Estou há algum tempo pensando sobre por que sou tão completamente avesso à idéia de ter uma máquina de fazer pão, mas amo minha panela de arroz. E não, não é “porque ela é japonesa”.
Minha primeira tese foi que fazer pão é um processo complexo, artesanal, e cozinhar arroz só mecânica, mas não é verdade. Fazer um bom arroz japonês sem tempero é uma arte tanto quanto fazer um bom pão, começando por saber escolher bem os grãos. Depois lave-os com cuidado. Meça bem a água. Deixe meia-uma hora em repouso para já inflar. Ferva na panela tampada em fogo alto. Assim que ferver, abaixe o fogo no mínimo e cozinhe até secar. Quando estiver quase secando, aumente para o máximo por uns trinta segundos e desligue. Deixe tampado quinze minutos para não perder a umidade.
E nós nem começamos a lidar com kombu e vinagre para arroz de sushi. Não, fazer arroz não é simples.
A resposta para minha dúvida veio num comentário da Márcia, quando preparávamos macarrão:
— É por isso que eu gosto de cozinhar com você. Você se diverte cozinhando.
Pensei um monte sobre isso e acho que ela está certa. Cozinhar é divertido pacas. A única coisa chata é cozinhar só para você. Eu gosto mesmo é de preparar comida para os outros. Já comentei como cozinha é a única coisa que consigo fazer não-narcisisticamente.
Então. Mas fazer arroz, mesmo arroz do bom, é chato. É tedioso e 90% das pessoas por aí nem vão notar todo o seu esforço (raios, 90% das pessoas por aí vão dizer “mas tá sem sal”). Fazer pão, por outro lado, é uma das atividades mais divertidas que os seres humanos inventaram. Metade cozinha, metade Pokémon. Coloque os seus funguinhos (do biológico congelado, lógico) no leite morno e cubra, que eles gostam de calor e escuridão. Deixe que cresçam. O leite deve criar uma camada de espuma viscosa, com o cheiro característico de fermento, e se não der, eles morreram na geladeira :( . Misture a farinha e as coisas, tomando o cuidado de não colocar muito sal, para não matar os fungos.
Aí vem a parte mais divertida: amassar. Derrame farinha sem dó em cima de uma mesa limpa. Jogue a massa grudenta, amasse para deixá-la mais ou menos plana, vire, jogue farinha por cima, dobre no meio, amasse para deixá-la mais ou menos plana, vire… A textura é deliciosa. Parece que você está brincando com massinha, só que é um monte de massinha. Pare quando a textura estiver parecida com o lóbulo de sua orelha. Coloque de volta na bacia e deixe os fungos crescerem mais um pouco. Eu faço como minha mãe: enrolo a bacia numa manta e deixo sob o sol (quanto tem sol nessa cidade esquecida por Deus). Vá lavar a farinha no lóbulo de sua orelha.
Quando a massa dobrar de tamanho, enrole os pães e deixe os fungos crescerem mais uma vez. E depois de tanto cuidado, asse-os e coma-os.
Pro inferno que eu vou deixar uma máquina fazer tudo isso em meu lugar. Seria o mesmo que comprar uma máquina de jogar videogame, ou uma máquina de ouvir música.
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Quando olho para minhas panquecas de beterraba com recheio de carne de soja, ou para meu coração de boi refogado com legumes (refogado na água, lógico, que óleo só de oliva), ou para meu penne ao molho, penso sempre a mesma coisa: se você quer comida decente, faça você mesmo.
Cozinhar como diversão é uma idéia meio estranha. Minha mãe não estava exatamente se divertindo nas duas horas diárias em que ela precisava pilotar o fogão. Talvez seja pra isso que a comida instantânea exista: para nos ensinar o valor daquelas duas horas, para que a gente perceba o que perdemos quando abrimos mão delas. Talvez as laranjas insossas do supermercado existam para que a gente saiba o que é ter uma laranjeira no quintal, os ovos de granja sem gosto para que a gente não esqueça como era ter um galinheiro. A vida-corrida em cubículos toda como uma experiência habitacional fracassada.