Não tenho casa. Não tenho toca. Não tenho onde me esconder. Sem casa eu não sou nada. Sem casa não posso ter um computador, não posso escrever ou pintar ou tocar música, não posso cantar sozinho à noite, não posso andar pelado, não posso cozinhar, não posso sequer ouvir heavy metal. Não tenho fiador e não posso fazer seguro-fiança porque tenho menos de três meses de emprego. Ganho doze vezes o valor de um aluguel e São Paulo inteira é incapaz de me oferecer uma quitinete que seja. Não tenho perspectiva nenhuma de encontrar um lugar para ficar.

Teve dois lugares que quase consegui. Eles não foram encontrados em jornal e sim indicados pelo R., um cara extremamente gentil que estava na mesma pensão que eu. Estava. R. foi expulso sem motivo aparente, exceto talvez o de não ser heterossexual.

Eu sou o próximo. É questão de tempo.

Por acaso eu vi a esquina da Ipiranga com a São João. É feia, suja, cheia de criminalidade e prostituição. A única coisa que aconteceu no meu coração foi adrenalina bombeando — do tipo ruim, quero dizer.

Esta cidade me consome. A idéia de passar três anos aqui me parece a pior decisão que já tomei na vida. Eu a odeio, odeio, odeio como nunca odiei lugar nenhum, nem os becos sujos e quentes de Manaus, nem os olhares cheios de desprezo de Curitiba, nem o preconceito religioso do interior, nada é tão ruim quanto acordar em feiúra, dormir em feiúra, ver feiúra, ouvir feiúra, cheirar feiúra vinte e quatro horas por dia. Odeio esta cidade cada vez que respiro seu ar-que-não-é, odeio o povo daqui, grosso e violento e mal-educado e desconfiado (— o que eu não daria para trocar isso pelo calor de Manaus), odeio o jeito que me olham na rua, que mexem comigo. Nunca me senti tão misantropo, tão amargo, tão isolado de qualquer tipo de lar, sem uma casa eu não sou nada e a única coisa que consigo pensar é que queria estar subindo uma montanha da Serra do Mar agora.

Um mês já foi. 35 to go. Wee.