Wed 4 Apr 2007
Da motivação para o trabalho e donas-de-casa
Posted by leoboiko under Computadores , Pessoal , DiárioUma das coisas que mais me perguntavam quando decidi mudar de Ciência da Computação para Letras foi “mas não paga menos?”. “Sim”, eu respondia, e tinha que me segurar para não dizer que em parte estava mudando por isso mesmo.
É engraçado como essas coisas funcionam. Quando converso com as pessoas sobre objetivos de carreira, parece-me que elas ou entendem minha postura instantaneamente ou não entendem nunca, por mais que eu explique — o que não me impede de continuar tentando. Esta semana aconteceu um fato interessante e que pode servir de exemplo.
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Minha grife preferida é a Angelo Litrico: social mas confortável, elegante mas com personalidade, masculina mas estilosa, e ainda por cima acessível. A mala chinesa de rodinhas que há três anos me serve de guarda-roupa está cheia de peças desta marca. Uma de minhas favoritas é uma camiseta de botão branca, de tecido fino e fofo e com umas faixinhas pregueadas meio medievais — até já me chamaram de “Príncipe Valente” no trabalho…
Como todo bom nerd, quando coloco uma roupa que gosto fico com ela por dias a fio.
A Sulamita, que está me hospedando no momento, usa os serviços de uma diarista excelente, do tipo que limpa, arruma, esfrega, varre, lava, passa, dobra e ainda dá o acabamento; toma a iniciativa, arruma lugar pra guardar as coisas… Ontem de manhã topei com ela na cozinha. Eu vestia a tal camisa Príncipe Valente e a diarista começou a fitá-la com atenção. Chegou perto, pegou o tecido, pensou um pouco e disse:
— Essa camisa sua, pra ficar passada tem que passar bem com cuidado, várias vezes.
Caros colegas programadores profissionais, cientistas da computação e aparentados, eu lhes pergunto: por que a diarista me disse isso?
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Não é o trabalho dela, certo? Empregada doméstica é uma das profissões mais estigmatizadas que existem. Quase ninguém vira diarista porque quer; é seguro presumir que ela faz esse trabalho porque precisa do dinheiro. Provavemente precisa bastante do dinheiro. Ela não deveria fazer o serviço e pronto? Meu jeitão deixa claro pra qualquer um que eu não me importo se a camisa está ou não bem passada. Por que ela se importa, então? Em termos econômicos, qual o incentivo?
Pode-se dizer que uma sugestão assim tem um custo muito baixo, o que é verdade neste caso, mas a atitude da moça não foi nem de longe um caso isolado. Tenho certeza que todos que já conviveram com uma boa arrumadeira podem contar histórias parecidas. Você diz “não precisa lavar o banheiro”, ela vai lá e lava. “Deixa a louça aí e vem almoçar”, e ela insiste em terminar antes. Mas ninguém gosta de fazer essas coisas, então por que?
Quem já sabe a resposta sabe o que busco numa empresa. E se tiver alguma proposta interessante, favor mandar email =) Quem não sabe pare, tome um café e pense um pouco antes de continuar.
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Voltou do café?
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A diarista se incomoda com minha camisa malpassada porque ela é uma arrumadeira; porque o trabalho dela é arrumar coisas; e portanto coisas desarrumadas lhe parecem feias. Estética. A motivação é estética. Claro que ela quer ser paga, mas mesmo sem receber um centavo, uma camisa desarrumada ou uma pia com louça ofendem seu senso estético de arrumadeira.
Por que a área de computação paga bem, ela está cheia de pessoas que estão primariamente interessadas em receber bem. Mais: está cheia de empreendedores que estão primariamente interessados em lucro fácil. Por que a área de computação paga bem, a atitude geral é utilitarista, “vamos cuidar das necessidades do cliente e tratar de ganhar dinheiro”. Para alguém que, como eu, só é motivado pela alegria da criação estética, essa atitude cria uma espécie de abismo de alienação. Para alguém como eu, trabalhar numa empresa sem ambição, sem critério de qualidade técnica, de melhoria contínua, é o mesmo que uma diarista trabalhar para um patrão que diga “você não pode lavar o banheiro, cuide das minhas necessidades e trate de ganhar dinheiro”. Ela provavelmente desistiria depois de algumas semanas dizendo “credo, que moço porco”.
Como tenho família pra sustentar, e como não sou fodão em Letras (ainda), eu preciso trabalhar com computação pra ter dinheiro suficiente. Mas isso não significa que eu vou ficar satisfeito sentado oito horas por dia fazendo um serviço porco. Nenhum trabalho é exatamente o que você gostaria de fazer (—senão não seria trabalho); mas existem trabalhos e trabalhos, e nem todos te roubam a autonomia estética.
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Letra de música tá valendo? Então toca Raul:
Eu devia estar contente
porque eu tenho um emprego
sou um dito cidadão respeitável
e ganho quatro mil cruzeiros por mês[…]
Eu devia estar contente
por ter conseguido tudo o que eu quis
mas confesso abestalhado
que eu estou decepcionadoPorque foi tão fácil conseguir
e agora eu me pergunto “e daí?”
eu tenho uma porção de coisas grandes
pra conquistar, e não posso ficar aí parado
April 4th, 2007 at 16:21:15
A Cícera também tem total liberdade de horário flexível. Ela chega a hora que quiser e sai quando terminar. Pode começar do cômodo que quiser. Ela que vai comprar os apetrechos e itens de limpeza, então tem as ferramentas que ela escolhe. As vezes eu mesmo não entendo pq ela prefere aquelas vassouras estranhas, mas ela quem vai varrer, ela que tem que saber. E alem de tudo, eu sei que ela é essencial para minha alegria de viver sem ter que limpar a casa.
