Peço perdão aos leitores mais sensíveis, mas não há outra maneira de expressar a raiva que tenho dessa frase.

Minha filha não respirava ao nascer. Se isso tivesse acontecido algumas décadas atrás, ela teria sido considerada um cadáver e abandonada à morte. Hoje, está viva e bem, graças à medicina — graças aos pediatras e enfermeiros que passaram anos debruçados sobre livros tediosos até adqüirir habilidade suficiente para ressucitar um bebê; graças às milhões de horas de dedicação acumulada no progresso da ciência; graças ao suor e sangue e carne queimada de gente que teve coragem de se opor ao obscurantismo da Igreja; graças aos cadáveres roubados, aos animais sacrificados em laboratório, aos pesquisadores que se auto-injetaram antibióticos; graças aos tubos e sondas e agulhas enfiados por todo o corpo delicado de minha filha, graças aos engenheiros capazes de criar máquinas tão precisas a ponto de arrancá-la à força do abraço da morte e dançar com seus pulmões e seu coração — graças à nossa ambição, nossa inventividade, enfim: graças aos seres humanos. No que dependesse de deus a guria tava morta.

O que me deixa mais irritado é que, quando, a muito custo, os médicos têm sucesso em curar uma doença, todos se apressam em lembrar que foi só porque a misericórdia divina o permitiu; mas, quando um paciente morre (a despeito de inúmeras rezas, novenas e promessas), é porque “a ciência” não pôde fazer nada, porque os seres humanos são falhos. Ora!

Bem-vinda ao mundo, Valentine. Você está viva porque fomos contra a natureza, contra as regras, contra o destino. Não se esqueça: daqui para frente será sempre assim. Viver é enfrentar, é subir ladeira. Este é o significado de seu nome.