Uma das coisas que mais me perguntavam quando decidi mudar de Ciência da Computação para Letras foi “mas não paga menos?”. “Sim”, eu respondia, e tinha que me segurar para não dizer que em parte estava mudando por isso mesmo.

É engraçado como essas coisas funcionam. Quando converso com as pessoas sobre objetivos de carreira, parece-me que elas ou entendem minha postura instantaneamente ou não entendem nunca, por mais que eu explique — o que não me impede de continuar tentando. Esta semana aconteceu um fato interessante e que pode servir de exemplo.

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Minha grife preferida é a Angelo Litrico: social mas confortável, elegante mas com personalidade, masculina mas estilosa, e ainda por cima acessível. A mala chinesa de rodinhas que há três anos me serve de guarda-roupa está cheia de peças desta marca. Uma de minhas favoritas é uma camiseta de botão branca, de tecido fino e fofo e com umas faixinhas pregueadas meio medievais — até já me chamaram de “Príncipe Valente” no trabalho…

Como todo bom nerd, quando coloco uma roupa que gosto fico com ela por dias a fio.

A Sulamita, que está me hospedando no momento, usa os serviços de uma diarista excelente, do tipo que limpa, arruma, esfrega, varre, lava, passa, dobra e ainda dá o acabamento; toma a iniciativa, arruma lugar pra guardar as coisas… Ontem de manhã topei com ela na cozinha. Eu vestia a tal camisa Príncipe Valente e a diarista começou a fitá-la com atenção. Chegou perto, pegou o tecido, pensou um pouco e disse:

— Essa camisa sua, pra ficar passada tem que passar bem com cuidado, várias vezes.

Caros colegas programadores profissionais, cientistas da computação e aparentados, eu lhes pergunto: por que a diarista me disse isso?

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Não é o trabalho dela, certo? Empregada doméstica é uma das profissões mais estigmatizadas que existem. Quase ninguém vira diarista porque quer; é seguro presumir que ela faz esse trabalho porque precisa do dinheiro. Provavemente precisa bastante do dinheiro. Ela não deveria fazer o serviço e pronto? Meu jeitão deixa claro pra qualquer um que eu não me importo se a camisa está ou não bem passada. Por que ela se importa, então? Em termos econômicos, qual o incentivo?

Pode-se dizer que uma sugestão assim tem um custo muito baixo, o que é verdade neste caso, mas a atitude da moça não foi nem de longe um caso isolado. Tenho certeza que todos que já conviveram com uma boa arrumadeira podem contar histórias parecidas. Você diz “não precisa lavar o banheiro”, ela vai lá e lava. “Deixa a louça aí e vem almoçar”, e ela insiste em terminar antes. Mas ninguém gosta de fazer essas coisas, então por que?

Quem já sabe a resposta sabe o que busco numa empresa. E se tiver alguma proposta interessante, favor mandar email =) Quem não sabe pare, tome um café e pense um pouco antes de continuar.

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Voltou do café?

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A diarista se incomoda com minha camisa malpassada porque ela é uma arrumadeira; porque o trabalho dela é arrumar coisas; e portanto coisas desarrumadas lhe parecem feias. Estética. A motivação é estética. Claro que ela quer ser paga, mas mesmo sem receber um centavo, uma camisa desarrumada ou uma pia com louça ofendem seu senso estético de arrumadeira.

Por que a área de computação paga bem, ela está cheia de pessoas que estão primariamente interessadas em receber bem. Mais: está cheia de empreendedores que estão primariamente interessados em lucro fácil. Por que a área de computação paga bem, a atitude geral é utilitarista, “vamos cuidar das necessidades do cliente e tratar de ganhar dinheiro”. Para alguém que, como eu, só é motivado pela alegria da criação estética, essa atitude cria uma espécie de abismo de alienação. Para alguém como eu, trabalhar numa empresa sem ambição, sem critério de qualidade técnica, de melhoria contínua, é o mesmo que uma diarista trabalhar para um patrão que diga “você não pode lavar o banheiro, cuide das minhas necessidades e trate de ganhar dinheiro”. Ela provavelmente desistiria depois de algumas semanas dizendo “credo, que moço porco”.

Como tenho família pra sustentar, e como não sou fodão em Letras (ainda), eu preciso trabalhar com computação pra ter dinheiro suficiente. Mas isso não significa que eu vou ficar satisfeito sentado oito horas por dia fazendo um serviço porco. Nenhum trabalho é exatamente o que você gostaria de fazer (—senão não seria trabalho); mas existem trabalhos e trabalhos, e nem todos te roubam a autonomia estética.

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Letra de música tá valendo? Então toca Raul:

Eu devia estar contente
porque eu tenho um emprego
sou um dito cidadão respeitável
e ganho quatro mil cruzeiros por mês

[…]

Eu devia estar contente
por ter conseguido tudo o que eu quis
mas confesso abestalhado
que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
e agora eu me pergunto “e daí?”
eu tenho uma porção de coisas grandes
pra conquistar, e não posso ficar aí parado