Poesia


1.

Seguranças não gostam de mim.
  Mesmo que eu tente me comportar
  e use terno e gravata e
  pendure um crachá no pescoço
    —essas coleiras de exibir fotos humilhantes—
    e mesmo que tente não andar de meu jeito estranho
    não olhar de meu jeito estranho
    não gritar o grito estranho que cresce em mim toda
                                   [vez que me acorrento
                                    nessas prisões de concreto—
      mesmo assim
       o faro deles denuncia
        que não sou um rapaz honesto
           trabalhador
              decente
      e eles sempre me recebem com olhares tortos pegajosos
        grudados em minha nuca até eu sair de vista.

2. Apple skin

I can touch all these people if I want to
  (it's just a matter of a smile faked out of tedium
    a couple sweet words
     a catlike glance of lustful green eyes).

  None of them will talk to me, tho
   none will share their moments
    none will walk with me in silence, holding hands,
                               [wasting time in the park
  So what am I? I guess
   —A beautiful body trapped in a very boring person.

Se não sou ao quadrado,
sou metade.

(Da série: quem souber ler, que leia)

Se somos iguais somos distantes,
porque ermitões.
Mas nos olhamos
e em um instante cruzamos o infinito.
Digo teu nome e não tem mais volta.
Cientes de tudo, escolhemos
não ter escolha.

Os deuses, de tão elevados, são chatos.
Cheios de frescuras e mesquinharias,
crueldade pensada e vingança lenta.
Nós, mortais, tendo um ao outro,
livramo-nos deles num sacolejo.

orgulhosos de nossos defeitos,
nós nos amamos.

(Da série: quem souber ler, que leia)

Não faz a barba.
Não lê jornal.
Não usa sapato.
Não toma leite desnatado.
Não gosta de crianças.
Não espera.
Não ama.

É um deus velho e terrível
que quando acorda quer sangue.

(Da série: quem souber ler, que leia)

Curitiba é fria e úmida, o elemento água do naturalismo antigo: inverno, fleuma, calma, apatia. Sabemos que o sol se foi quando as nuvens apagam e os postes acendem, há uma orgia de chuva com luz amarela. A cidade toda torna-se uma foto sépia de Dali, escorrendo. (more…)

um gigahert, um e meio, dois, e
mais rápido, além; cpu-scale
meu ser, adrenalina e agp,
fibra ótica em meu cérebro, corpo —
zero volts e cinco volts, yin e yang,
sessenta e quatro bits, mil e vinte e
quatro megas, duzentas e cinqüenta
e seis mágoas, complemento de dois —
sugue meu sangue, sereia maldita,
entupa o vazio de minhas veias
com tuas serpentes de cobre e plástico —
minhas sinapses pulsam, encantadas
na batida do tambor de cristal
que é teu coração, quartzo luminoso.

SaGa frontier é um jogo exótico. Foi o primeiro RPG que joguei no Playstation, e possivelmente o primeiro em inglês para o sistema. É a continuação da série Romancing SaGa (1, 2 e 3 para o SNES, e também um para Wonderswan Color), que já atraía opiniões fortes desde os velhos tempos. A maioria dos fãs ou odeia a série (”a ovelha negra da Square”) ou a adora com paixão. Não preciso dizer que pertenço ao último grupo.

Na comunidade de SaGa Frontier do Orkut há uma discussão sobre golpes preferidos do jogo. SaGa tem ataques baseados em armas, e eu sempre gostei dos três de katana. Em Blizzard o personagem ataca com poderes congelantes enquanto surge no fundo o ideograma de “neve”, 雪. Moonlight Cut é um corte sorrateiro, com a imagem da lua e seu ideograma 月. O terceiro movimento, muito mais difícil de obter, chama-se “Tres Flores”. É um mistério para mim o porquê do nome em português ou espanhol. A animação de ataque envolve pétalas de cerejeira e o símbolo 花.

SaGa Frontier possui um sistema de combinação de golpes afins. Usando estas três técnicas simultaneamente, os espadachins realizarão a seqüência “neve, lua e flores”. Descobri no GameFAQs que tal combinação imita uma técnica do Romancing SaGa 3, “Midare Setgetsuka”(sic).

“Setge” não é uma romanização válida de japonês, mas fiquei intrigado. Midare certamente é 乱れ, “profusão”, e a segunda palavra sem dúvida é uma composição de 雪 (setsu), 月 (getsu) e 花 (ka). Dá pra ler 雪月花 de várias maneiras, mas a mais comum parece ser setsugekka. Midare Setsugekka, “neve, lua e flores em profusão”. Pesquisando, descobri que a mesma técnica apareceu no Legend of Mana como Beautiful Three.

