A Gaia Ciência

Se é assim, pode parecer que a ciência é nossa única salvação da irrealidade. Isso é verdade até certo ponto. Ela de fato pode nos salvar do irreal, mas em troca da fantasia não nos dá mais do que um universo mecanicamente correto. A ciência não pode nos dizer o que é a vida, nem pode torná-la mais abundante. Esta é a função da poesia, mas assim como na passagem do Inferno citada acima, temos que procurar por poesia, ou seja, por realidade, também nos locais mais improváveis: na mera sonoridade dos versos, na negação maliciosa da verdade, nos desejos impossíveis dos seres humanos, nos tremendos castelos de ar intelectual que eles erigiram, em todas essas mentiras e sofismos que são apenas verdades invertidas.
— R. H. Blyth

É que eu sou muito poeta.
— Meu avô, explicando por que deixou sua esposa atual para sair pelo mundo.

I ain’t jokin’ woman, I got to ramble.
I can hear it callin’ me the way it used to do
I can hear it callin’ me back home!
–Led Zeppelin, Babe, I’m Gonna Leave You

Pelos resultados de sua última entrevista, o time acha que você se encaixa bem na posição de Administrador de Sistemas Linux/Unix, sede européia.
— Google, para mim

Vejam só o que este coreano fez com uma de minhas músicas favoritas do Guilty Gear.

Ele fez uma coisa… uma coisa… MARAVILHOSA! É tão bom ver que ainda existem guitar heroes no mundo. O rock tá morto, mas vive.

Acabou. Estou há mais de cinqüenta horas sem dormir (a menos de cochilos na mesa do laboratório), mas acabou. Esta foi a última prova. Fim.

Resta saber se meu desempenho foi satisfatório.