Sou uma boa gerente de projetos também, afinal :D
April 4th, 2007 at 16:35:09
Sula, posso trabalhar de dono-de-casa pra você? =DD
April 4th, 2007 at 19:56:07
Basicamente, a arrumadeira da Sulamita leva uma vida melhor que a minha,que trabalho com informática.
Hora de mudar de profissão. :P
April 12th, 2007 at 20:09:09
Isso aí, bem dito, também sinto isso que você diz, que muitas pessoas que trabalham com informática carecem de gosto pela coisa, e somente têm gosto pelo dinheiro. Mas eu gostaria de colocar algumas consideracoes.
Desde que eu comecei a trabalhar com informática venho tomando consciência cada vez mais que o trabalho de um cientista da computacao ou de um trabalhador em informática é basicamente resolver problemas. No começo eu vivia a procurar pela “solução perfeita” para os problemas, no entanto às vezes acabava esquecendo de uma das restrições do problema, que era resolvê-lo dentro de um tempo definido, e acabava estourando o prazo procurando por essa solução perfeita.
Quebrando a cara algumas vezes, comecei a mudar o meu conceito de solução perfeita, e hoje acredito (e essa definição ainda está funcionando) que uma solução perfeita para um problema de informática é resolvê-lo da melhor forma possível no tempo possível, e que não gere mais problemas depois.
As vezes tem a presença do chefe ou cliente ou de outros, que querem que a pessoa acabe o quanto antes, e a pessoa se nao for forte de espírito se sente pressionada a fazer uma coisa porca. Na minha opiniao uma coisa porca é a solução de um problema que causa mais problemas depois. Eu penso que exigir a solução de um problema no tempo mais curto possivel independentemente de qualidade é um problema de visao curta da administracao, que um bom administrador nao VAI querer que as pessoas facam programas porcos porque senao vai ser muito mais trabalho depois. E com relacao a prazos curtos demais, isso eh minhoca na cabeça de quem vende o programa/serviço.
Tem o caso de um amigo meu que chegou na empresa completamente caótica por causa dessa politica de prazos curtissimos, e calmamente comecou a organizar as coisas. Com essa organizacao alguns processos puderam ser melhor entendidos, puderam ser automatizados, e hoje as pessoas do departamento conseguem produzir muito mais em menos tempo, porque tem um esquema de classes muito bem organizado, e estao muito mais felizes.
Com relacao ao gosto pela coisa, eu lembro que quando eu fazia graduacao em filosofia, as pessoas ficavam na sala de aula discutindo filosofia antes mesmo de o professor chegar, e se em algum dia ele atrasasse (que seja meia hora ou 40 minutos ou mais ate (ja vi mais de 2 horas)), as pessoas ficavam esperando e conversando. Na informática as pessoas iam embora depois de 10 minutos, sem exceções.
Filosofia nao dá dinheiro (pelo menos é o que acham), e as pessoas que fazem filosofia só estão lá simplesmente porque têm interesse. Daí vejo na informática, colegas que nao gostavam de quase nenhuma matéria, evitavam as matérias interessantes da área, como por exemplo as matérias de tópicos e ainda permaneciam por lá, até conseguirem se formar e arranjar um emprego que pagasse bem, pra fazer uma coisa monotona e chata. Vejo essas pessoas depois que conseguiram trabalho e as pessoas que fizeram filosofia parecem estar muito mais felizes e realizadas do que as que fizeram informatica, mesmo ganhando menos.
Mas eu entendo o que voce passou para comecar a estudar outra coisa, eu tambem estou passando por uma crise, de querer mudar de área. Na verdade, agora que a gente já tem uma profissao que é bem fácil arranjar um trabalho fica mais dificil de querer parar de trabalhar com informatica, porque traz algumas coisas boas (retorno financeiro bom, que traz comida gostosa no prato todo dia e alguns luxos a mais), entao acho que o esforço (pelo menos no meu caso) seria mais para começar a trabalhar com outra coisa TAMBÉM, porque a vida trabalhando com informática é muito preto-e-branco e a vida com cores fica mais gostosa.
Um problema que eu acho que tem o nosso curso de computacao, como a gente teve, é que a gente nao estuda outras áreas do conhecimento humano. Isso na minha opiniao faz uma educação muito seca e pobre para satisfazer nossas necessidades mais emocionais. Falei com uma pessoa que fez faculdade na França, esses dias, e lá ele disse que a pessoa ganhava créditos fazendo matérias de outro curso, que ele escolhesse. Por exemplo, ele fazia computacao, mas metade dos creditos dele eram na área de filosofia, antropologia, e o que mais que ele quisesse. Na inglaterra parece que tambem tem isso. Acho que isso meio que força a pessoa a não ficar bitolada só no mundo da informática e também mexer com outras coisas bem interessantes.