Soa como uma expressão artística japonesa. Qual seria o significado? Alguns resultados interessantes encontrados no Google foram:

  • Camellia sasanqua, uma flor japonesa. Neste caso, o nome poderia ser entendido como “flor da neve e da lua”.
  • Padrão Setsugekka na cerimônia do chá. Apreciado pelo representante da décima quinta geração da Urasenke, mestre Tantansai.
  • Pinturas com os três temas.

Provavelmente um tema poético. Só fui encontrar algo na edição japonesa da Wikipedia. Pelo que pude entender, a expressão foi usada originalmente pelo poeta chinês Hakukyoi (cn. Po Chui?) e era uma alusão à beleza do fluxo das estações (a neve do inverno, a lua do outono, as flores da primavera). No Japão, exceto no campo da poesia, a frase foi entendida como uma estética conjunta — as composições incluíam todos os três motivos.

Esta é, portanto, a raiz do Midare Setsugekka. Ainda restam perguntas em aberto, então aproveito para pedir ajuda dos colegas jogadores. Por que “Tres Flores”? A técnica surgiu em Romancing SaGa 3, ou apareceu antes? E quanto aos jogos novos, como SaGa Frontier 2, Unlimited SaGa e Romancing SaGa: Ministrel Song? Além de Legend of Mana, aparece em outros jogos? Quem souber, por favor, deixe um comentário.

Fiquei em dúvida se publicava isto ou não, foi escrito ontem à noite sem cuidado… é poesia adolescente sem valor. Mas ficou bonitinho, até. Digamos que psicografei de um moleque português, pintor e discípulo do Caeiro.

Coisas

Gosto do meu quarto
porque ele está aqui.

Estava deitado de costas
olhando as tábuas do teto
e me senti satisfeito.

Não tenho tevê, rádio ou internet,
não sei guardar dinheiro e não sou bom em nada.
Estou sozinho agora, e que me importa?
Meu quarto vazio é um desenho bonito,
e minha solidão eu bebo aos poucos.

Ah,
as capas coloridas de livros não lidos,
a garrafa térmica, escura e redonda,
as manchas pardas no lençol velho.

Estou enamorado do imediato.
Dispenso os sonhos e responsabilidades:
a mim me bastam as coisas.

Réplica simples, à la Alberto Caeiro, a um amigo .

As folhas não tentam nada,
e tampouco vêem cousa alguma.

Elas simplesmente são folhas
e, alheias a toda idéia,
caem.

De mansinho, na multinacional,
o pardal faz ninho.

Fui hoje ao meu último treino de cerimônia do chá, despedir-me do pessoal. Ou assim pensei. O grupo já estava em férias, e encontrei uma Praça do Japão vazia.

Decidi ficar por lá mesmo, lendo no segundo andar o “History of Haiku” de Blyth. Foi minha despedida do memorial.

A policial em serviço veio conversar comigo e esqueceu sua xícara de café. Levei a xícara para a cozinha, aproveitando para roubar um cafezinho. Passava das dez, e ele estava morno. O murmúrio dos lagos era relaxante, mas os koi não estavam lá.

Manhã solitária;
bebo como fosse água
o café já frio.
Não vejo nenhuma carpa
hoje, nos lagos da praça.

Durante o inverno, gosto de me vestir preto e cinza para o treino. Além das cores sóbrias serem próprias para a estação, acredito que elas harmonizam com o carvão visível no ro (fornalha de piso). Lembrei disso enquanto observava um pardal tentando aninhar-se no telhado.

Serei um pardal?
Em tons de cinza, no ninho
acima do chão.

Na praça pessoas, cachorros, flores, o Buda, tudo em cores esmaecidas. Desejei o vermelho alaranjado dos peixes e fui atendido, mas não pela natureza.

Ah! Encontrei carpas:
Em fila, três, quatro táxis
expressos, garis.

A Lia é uma garota de nosso grupo de kendô. O que nela mais chama a atenção é a energia. Lia não para nunca, é incrível.

Hoje acertei sua cabeça com o shinai sem querer e ela riu de uma maneira que torna difícil manter a pose…

Levando um golpe
Ela ri "kya-ha-ha"
fã de animê

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Sempre quis falar sobre as lâmpadas fluorescentes. Durante a curta meditação antes e depois do treino, o zumbido dos reatores é a única exceção ao silêncio.

Lo and behold, minha primeira tentativa de um haiku em japonês. Deve estar horrível.

寒稽古      kangeiko
蛍光灯の  keikoutou no
音ばかり    oto bakari
Treino de inverno
Apenas o ruído
da lâmpada fluorescente.

“Lâmpada fluorescente” (蛍光灯keikoutou) é literalmente “lâmpada de luz de vaga-lume”.