Contos


Ele gostava de livros velhos. Não que isso fosse estranho, claro, é um traço comum a quase todo leitor não alérgico. Nas sombras dos corredores da biblioteca, seus óculos enormes eram um par de bolas negras oleosas, absurdas, caçando livros voluptuosamente: Hemingway, Kant, Byron, Sidney Sheldon, Dan Brown, seu apetite não tinha limites.

Poucos prestavam atenção no corpo esguio que se arrastava pelas estantes, e tampouco ele tinha mais do que um resquício de consciência de seus colegas leitores. Era assim desde pequeno. O desinteresse mútuo que partilhava com a vida era como que uma habilidade inata, de forma que um não se importava com o outro. Morava sozinho em um quarto qualquer do alojamento universitário, as paredes verdes já amareladas e o vidro quebrado da janela sustentado por durex. O único móvel era uma cama velha com baú, sobre a qual ficava largado um cobertor xadrez cheio de poeira. Perdera o contato com a família e não tinha amigos. Nas aulas sentava-se sempre no fundo, atrás de todos, nunca falava nada e fazia as provas discretamente. Suas notas oscilavam em torno da média, vez ou outra reprovava.

Ele pouco se importava. Passava mais e mais tempo na biblioteca, e à medida que deixava de dar atenção aos outros estes retribuíam-lhe o descaso. As interrupções para comprar uma fatia de pizza na cantina eram-lhe um incômodo, e não notava o quanto andava emagrecendo. Achava a gordura molhada nojenta, comparada à pureza seca do pó e papel. E o cheiro! Nada estranho em gostar do cheiro de livros, mas ele começara a mergulhar o nariz nos volumes com luxúria, desejo mesmo, as páginas eram seu vinho, seu café, seu charuto: cheirava-as antes de devorá-las.

Era impressão sua, ou o aroma variava com autor, tema, estilo? Não, não era; podia agora discernir com facilidade o teor do livro só pelo olfato. Impossível confundir o cheiro azedo de Machado com o terrestre de Guimarães.

De tanto debruçar-se sobre volumes a fim de cheirá-los, sua coluna passou a doer muito. Sentia-se feito de gelatina, incapaz de sustentar o próprio corpo. Percebeu que a aflição era aliviada se a cada passo curvasse o torso para frente e para trás, alternadamente, e passou a andar assim, bicando o ar como um corvo ridículo de desenhos animados. Mas ninguém notou.

Um dia estava colado à capa de uma antologia de Alberto Caeiro, aspirando — não havia dúvidas — a fragrância de flores do campo, quando não resistiu e lambeu. Erva-doce, tinha gosto de erva-doce. Este momento pareceu-lhe mágico, uma grande descoberta, sempre achou Caeiro mais próprio para gostar de lamber do que de ler, e ficou um bom tempo lá, imóvel, a língua obscena grudada no hiato de “antologia”. Abriu o livro sem pressa, leu, cheirou, lambeu, não resistiu e beliscou a pontinha de uma página sobre um rio de aldeia.

Passou aquela tarde comendo o canto superior de folhas, transformado pelo destino em um estranho Van Gogh psicopata a arrancar e devorar orelhas em série. Extasiado, esqueceu-se de voltar para casa. As lentes grossas de seus óculos, cobertas por sombras, não refletiram a luz da lanterna do segurança sonolento. Alimentou-se a noite toda.

Pela manhã sentia-se satisfeito, mas a privação de sono o tornara sensível à claridade. Acomodou seu ser pequeno e magro embaixo da escada e dormiu. O tempo todo agia com uma naturalidade incrível, sem nunca cogitar que fazia algo estranho ou impróprio.

Os livros saciavam-lhe, não sentia mais fome. Descobrira que o centro da folha, o texto em si, concentrava mais sabor, e abandonou as orelhas. Cada letra tinha um gosto próprio, mas que ao mesmo tempo variava com a sílaba, palavra, parágrafo e livro em que estava inserida. Os elementos gramaticais eram todos hologramas apetitosos. O sabor do “a” preposição, por exemplo, era diferente do sabor do “a” artigo. Um “a” crase tinha o gosto do primeiro, mas seu acento grave o mesmo que o artigo. Os sabores se misturavam e passou a comer uma letra por página, a fim de experimentar vários livros. E com tal dieta mirrava, mirrava muito.

Por bastante tempo devorou Camões (que lembrava pão-de-ló) sem nunca enjoar. Apreciava muito as inconstâncias de Nietzsche, ora amargo, ora cítrico, ora doce como um suspiro. Misturava os quatro sabores de Pessoa e achava bom. Poe deixava-o bêbado, Sartre, com ânsias, e Paulo Coelho era como um pudim de bar enjoativo; mas não recusava nada, entregava-se todo às delícias gastroliterárias, intelligentsia e gourmet num só corpo.

Desejando um prato típico, tentou alcançar a prateleira de literatura coreana, mas mal podia tocar a segunda fileira de livros. Pensou em uma escada, mas percebeu que seus dedos pastosos e lambidos aderiam com facilidade à madeira. Escalava estantes e sua gula aumentava sem parar, o corpo pálido curvando-se ritmicamente, seus olhos um par de bolas negras oleosas, absurdas, caçando livros voluptuosamente. Seu último pensamento antes do cérebro encolher para proporções insectóides foi que seus colegas traças também haviam sido um dia humanos, leitores ávidos como ele mesmo. Mas, possuído pela voragem, não teve tempo de refletir sobre as implicações.