Uma amiga me perguntou por onde começar a ler Nietzsche.

É mais fácil dizer por onde não começar a ler Nietzsche: não leia Assim Falou Zaratustra, e não leia Ecce Homo. O Zaratustra, escrito num estilo parodiando a Bíblia, é alegórico e fácil de ser lido errado, especialmente antes de se ter contato com as idéias nietzscheanas. O Ecce Homo contém reviews de tudo o que ele publicou na vida e também é muito fácil de ser mal compreendido. Deixe para lê-los depois de dar uma olhada em cinco ou seis dos mais famosos.

E quais são bons pra começar? Praticamente todos os outros. O Anticristo é excelente: pequeno, direto, fácil de ler, mostra bem o estilo idiossincrático de Nietzsche e trata de um assunto ainda atual (ou seja, o que faz do cristianismo uma idéia péssima). Gaia Ciência e Aurora servem para dispersar qualquer impressão errônea de que Nietzsche seria pessimista ou niilista. Além do Bem e do Mal e a Genealogia da Moral são, em minha opinião, os mais importantes filosoficamente. Humano, Demasiado Humano é um bom segundo livro, para mostrar como o Nietzsche fica quando ele quer ser frio. O Caso Wagner é menos filosofia e mais crítica de arte, e é um dos melhores trabalhos já feitos sobre crítica de arte.

Seja qual for o escolhido, é fundamental encontrar uma tradução decente. Evite os livrinhos de bolso traduzidos às pressas por um estagiário. As edições de Paulo César de Souza, disponíveis pela Companhia das Letras/Companhia de Bolso, são todas de qualidade ótima.